terça-feira

A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA


A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (The last picture show, 1971, Columbia Pictures, 118min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Peter Bogdanovich, Larry McMurtry, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Donn Cambern. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Walter Scott Herndon. Produção executiva: Bert Schneider. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Sheperd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eillen Brennan, Sam Bottoms, Randy Quaid, Clu Gulager. Estreia: 02/10/71

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Bogdanovich), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Ator Coadjuvante (Ben Johnson), Atriz Coadjuvante (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Cloris Leachman), Roteiro Adaptado, Fotografia

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Ben Johnson), Atriz Coadjuvante (Cloris Leachman)

Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Ben Johnson)

Uma bela fotografia em preto-e-branco para sublinhar o tom melancólico e decadente. Personagens perdidos entre a busca por um futuro incerto e a nostalgia de um passado cálido. Uma atmosfera carregada de sensualidade e frustrações juvenis. Um diretor com olhar apurado e sensível aos detalhes. Um elenco equilibrado entre jovens promessas e talentos já consagrados. E um roteiro delicado, quase contemplativo e carregado de uma tristeza quase palpável. Com esses ingredientes certeiros, "A última sessão de cinema" tornou-se, quase de imediato, a obra-prima mais duradoura do cineasta Peter Bogdanovich. Adaptado do romance de Larry McMurtry - que ainda veria seu "Laços de ternura" fazer a limpa no Oscar de 1983 e sairia premiado pela Academia pela versão cinematográfica do conto "O segredo de Brokeback Mountain", de Anne Proulx em 2005 -, o filme de Bogdanovich surgiu, em 1971, como uma bem-vinda lembrança de que, a despeito das novidades formais que vinham chegando à Hollywood a reboque de uma nova geração de realizadores, nada é mais importante do que contar uma boa história, repleta de humanismo e sentimentos universais. Indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme, direção e roteiro adaptado), "A última sessão de cinema" não demorou a virar cult e encontrar o caminho para o coração do público e da crítica. Em seu retrato carinhoso do fim de um período, não deixa de ser considerado uma espécie de irmão mais velho e mais sério de "Loucuras de verão" (1973) - em que George Lucas acompanhava um grupo de amigos em sua última noite antes da partida para a faculdade, no começo dos anos 1960. Porém, se a divertida obra de Lucas prima pelo bom-humor, a adaptação do livro de McMurtry opta por um viés mais desolado e dramático - e encontra em Bogdanovich o diretor ideal.

Em seu segundo longa-metragem - para efeitos práticos é conveniente deixar de lado sua experiência em "Viagem ao planeta das mulheres", de 1968, uma produção russa que ele reeditou e lançou sob o pseudônimo de Derek Thomas - e única indicação ao Oscar de melhor diretor, Bogdanovich demonstra uma segurança ímpar, assim como um senso de nostalgia que seus trinta anos de idade poderiam apenas imaginar (ou emular do romance de  Larry McMurtry, um escritor texano cujas reminiscências serviram de inspiração para a trama e que coescreveu o roteiro com o cineasta). Talvez a perda do pai durante as filmagens tenha um pouco de responsabilidade pela tristeza quase palpável das imagens fotografadas por Robert Surtees, mas o fato é que a história de amor, perda e ritos de passagem que tem lugar na empoeirada Anarene, Texas no período compreendido entre novembro de 1951 e outubro de 1952 toca fundo no coração - e fica com o espectador por um bom tempo após o fim da sessão. Poucas vezes em Hollywood uma adaptação cinematográfica encontrou correspondência tão fiel - tanto em termos de transposição da trama quanto em clima. Pode-se dizer que o ator Sal Mineo, responsável pelo encontro de cineasta e livro, fez um favor e tanto aos cinéfilos.


 

Mineo, apaixonado pela obra mas ciente de que não tinha mais idade para viver qualquer um dos protagonistas mais jovens, apresentou o romance a Bogdanovich, que também encantou-se pelos personagens e resolveu traduzir as palavras de McMurtry em imagens. Para isso, tomou uma decisão considerada arriscada comercialmente: filmar em preto-e-branco. Incentivado por Orson Welles em sua cruzada artística, o cineasta (quase) iniciante, desafiou as regras não escritas que condenavam à morte qualquer produção que fugisse do que se considerava um investimento seguro. Escolhendo a pequena Archer City como locação principal de seu projeto (não por acaso a cidade natal de McMurtry) e contando com um elenco de jovens atores praticamente iniciantes, o diretor cercou-se, no entanto, de talentos já consagrados na lista de coadjuvantes. Na impossibilidade de contar com James Stewart em um dos papéis cruciais da história (o veterano ator já estava comprometido com uma série de televisão), sua escolha recaiu sobre Ben Johnson, que, incentivado por John Ford, não apenas aceitou o desafio como fez uma limpa nas cerimônias de premiação da temporada: mesmo com pouco menos de 10 minutos em cena, Johnson levou o BAFTA, o Golden Globe e o Oscar. Sua colega de elenco, Cloris Leachman também conquistou a Academia e ficou com a estatueta de atriz coadjuvante por seu desempenho como Ruth Popper, uma mulher negligenciada pelo marido e que encontra consolo nos braços do jovem Sonny Crawford (Timothy Bottoms, uma grata revelação). Leachman, no entanto, contou com a sorte: seu papel seria de Ellen Burstyn, que preferiu viver Lois Farrow, uma beldade de outrora, mãe da moça mais cobiçada da cidade - interpretada pela estonteante Cybill Sheperd - e que tem nas lembranças do passado sua maior felicidade.

