quinta-feira, 26 de novembro de 2015

OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (Los amantes pasajeros, 2013, El Deseo, 96min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Jose Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Davidelfin, Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Clara Notari. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Penelope Cruz, Javier Camara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Antonio de la Torre, Raul Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva, Miguel Ángel Silvestre, Laya Martí, Paz Vega, Blanca Suárez. Estreia: 08/3/13

Depois de aventurar-se pelo lado negro da alma humana no denso "A pele que habito", Pedro Almodovar parece ter voltado às origens transgressoras e debochadas do início de sua carreira com "Os amantes passageiros". Despretensioso e abertamente escrachado, seu filme mostra que aquele senso de humor que era a essência de obras como "Labirinto de paixões" e "Pepi, Luci, Bom" continua intacto debaixo do verniz de cineasta sério e consagrado com dois Oscar. Centrado quase que exclusivamente em um único cenário - um avião com uma pane que ameaça a todos os tripulantes e passageiros - o roteiro de Almodovar usa e abusa de diálogos surreais, personagens ensandecidos (por nascimento ou pelo abuso de álcool e drogas) e atores velhos conhecidos do diretor, como Cecilia Roth, Lola Dueñas e Javier Camara - até mesmo Antonio Banderas e Penélope Cruz participam da brincadeira, em uma participação especial nos primeiros minutos de projeção.

Conforme o próprio trailer já deixava antever, "Os amantes passageiros" não se leva a sério - e nem pede à audiência que o faça. A começar pelo trio de protagonistas - comissários de bordo gays vividos por Javier Camara, Raúl Arévalo e Carlos Areces em atuações pra lá de inspiradas - tudo no filme pede que o público esqueça qualquer preconceito e se entregue sem medidas às loucuras do roteiro. Só mesmo assim - com total consciência da real essência do diretor - é que a experiência se torna ainda mais divertida. O Almodovar de "Os amores passageiros" está muito mais para o diretor trash e criativo de "Maus hábitos" e "O que fiz eu para merecer isto?" do que para o bem mais comportado (mas nem por isso menos genial) criador de "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Estão em cena situações bizarras que combinam muito mais com a primeira fase de sua carreira - em que desafiava com humor e ironia o governo franquista - do que com seu momentos mais reflexivos, que lhe tornaram o cineasta espanhol mais respeitado desde Buñuel. É esse Almodovar original que consegue fazer com que o absurdo se torne crível, como nos melhores momentos de sua filmografia.


A trama começa com uma sequência aparentemente sem importância que reúne Antonio Banderas e Penélope Cruz como um casal de namorados que trabalha para uma companhia aérea e que, felizes com a notícia de uma gravidez, não percebe que falhou em um dos procedimentos de segurança antes do próximo voo. Tal erro só é percebido tarde demais, quando o avião já está a caminho da Cidade do México, com passageiros e tripulação a bordo e descobrindo, aos poucos, que podem estar em seus últimos momentos. Para aliviar a tensão, os comissários Joserra (Javier Camara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévalo) fazem o possível, dopando a segunda classe e promovendo shows de dublagem para os demais passageiros. Entre eles, inclui-se Norma Boss (Cecilia Roth), uma ex-atriz, hoje empresária no ramo da prostituição de luxo que está na mira de um assassino de aluguel, Ricardo Galán (Guilermo Toledo), um ator dividido entre duas mulheres, e Sr. Más (José Luís Torrijo), o presidente de um banco envolvido em um escândalo financeiro - além de um noivo (Miguel Ángel Silvestre, que depois faria sucesso na série "Sense8") que está em lua-de-mel e é cobiçado pela sensitiva Bruna (Lola Dueñas), que quer perder a virgindade antes de morrer, e pelo comissário Fajas. Enquanto os pobres passageiros não sabem, a princípio, o tamanho do perigo que correm, os pilotos estão mais preocupados com seus problemas conjugais e sexuais do que com a possibilidade de espatifar seu avião.

Livre da pressão de realizar mais um filme para agradar aos festivais de cinema e à crítica intelectualoide que tornou-o hype, Almodovar fez, com "Os amantes passageiros", o que há muito tempo seu público fiel vinha desejando: um trabalho anárquico, sem amarras e sem preocupações que não a de fazer rir. Talvez isso decepcione quem espera algo mais impactante, mas sem dúvida agrada a quem sabe quem realmente o realizador é. O humor de seu novo filme brinca com a sexualidade, com a religião, com drogas, com redes sociais e com a família com o mesmo cáustico senso de humor que vinha sendo deixado de lado há bons anos. É iconoclasta, é cafona, é gay ao extremo - que o diga a sequência musical onde os comissários dublam a canção "I'm so excited" (título do filme para o mercado de língua inglesa).  Mas é, também, engraçadíssimo, leve, despretensioso e Almodovar na veia. Não é nem de longe seu melhor trabalho, mas é infinitamente superior a qualquer comédia que se pretende engraçada mas tem medo de ousadias.

Nenhum comentário: