sábado, 29 de abril de 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the sea, 2016, Amazon Studios/K Period Media/Pearl Street Films, 137min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Jennifer Lame. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ruth De Jong/Florencia Martin. Produção executiva: Declan Baldwin, Josh Godfrey, John Krasinski, Bill Migliore. Produção: Lauren Beck, Matt Damon, Chris Moore, Kimberly Steward, Kevin J. Walsh. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Gretchen Mol, Matthew Broderick. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kenneth Lonergan), Ator (Casey Affleck), Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Casey Affleck), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Casey Affleck) 

A cerimônia de entrega do Oscar 2017 ficou marcada pela maior gafe da história do prêmio, quando os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway divulgaram o filme errado como vencedor da principal estatueta - uma situação constrangedora resolvida ainda no palco e diante dos olhos de milhões de pessoas ao redor do mundo. Porém, antes disso, outro momento desconfortável havia acontecido sem que houvesse tanto alarde: ao ser anunciado como o melhor ator do ano por seu desempenho em "Manchester à beira-mar", Casey Affleck recebeu o troféu das mãos da melhor atriz do ano anterior, Brie Larson (por "O quarto de Jack") - e ela simplesmente se recusou a cumprimentá-lo com mais efusão do que um simples aperto de mãos. Explica-se: acusado de assédio sexual por diversas mulheres envolvidas no falso documentário "I'm still here", com Joaquin Phoenix, Affleck batia de frente com o envolvimento de Larson em campanhas contra tais atitudes. O gesto da atriz - cujo Oscar aconteceu justamente por uma personagem vítima de cárcere privado e abuso - passou quase em branco, mas acabou por manchar a trajetória de um filme que, desde sua estreia, no Festival de Sundance mostrou-se uma das mais premiadas produções da temporada - com Affleck sendo eleito melhor ator não apenas pela Academia, mas também pelo Golden Globe, pelo BAFTA e algumas das mais importantes associações de críticos dos EUA.

A ironia é que Affleck nem era a primeira escolha para o papel principal do filme, dirigido por Kenneth Lonergan, conhecido por suas produções independentes - e indicações ao Oscar de roteiro por "Conte comigo" (2000) e "Gangues de Nova York" (2003): quando a ideia da história surgiu, durante as filmagens de "Os agentes do destino" (2011), em um jantar entre Matt Damon (astro do filme) e John Krasinski (também ator, casado com a estrela da produção, Emily Blunt). Krasinski deu a ideia do roteiro a Damon, que gostou tanto da possibilidade de transformá-la em filme que se dispunha inclusive a dirigir e ficar com o papel principal. Lonergan, seu amigo de longa data, aceitou a proposta de escrever o roteiro, mas compromissos anteriores atrasaram tanto o projeto que, quando finalmente colocou seu ponto final na trama, Matt Damon é quem estava com a agenda cheia. Se mantendo no papel de produtor, ele sugeriu Casey Affleck para liderar o elenco. E a coisa tomou forma: com um custo de 8 milhões e meio de dólares e filmado em apenas 32 dias, "Manchester à beira-mar" foi a primeira produção distribuída pela Amazon Studios e arrecadou mais de 60 milhões de dólares mundo afora - graças principalmente ao fato de ter se tornado queridinho dos críticos desde sua estreia.



"Manchester à beira-mar" é um drama no melhor sentido da palavra: sem medo de apostar nos sentimentos mais primais do público, Kenneth Lonergan não poupa sofrimento a seus personagens, e carrega junto cada um na plateia a um mundo triste e solitário - mas felizmente temperado com um sutil senso de humor e uma espécie de otimismo que escapa até mesmo nos momentos mais difíceis, uma característica do diretor. Seu protagonista, Lee Chandler, é um Jó moderno, um homem de quem tudo foi tirado sem piedade e que leva sua vida no piloto automático - por motivos que vão sendo revelados aos poucos e justificam plenamente sua apatia diante da rotina e seu comportamento agressivo. Separado da mulher, Randi (Michelle Williams, brilhante e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e trabalhando como um silencioso e ranzinza zelador de um prédio em Boston, longe de seus últimos vínculos familiares, com o irmão, Joe (Kyle Chandler), e o sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Quando Joe morre em decorrência de uma doença cardíaca, Lee descobre que, por uma determinação em seu testamento, deve ficar com a guarda do rapaz. Logicamente Patrick não quer deixar a cidade de Manchester - onde tem amigos, uma banda e duas namoradas - e Lee não tem intenções de voltar ao cenário de sua tragédia particular: está estabelecido o impasse.

Unanimemente aplaudido por seu desempenho no papel central, Casey Affleck na verdade não faz muito mais do que desfilar pela tela de forma apática e desanimada - uma característica do personagem, é claro, mas basta uma conferida em outras de suas atuações, inclusive na que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, em "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007), para perceber que não há muita diferença. Sem carisma o bastante para conectar a audiência a seu sofrimento, Affleck acaba por transformar um roteiro poderoso (vencedor da estatueta em sua categoria) em um drama apenas interessante, valorizado muito mais pelo elenco secundário do que por seu protagonista. Apesar de aparecer pouquíssimo em cena, Michelle Williams simplesmente rouba o filme, em um momento em que finalmente todo o drama represado pela sutileza de Lonergan vem à tona - são lágrimas necessárias para transformar o árido caminho de Lee em algo menos duro para a plateia, e Michelle cumpre a missão com louvor mesmo diante de um quase invisível Casey Affleck, mais um (dentre vários) casos de alucinação coletiva junto aos membros da Academia. "Manchester à beira-mar" não é um filme bom por causa de Affleck: ele é bom apesar dele.

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