Mas se o elenco de veteranos é de encher os olhos, a sensação maior de "A última sessão de cinema" é  grupo de jovens talentos reunidos pelo cineasta. Jeff Bridges concorreu ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como Duane Jackson, o namorado da desejada Jacy - papel de estreia de Cybill Sheperd, que aproveitou as filmagens para ter um rápido namoro com o colega de cena e se envolver com o diretor, levando-o ao fim de seu casamento com a designer de produção Polly Platt. Timothy Bottoms quase rouba a cena na pele de Sonny, um rapaz perdido entre o presente sonolento e um futuro nebuloso, e de quebra arrumou trabalho também para o irmão, Sam, que conquista o público mesmo sem dizer uma palavra na pele de Billy - cujo destino trágico catalisa o memorável desfecho do filme. O equilíbrio alcançado por Bogdanovich, entre juventude e maturidade, entre presente, passado e futuro e entre sonhos e frustrações é o grande trunfo de "A última sessão de cinema". O carinho com que o roteiro trata seus personagens é plenamente perceptível nas belas imagens de Surtees e não é de surpreender que o cineasta os tenha revisitado em uma continuação temporã, o pouco visto e pouco lembrado "Texasville", lançado sem sucesso em 1990: assim como acontece com boa parte dos habitantes da pequena Anarene, o filme perdeu o trem da história e serviu apenas de encerramento (desnecessário, ainda que simpático) para um dos mais importantes filmes norte-americanos do começo dos anos 1970.

sábado

O ESCORPIÃO DE JADE


O ESCORPIÃO DE JADE (The curse of the Jade Scorpion, 2001, Dreamworks Pictures/Gravier Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Helen Hunt, Dan Ayckroyd, Charlize Theron, Wallace Shawn, Elizabeth Berkley, David Ogden Stiers. Estreia: 05/8/2001 (Hollywood Film Festival)

Nova York, 1940. CW Briggs trabalha há dezesseis anos como investigador em uma agência de seguros, e é considerado um dos melhores do ramo por, segundo gosta de afirmar, ter a mente criminosa necessária para o trabalho. Arraigado a seus métodos clássicos, Briggs vê em Betty Ann Fitzgerald, a mais nova contratada do escritório, uma ameaça à sua estabilidade profissional: cheia de ideias para renovar o ambiente, ela não faz a menor questão de esconder sua antipatia gratuita pelo veterano colega. A relação de total antagonismo entre os dois não é desconhecida pelos outros empregados, ao contrário do relacionamento secreto entre Betty Ann e seu chefe, Chris Magruder - que há tempos promete abandonar a família para assumir o novo relacionamento. Ambos frustrados - por motivos diferentes - e necessitados de momentos de diversão, os dois aceitam o convite para a apresentação de um mágico em uma casa noturna e tem suas rotinas transformadas: hipnotizados pelo misterioso Voltan, eles divertem a plateia ao se revelarem apaixonados quando em transe - e, à sua revelia e sem o conhecimento de mais ninguém, passam, a partir de então, a cometer, sob o comando do mago, uma série de roubos de joias que podem colocá-los em sérios problemas com a justiça. Além disso, tal situação acaba os aproximando mais do que gostariam de admitir.

Lançado em 2001 e distribuído pela Dreamworks Pictures, "O escorpião de jade" estabeleceu duas marcas numéricas para a carreira de Woody Allen: não apenas era o filme mais caro do diretor até então (com um orçamento de 28 milhões de dólares) como estreou em cerca de 900 salas nos EUA, um lançamento bastante generoso para um cineasta acostumado a circuitos bem mais modestos. Tal providência não foi suficiente, no entanto, para chamar a atenção do público, que não se deixou conquistar por seu humor inteligente e produção caprichada. Apresentando uma reconstituição de época cuidadosa e uma paleta de cores das mais elegantes, "O escorpião de jade" é uma espécie de homenagem do diretor às comédias românticas da década de 1940, estreladas por Cary Grant e Katharine Hepburn. Repleto de diálogos brilhantes e com uma trama original e imprevisível, o filme reafirma a fascinação de Allen por mágicos e afins (elementos com que já havia brincado em "Édipo arrasado" (1989) e "Simplesmente Alice" (1990)), além de oferecer a Helen Hunt um de seus raros bons papéis depois do Oscar por "Melhor é impossível (1997). Hunt, que teve o privilégio de ler o roteiro inteiro antes de aceitar o trabalho (e mesmo assim com um mensageiro esperando na sala ao lado para levar o script de volta), está nitidamente à vontade como Betty Ann Fitzgerald, uma mulher inteligente e sagaz, mas incapaz de se deixar envolver pela mais antiga das mentiras masculinas. Na pele de Briggs, porém, Allen não vai além do que se espera de uma atuação sua: não à toa, ele detesta seu desempenho no filme, frustrado pela recusa de suas duas primeiras opções, Tom Hanks e Jack Nicholson.

 

Não que Allen não esteja em boa forma. Como ele mesmo reconhece, seus dons como ator são bastante restritos, mas CW Briggs é um personagem que cabe em suas limitações. Levemente atrapalhado, metido a conquistador, cheio de manias e com uma saudável dose de neuroses, Briggs diverte a plateia com tiradas rápidas e repletas de um sarcasmo delicioso. Sua parceria com Helen Hunt é preciosa, e a participação mais do que especial de Charlize Theron (depois de uma rápida aparição em "Celebridades", de 1999) incendeia a tela em poucos minutos. Além disso, ao contrário do que acontece na maioria de sua filmografia, o roteirista Allen não se obriga a ter pressa: perto de sua média de 90 minutos de duração, as quase duas horas de "O escorpião de jade" soam como um épico - e, por incrível que pareça, não há nenhuma gordurinha na narrativa, que flui equilibrada entre a comédia romântica à moda antiga e um leve drama policial. Aliás, se há algo do que se reclamar é justamente o fato desse equilíbrio prejudicar o aprofundamento das duas histórias contadas, ainda que elas dialoguem profundamente: apesar da trama dos roubos render bons momentos, é a relação entre Briggs e Betty Ann que torna o filme notável.

Relegado a um segundo plano na carreira de Allen, "O escorpião de jade" estreou nos EUA pouco mais de um mês antes dos atentados ao World Trade Center e, em um gesto de simpatia, o cineasta pisou pela primeira vez no palco da cerimônia do Oscar no começo do ano seguinte para apresentar uma homenagem à Nova York. Em uma de suas tiradas geniais, ele começou seu discurso afirmando que, ao receber um telefonema da Academia, pensou que fosse para um pedido de desculpas por seus integrantes terem ignorado seu filme. Teria sido compreensível: mesmo que "O escorpião de jade" não seja uma obra-prima, seus valores de produção são inegáveis, e uma indicação à estatueta de roteiro original era mais que merecida. Pouco visto e pouco comentado, é um filme que precisa ser descoberto e alçado à lista dos melhores do diretor.

domingo

PODERIA ME PERDOAR?


PODERIA ME PERDOAR? (Can you ever forgive me?, 2018, Fox Searchlight Pictures, 106min) Direção: Marielle Heller. Roteiro: Nicole Holofcener, Jeff Whitty, livro de Lee Israel. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Anne McCabe. Música: Nate Heller. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Stephen Carter/Sarah E. McMillan. Produção executiva: Bob Balaban, Pamela Hirsch, Jawal Nga. Produção: Anne Carey, Amy Nauiokas, David Yarnell. Elenco: Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Ben Falcone. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Melissa McCarthy), Ator Coadjuvante (Richard E. Grant), Roteiro Adaptado

Não foram apenas a transformação física e a coragem de abandonar a zona de conforto que fizeram com que Melissa McCarthy fosse indicada ao Oscar de melhor atriz, em 2019: ainda que a Academia tenha uma forte tendência em valorizar tais características no momento de escolher seus preferidos de cada temporada, seria um erro creditar o sucesso de sua interpretação apenas a questões externas. Em um desempenho sutil, melancólico e inteligente, McCarthy conseguiu, em "Poderia me perdoar?", fazer esquecer seu passado em comédias bobas (e frequentemente medíocres) - e entrou pela porta da frente no rol das atrizes de grande prestígio. Tudo bem que "Missão madrinha de casamento" (2011) já tinha lhe dado um certo aval, com uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante, mas nada se compara à força de sua atuação no filme de Marielle Heller. Aplaudida com unanimidade pela crítica, McCarthy, não era, porém, a primeira escolha para o papel principal - e só entrou no elenco quando a atriz originalmente escalada abandonou o barco pelas famosas "diferenças criativas".

Quando "Poderia me perdoar?" ainda era apenas um projeto em desenvolvimento, a personagem principal, Lee Israel, estava nas mãos de Julianne Moore, uma atriz respeitada e querida, tanto pela crítica quanto pelo público. Antes mesmo do começo das filmagens, no entanto, Moore saiu de cena, deixando vaga a protagonização do filme - uma produção pequena da Fox Searchlight, com um orçamento apertado de estimados dez milhões de dólares. Casado com Melissa e confiando no talento da esposa, o ator Ben Falcone, escalado para um papel menor, sugeriu seu nome à diretora Marielle Heller - e tudo pareceu se encaixar perfeitamente. Distante do ar de gordinha simpática que lhe deu fama, McCarthy mergulhou de corpo e alma em uma personagem de uma densidade dramática das mais desafiadoras. Foram 28 dias de filmagem - e quando o filme finalmente estreou, na edição de 2018 do Festival de Telluride, ficou claro para todos que a substituição tinha valido a pena: por mais que Moore seja uma atriz estupenda, é difícil imaginar outra intérprete para Lee Israel do que a simpática coadjuvante da telessérie "Gilmore Girls".

 

E se McCarthy chamou a atenção pela guinada radical em sua carreira, seu principal colega de cena, Richard E. Grant, tampouco ficou para trás. Coroando uma carreira de grandes (e muitas vezes subestimadas) atuações, Grant tornou-se figurinha fácil entre os nomes mais elogiados da temporada: indicado ao Oscar, ao Golden Globe e ao SAG Award de melhor ator coadjuvante, o veterano fez uma limpa junto a associações de críticos do país inteiro, graças a um trabalho impecável que só chegou até ele depois que Sam Rockwell e Chris O'Dowd saíram da lista de possibilidades. Como o excêntrico e pouco discreto Jack Roch, que se torna amigo e cúmplice de Israel, ele é o contraponto quase cômico a uma trama que, sob o comando de alguém menos sensível que Marielle Heller poderia descambar para um drama pesado e deprimente. Em sua segunda experiência como diretora de cinema - seu primeiro filme foi o elogiado "O diário de uma adolescente", de 2015 -, Heller, também atriz, construiu uma narrativa consistente, equilibrada entre um sutil senso de humor e uma tristeza quase palpável, sublinhada pela trilha sonora discreta e pela edição de ritmo próprio. O roteiro, também indicado ao Oscar, oferece a seus atores momentos de brilho sem apelar para discursos piegas e mesmo quando a emoção chega, é com uma elegância ímpar e adulta, com uma maturidade que destaca o filme dentre seus congêneres.

"Poderia me perdoar?" é, mais que um filme com uma história forte, um filme baseado em seus personagens. Lee Israel, a protagonista que McCarthy encarna com precisão, é uma biógrafa que, com a carreira em decadência (em boa parte devido à sua misantropia e pouca habilidade social), se vê diante de uma nova possibilidade de completar o orçamento e pagar suas dívidas acumuladas: a falsificação de cartas e documentos de escritores famosos. O que deveria ser uma alternativa efêmera, porém, se torna sua principal fonte de renda, e, aos poucos, ela deixa de lado a timidez e passa a sobreviver de sua fraude, contando, para isso, com a providencial ajuda de um novo amigo, Jack Roch (Richard E. Grant). O sucesso de sua empreitada, no entanto, é ameaçado quando peritos entram em cena dispostos a impedir novos crimes - e ela se torna alvo das investigações, assim como Jack e as pessoas envolvidas em suas negociações. No caminho entre o desespero inicial e a angústia do desfecho, Lee Israel é retratada como um ser humano falível e pouco simpático - e é um acerto da produção não tentar fazer da protagonista alguém adorável ou vítima das circunstâncias. Esse detalhe, crucial, faz do filme de Heller uma pérola a ser descoberta pelo grande público - um forte candidato à cult e dono de duas das mais potentes interpretações de sua época.

THE POST: A GUERRA SECRETA


THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post, 2017, 20th Century Fox/Dreamworks Pictures/Reliance Entertainment, 116min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Sarah Broshar, Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rena DeAngelo. Produção executiva: Tom Karnoswski, Josh Singer, Adam Somner, Tim White, Trevor White. Produção: Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal, Steven Spielberg. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, Michael Stuhlbarg. Estreia: 14/12/2017

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Meryl Streep

Até "A lista de Schindler" (1993) sair da cerimônia do Oscar 1994 com sete estatuetas - incluindo melhor filme e direção -, havia uma certa resistência da Academia em relação à filmografia de Steven Spielberg, um dos mais bem-sucedidos cineastas da história de Hollywood. Problemas deixados de lado, o diretor voltou a ser premiado, em 1999, graças ao comando do impecável "O resgate do soldado Ryan" - que chegou perto de também levar o troféu principal e acabou perdendo para "Shakespeare apaixonado", em uma das decisões mais polêmicas do prêmio - e tornou-se, desde então, um eterno indicado em potencial. Cada filme seu, independente do sucesso junto ao público, tem boas chances de estar na seleta lista dos melhores de cada temporada. Às vezes com justiça - caso dos ótimos "Munique"" (2005) e "Ponte dos espiões" (2015). Em outras ocasiões como resultado de uma quase alucinação coletiva - como o soporífero "Lincoln" (2012), que deu o terceiro Oscar de melhor ator a Daniel Day-Lewis. "The Post: A Guerra Secreta", lançado no final de 2017 com pretensões de seduzir a Academia, fica no meio do caminho: não chega nem perto de ser um dos destaques da sua celebrada filmografia, mas tampouco é tão difícil como seus trabalhos mais lentos.

Baseado em uma história real - e realizado com um impressionante grau de realismo -, "The Post" é um caso raro dentro da indústria: entre o começo de suas filmagens, em maio de 2017, e seu lançamento limitado, em dezembro do mesmo ano, passaram-se apenas sete meses. A pressa de Spielberg era justificada pelo clima político dos EUA, assolado (como em outros países) por ondas criminosas de fake news. Como forma de demonstrar um posicionamento a favor de imprensa livre e séria, o cineasta foi buscar no roteiro de Liz Hannah (coescrito por Josh Singer, que já havia lidado com o tema em "O quinto poder", de 2013, e "Spotlight: segredos revelados", que lhe rendeu um Oscar em 2015) o material ideal. Escrito com base em livros de memórias de seus dois protagonistas - e um terceiro, escrito por uma fonte crucial para a ação -, "The Post" é um thriller político com ecos nítidos de "Todos os homens do presidente" (1976) e, como tal, se esforça em ser o mais fiel possível na reconstituição dos fatos que levaram a um dos mais sérios dilemas éticos do jornalismo norte-americano do século XX. Por coincidência (ou não), no olho do furacão estava o mesmo Washington Post que, poucos anos depois, seria o responsável pelas reportagens que levaram à renúncia do então presidente Richard Nixon. Ao contrário do filme dirigido por Alan J. Pakula, no entanto, "The Post" centra seu foco menos nos repórteres e mais nos editores - mais nas dúvidas a respeito da publicação do que na busca pelas informações.


 Coadjuvante em "Todos os homens do presidente" - tanto que seu intérprete no filme, Jason Robards, levou o Oscar da categoria -, o editor-chefe Ben Bradlee assume, em "The Post", a co-protagonização, ao lado da diretora do jornal, Kay Adams, interpretada por Meryl Streep. Na pele de Tom Hanks (em sua quinta colaboração com Steven Spielberg), Bradlee é o que mais se aproxima de herói, no filme: ético, responsável, pai de família respeitável e bom amigo, ele é, também, a voz da consciência que permeia a narrativa, que inclui, de forma oportuna e inteligente, uma discussão muito bem-vinda sobre machismo. Ao herdar a direção do jornal depois do suicídio do marido, Kay precisa passar por cima de todo o preconceito em relação a seu gênero - o que inclui embates com financiadores e banqueiros pouco confiantes em seus talentos como administradora. "The Post" é, então, um filme com duas frentes dramáticas que se encontram na segunda (e superior) metade: se publicar os documentos secretos que confirmam um sistemático encobertamento do governo dos EUA em relação à guerra do Vietnã - um processo que envolveu vários presidentes -, o jornal pode sofrer consequências jurídicas que podem levá-lo à falência, mas sua posição em relação à liberdade de imprensa fatalmente será comprometida junto aos leitores. Essa questão - cada vez mais pertinente e atual - é o cerne do filme de Spielberg, mas demora a estabelecer-se, e essa morosidade quase estraga o resultado final.

Apesar da premissa ser eletrizante e apontar para um desenvolvimento ágil como se espera de um thriller, "The Post: a guerra secreta" sofre de um sério problema de ritmo em sua primeira metade. Não que sem sua segunda parte o filme abandone suas longas sequências de reuniões de escritório e bastidores burocráticos do jornalismo, mas é perceptível que a coisa só engrena de verdade quando o Washington Post assume as rédeas da narrativa, tomando para si a responsabilidade de desafiar o governo Nixon. Não é tão empolgante quanto seu irmão mais velho - novamente é preciso relembrar "Todos os homens do presidente" - e nem tão ágil quanto "Spotlight" (no qual o ator John Slattery interpreta o filho de Ben Bradlee, personagem de Hanks), mas consegue, de certa forma, explicar os motivos pelos quais encantou parte da crítica. Eleito o melhor filme de 2017 pelo National Board of Review e indicado a dois Oscar - incluindo a 21ª indicação de Streep, um recorde absoluto -, "The Post" pode não ser um dos melhores trabalhos de Spielberg, mas, como sempre, sua excelência técnica (fotografia, música, edição, elenco) o destaca positivamente dentre os filmes de sua geração. É uma bela homenagem à força feminina e à liberdade de imprensa - e seus defeitos de ritmo podem ser perdoados diante de tal importância histórica.

segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

sexta-feira

PAPILLON (1973)


PAPILLON (Papillon, 1973, Allied Artists/Columbia Pictures, 151min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Dalton Trumbo, Lorenzo Semple Jr., livro de Henri Charrière. Fotografia: Fred Koenekamp. Montagem: Robert Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Masters. Produção executiva: Ted Richmond. Produção: Franklin J. Schaffner. Elenco: Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon, Anthony Zerbe. Estreia: 16/12/73

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Era a receita para um grande sucesso. Um best-seller internacional de não-ficção. Um cineasta recém saído da consagração de uma chuva de Oscar. Um dos maiores e mais populares astros de Hollywood. E um ator em ascensão. Tudo estava a favor de "Papillon", adaptação do livro escrito por Henri Charrière que contava (com fartas licenças poéticas) seu período na famigerada Ilha do Diabo - uma das prisões mais seguras do mundo, localizada na Guiana Francesa. Depois de passar pelas mãos de Richard Brooks (que sonhava em ter Alain Delon e Jean-Paul Belmondo nos papéis centrais) e Roman Polanski (cujo projeto ruiu quando Warren Beatty recusou fazer parte do elenco), a produção finalmente chegou a Franklin J. Schaffner, que, do alto de seus Oscar de melhor filme e diretor por "Patton: rebelde ou herói?" (1970), pareceu a escolha mais acertada para transformar em imagens um roteiro que explorava tanto a relação de confiança e amizade os entre protagonistas quanto momentos da mais pura adrenalina. O resultado foi mais que positivo: elogios entusiasmados da crítica e sucesso de bilheteria. Porém, nem tudo foram flores durante as filmagens - e a esperança de colecionar mais algumas estatuetas morreu por motivos bem pouco relacionados à qualidade final da produção.

Os problemas começaram quando os produtores descobriram que, apesar da contratação de Dustin Hoffman pelo salário de 1,25 milhão de dólares, seu personagem no livro de Charrière era muito menor do que eles esperavam (uma questão que poderia ter sido evitada com uma leitura prévia do material original). A solução foi fazer com que o roteiro, escrito pelo premiado Dalton Trumbo e Loreno Semple Jr., expandisse sua importância no filme para acomodar o novo status de estrela do ator. E então, não bastassem os episódios de furtos nos sets construído na Jamaica (prejuízos que custaram cerca de trinta mil dólares à produção), uma crise de egos instalou-se nos bastidores quando chegou aos ouvidos de Hoffman (já então um ator considerado "difícil") a informação de que, apesar do mesmo destaque nos créditos que seu colega de cena Steve McQueen, seu salário era consideravelmente menor (a McQueen, já estabelecido como um dos grandes nomes de Hollywood, foram pagos 2 milhões de dólares). Tal revelação não ajudou em nada a relação entre os dois atores, que, a partir daí, tornou-se unicamente profissional, sem direito sequer a qualquer tipo de confraternização fora das câmeras. Nem mesmo a presença de Henri Charrière em pessoa nas filmagens ajudou a melhorar o clima, prejudicado pelo fato de que Schaffner e Trumbo ainda não estavam com o roteiro completo no início dos trabalhos: em encontros diários, os dois trabalhavam no que seria feito durante o dia de trabalho - o que resultou no fato de "Papillon" ter sido filmado quase todo em ordem cronológica, uma ajuda e tanto para o desempenho de seus atores.

 

E se Hoffman brilhou como o estelionatário Louis Dega, responsável por financiar as tentativas de fuga de seu companheiro Papillon, foi Steve McQueen quem recebeu os maiores elogios da crítica - principalmente por sua entrega ao papel a ponto de dispensar dublês em sequências perigosas. Porém, sua atuação, louvada unanimemente, não foi o suficiente para lhe garantir uma esperada indicação ao Oscar: apesar de concorrer ao Golden Globe de melhor ator dramático, McQueen se viu esnobado pela Academia e não demorou para que fofocas a respeito de sua vida pessoal servissem como explicação para a situação. Mulherengo contumaz, o ator não era bem visto pelos maridos da indústria, temerosos que seu charme viril pudesse causar o estrago que havia feito no casamento do produtor Robert Evans, um dos mais poderosos de então: durante as filmagens de "Os implacáveis" (1972), sua mulher, a atriz Ali McGraw, encantou-se pelo ator, seu colega de cena, e nem pensou duas vezes em pedir divórcio e abandonar os ambiciosos projetos do marido para viver sua história de amor. Certamente tal escândalo em um ambiente tão sexualmente hipócrita minou as chances de McQueen de ganhar uma estatueta, principalmente quando se percebe que "Papillon" foi seu último grande trabalho - ao menos o último a chamar a atenção do público e explorar seu carisma e talento em igual medida.

A despeito das questionáveis afirmações de Henri Charrière sobre seu período na prisão localizada na Guiana Francesa, a trama de "Papillon" empolga justamente pela presença de McQueen, um ator que se utilizava de um tom naturalista para aproximar-se do espectador mesmo em personagens de caráter duvidoso: mesmo que afirme ser inocente do homicídio que o condenou, o protagonista da história não oferece ao público maiores explicações sobre seu passado, deixando no ar toda e qualquer certeza a respeito de seu caráter. Ao roteiro tampouco interessa detalhes anteriores à sua condenação - o filme de Schaffner se dedica a equilibrar-se entre as tentativas de fuga de Papillon e suas consequências, muitas delas bastante violentas. O ritmo é um tanto problemático - uns vinte minutos a menos faria milagres pela narrativa - mas a química entre McQueen e Hoffman é admirável, especialmente quando se sabe da relação pouco amistosa entre ambos fora de cena. Com belas sequências de ação e bons momentos dramáticos, "Papillon" não chegou a ser visto por Carrière, morto de câncer no pulmão em julho de 1973, menos de seis meses antes da estreia, e nunca emplacou sua continuação, "Banco", nas telas. Mas tornou-se clássico o suficiente para merecer um remake em 2017, estrelado por Charlie Hunnam e Rami Malek. É um filme cult, ainda hoje capaz de envolver a plateia com seu misto de ação e homenagem à resistência humana.

quinta-feira

O ÓDIO


O ÓDIO (La haine, 1995, Canal +/Cofinergie 6/Egg Pictures, 98min) Direção e roteiro: Mathieu Kassovitz. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Mathieu Kassovitz, Scott Stevenson. Música: Assassin. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Giuseppe Ponturo. Produção: Cristophe Rossignon. Elenco: Vincent Cassel, Hubert Koundé, Said Taghmaoui, Abdel Ahmed Gili. Estreia: 27/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Prêmio de Melhor Diretor (Mathieu Kassovitz) no Festival de Cannes

Nas ruas, a violência cometida pelos policiais que abusam de sua autoridade para massacrar minorias. Em conjuntos habitacionais, o consumo de drogas e a tensão constante a respeito de possíveis e constantes embates entre jovens e policiais. No dia-a-dia, a falta de perspectivas e a tentação de cair na criminalidade. Poderia ser o cenário de uma produção brasileira, mas "O ódio" surgiu da França, da observação dura e sem floreios da realidade social de um país cuja imagem romântica e civilizada foi forjada no inconsciente de plateias do mundo inteiro através de histórias de amor bucólicas e sofisticadas. O choque de perceber que por trás de pontos turísticos consagrados há um universo de conflitos dolorosos e sangrentos é o primeiro golpe desferido pelo filme de Mathieu Kassovitz, sucesso de crítica e premiado no Festival de Cannes 1995 com a Palma de melhor diretor. Os golpes seguintes se sucedem graças ao roteiro seco, à edição ágil e a um elenco irretocável - até o tiro de misericórdia, capaz de deixar no espectador a mesma sensação de angústia de filmes como "A outra história americana" (1998) e "Meninos não choram" (1999).

Conhecido pelo público por seu trabalho como a personalíssima alma gêmea da protagonista da comédia romântica "O fabuloso destino de Amélie Poulain" (2001) - um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema francês -, o ator Mathieu Kassovitz concebeu seu filme como um pesadelo realista dos mais cruéis, sem pausa para respiros ou alívios imediatos. Inspirado na história de dois jovens afro-franceses que morreram em custódia da polícia, o ator/roteirista/cineasta não precisou ir buscar muito longe os protagonistas de sua trama: mesmo não tendo sido criado em projetos habitacionais que servem como cenário da produção, Kassovitz sentiu-se abismado com a simples possibilidade de que tal situação pudesse ocorrer em uma sociedade dita moderna. De posse da informação de que, desde 1981 mais de 300 pessoas morreram enquanto estavam nas mãos da polícia, o jovem diretor (28 anos de idade à época da estreia do filme) construiu seu enredo como um castelo de cartas prestes a desabar - a história de um grupo cuja estabilidade emocional pode ser derrubada com um mero peteleco. 

 

O roteiro acompanha 24 horas na vida de três jovens amigos que vivem em um conjunto habitacional nos arredores de Paris. Vinz (Vicent Cassel extremamente convincente como adolescente mesmo aos 28 anos) é judeu, Said (Said Taghmaoui) é árabe, e Hubert (Hubert Koundé) é um lutador amador de boxe negro, e todos eles estão acostumados a conviver com as mais variadas manifestações de preconceito racial, étnico e social. Tal proximidade com o perigo, porém, não os deixa indiferentes, e, no dia seguinte a uma série de distúrbios em sua comunidade, todos estão com os nervos à flor da pele. Enquanto um jovem agoniza no hospital depois de ter sido espancado pela polícia, Vinz encontra a arma perdida por um dos agentes da lei - e promete equilibrar a balança caso a vítima se torne fatal. No decorrer do dia, os três amigos são expostos a inúmeros momentos capazes de detonar a bomba de violência - mas até quando conseguirão evitar um confronto definitivo?

É impressionante como Kassovitz faz de "O ódio" um dos mais contundentes e importantes filmes europeus da década de 1990. Fortemente influenciada pelo cinema de Martin Scorsese - citado claramente em uma cena onde Vincent Cassel imita Robert de Niro em "Taxi driver" (1976) - e Spike Lee - mais precisamente o explosivo "Faça a coisa certa" (1989) -, a narrativa do filme de Kassovitz é valorizada pela fotografia em preto-e-branco, pela montagem de tom urgente e pela sensação de perigo que ronda cada sequência. A crítica bastante radical às autoridades chegou a incomodar a força policial do país, que chegou ao extremo de literalmente virar as costas ao elenco do filme na ocasião de sua chegada ao tapete vermelho do Festival de Cannes. Ainda impactante mesmo depois de tanto tempo de sua estreia, "O ódio" é uma prova cabal de que mesmo as culturas mais civilizadas podem esconder mazelas pouco admiráveis em seu âmago. É uma produção admirável e forte, com uma sequência final capaz de permanecer na memória da audiência por um longo período de tempo - como apenas os melhores filmes conseguem fazer.

terça-feira

HOMEM DE FERRO


HOMEM DE FERRO (Iron Man, 2008, Paramount Pictures/Marvel Studios, 125min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: Ramin Djawadi. Figurino: Rebecca Bentjen, Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: J. Michel Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Avi Arad, Peter Billingsley, Louis D''Esposito, Ross Fanger, Jon Favreau, Stan Lee, David Maisel. Produção: Avi Arad, Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jon Favreau, Paul Bettany, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Samuel L. Jackson. Estreia: 14/4/2008 (Sydney)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Efeitos Visuais

No mundo do cinema, assim como na vida, há males que vem pra bem. Se tivesse sido realizado lá em 1990, quando surgiram as primeiras notícias a respeito, um filme estrelado pelo Homem de Ferro provavelmente não repetiria o sucesso de "Batman" (1989), dirigido por Tim Burton. Primeiro porque o super-herói da Marvel não tinha o mesmo impacto do homem morcego, e segundo - e mais importante - seu intérprete ideal ainda não estava pronto para o desafio. No começo da década de 1990, Robert Downey Jr. tateava em busca de uma personalidade artística própria e estrelava desde comédias românticas inócuas - como "O céu se enganou" (1989) - até filmes de ação pouco inspirados - a exemplo de "Air America: loucos pelo perigo" (1990), ao lado de Mel Gibson. Na década seguinte, conheceria a glória do prestígio - com uma indicação ao Oscar de melhor ator, por "Chaplin" (1992), e o início de um período em que quase sucumbiu às drogas. Foi somente depois de provar que seu talento estava intacto apesar dos altos e baixos que Downey Jr. finalmente encontrou o papel de sua vida: depois de ver o ator na comédia policial "Beijos e tiros" (2005), o ator/diretor Jon Favreau, escolhido para finalmente tocar adiante o projeto estrelado pelo multimilionário Tony Stark, encontrou nele o intérprete ideal. Era 2007, e a carreira de Downey Jr. nunca mais seria a mesma - assim como a história da Marvel no cinema.

Primeiro filme totalmente financiado da Marvel Studios - e o primeiro de um acordo com a Paramount Pictures - e rodado a um custo estimado de 140 milhões de dólares, "Homem de ferro" foi beneficiado pelo destino. Tivesse realmente sido produzido pela Universal Pictures em 1990, teria sido dirigido por Stuart Gordon, não exatamente um cineasta acostumado a grandes produções. Se mais tarde, em 1996, quando a 20th Century Fox assumiu o projeto, ele tivesse ido adiante, a presença de Nicolas Cage no papel principal poderia tanto ser um pró (ele recém havia recebido um Oscar por "Despedida em Las Vegas" e "A rocha" era um sucesso prestes a acontecer) quanto um contra (não demoraria para que Cage se tornasse um ator de apelo duvidoso nas bilheterias). Dois anos depois, foi a vez de Tom Cruise demonstrar interesse no personagem, mas novamente nada aconteceu. Em 1999, para a feliz ilusão dos cinéfilos, ninguém menos que Quentin Tarantino se viu envolvido na concepção de um roteiro e em um possível contrato como diretor, mas em seguida os direitos foram transferidos para a New Line Cinema e, com eles tal possibilidade. Joss Whedon, fã do personagem e diretor de episódios de séries de televisão, como "Buffy: a caça-vampiros", chegou perto de finalmente dar uma cara a Stark e companhia - mas só se uniria de vez ao universo Marvel com "Os vingadores" (2012). A última tentativa da New Line em levar "Homem de ferro" adiante foi com Nick Cassavetes - conhecido por dramas como "Loucos de amor" (1998) e "Diário de uma paixão" (2004), porém foi somente com a retomada da Marvel que as coisas finalmente aconteceram.

 

De posse dos direitos do personagem, a Marvel percebeu que, a menos que ela mesma tomasse as rédeas, seu tão estimado projeto jamais veria a luz dos refletores. Foi assim que Jon Favreau - mais conhecido como ator - ganhou sua tão sonhada chance de assumir o comando do filme: escalado para dirigir "Capitão América: o primeiro vingador" (que só chegaria às telas em 2011), Favreau optou por contar a história do multimilionário Tony Stark em direção à glória como o aclamado Homem de Ferro, e levou o desafio a sério. Com a Industrial Light & Magic contratada para supervisionar os efeitos visuais (acabou sendo o último trabalho do mestre Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria) e vários escritores das revistas do personagem chamados para evitar discrepâncias em relação a suas origens, Favreau acertou em mesclar um tom mais sério a uma atmosfera leve e atualizar a história. Nos quadrinhos, Stark se torna o Homem de Ferro durante sua participação na Guerra do Vietnã, mas o roteiro do filme fez uma alteração crucial para uma maior comunicação com as plateias do século XXI, e transferiu parte da ação para o Afeganistão. Acertando em cheio em aproximar protagonista e público, Favreau teve ainda mais sorte em contar com Downey Jr. na pele de Tony Stark, um milionário filantropo, mulherengo, amante de aventuras e inventor - baseado no empresário Howard Hughes - que, depois de escapar por pouco de ser morto por um grupo terrorista, passa a se dedicar a aprimorar sua armadura de Homem de Ferro com o objetivo de lutar contra o mal.

Downey Jr. - que recebeu módicos 500 mil dólares por seu trabalho, menos inclusive do quanto foi pago a Terrence Howard, seu colega de elenco - é o corpo e a alma de "Homem de ferro". Mesmo ao lado de nomes fortes como Jeff Bridges, ele conduz o ritmo e o tom quase debochado do filme, conquistando o público sem fazer muito esforço. Clive Owen e Hugh Jackman - que chegaram a ser cogitados para o papel - podem ser excelentes atores, mas Downey nasceu para viver o Homem de Ferro, segundo palavras de seu próprio criador, Stan Lee. Seu talento não apenas para dar vida ao personagem, mas também para improvisar boa parte de suas falas durante as filmagens - para desespero do ortodoxo Bridges e da premiada Gwyneth Paltrow, que interpreta Pepper Potts, secretária e interesse romântico do herói - justifica o sucesso do filme junto à crítica e às mais exigentes plateias. O roteiro pode não apresentar nada de novo (em especial aos fãs dos quadrinhos) e os efeitos visuais não chegam a surpreender, mas o desempenho do ator, que teve sua carreira retomada com gás total, é motivo mais que suficiente para que até mesmo o espectador menos interessado no gênero dê uma conferida. É entretenimento de primeira, e o pontapé inicial da vitoriosa criação do Universo Cinematográfico Marvel!

sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

quarta-feira

NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA


NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA (Nise: o coração da loucura, 2015, TV Zero, 106min) Direção: Roberto Berliner. Roteiro: Flávia Castro, Maurício  Lissovky, Maria Camargo, Chris Alcazar, roteiro final de Patrícia Andrade, Leonardo Rocha, Roberto Berliner. Fotografia: Andre Horta. Montagem: Pedro Bronz, Leonardo Domingues. Música: Jaques Morelenbaum. Figurino: Cristina Kangussu. Direção de arte/cenários: Daniel Flaksman. Produção executiva: Lorena Bondarovsky. Produção: Lorena Bondarovsky, Rodrigo Letier. Elenco: Glória Pires, Roberta Rodrigues,Augusto Madeira, Tadeu Aguiar, Fernando Eiras, Zecarlos Machado, Georgiana Góes, Felipe Rocha, Flávio Bauraqui, Fabrício Boliveira, Bernardo Marinho, Cláudio Jaborandy. Estreia: 25/10/2015 (Festival Internacional de Tóquio)

Nise Magalhães da Silveira pode não ser um nome facilmente reconhecível a todos, mas sua importância para o de doenças mentais e a forma como revolucionou a psiquiatria - no Brasil e no mundo - faz dela uma personalidade crucial da história da medicina. Inspirada pelos estudos do suíço Carl Gustav Jung, com quem se correspondia, e contrária à corrente mais agressiva de tratamentos à base de eletrochoques e lobotomia, Nise foi a responsável por incentivar nos pacientes uma nova forma de lidar com suas crises de esquizofrenia: através da arte, muitos de seus pacientes começaram a reatar seus vínculos com a realidade e saíram da catatonia em que viviam. Desafiando o preconceito, o machismo e a descrença em seus métodos, a médica alagoana, formada em 1926 e presa por 18 meses durante o Estado Novo de Vargas, acusada de comunismo, é a personagem central (e força motriz) de "Nise: o coração da loucura", filme dirigido por Roberto Berliner que rendeu à Glória Pires o prêmio de melhor atriz no Festival Internacional de Tóquio, em 2015.

A vida de Nise é um material e tanto a ser explorado, mas Berliner acerta em optar por um recorte específico de tempo, para melhor desenvolver os métodos da protagonista e apresentar seus coadjuvantes sem a pressa e a superficialidade nas quais uma cinebiografia convencional fatalmente sucumbiria. A prisão de Nise - que a fez ter contato com Olga Benário e Graciliano Ramos, personalidades já retratadas pelo cinema nacional - é praticamente ignorada pelo roteiro, que começa justamente quando a médica retoma seu trabalho junto a pacientes, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, do Rio de Janeiro. O ano é 1944, e Nise imediatamente compra briga com os médicos locais, adeptos de força bruta como tratamento alternativo. Transferida para a seção de Terapia Ocupacional - leia-se limpeza e manutenção do hospital -, ela surpreende aos funcionários, acostumados à violência e ao descaso das autoridades locais, ao oferecer um ambiente menos opressivo e mais lúdico aos pacientes. Por sugestão de um dos enfermeiros, incentiva os internos (até então tratados como animais) a utilizar-se de pincéis e tintas para conversar com o mundo. Surge, então, diante de seus olhos, uma admirável coleção de obras de arte - que transmitem, através da cor e das formas, imagens do inconsciente (nome, inclusive, do museu criado para exibir os trabalhos e que hoje conta com mais de 360 mil obras).

 


A escolha de Glória Pires para o papel central do filme é um acerto gigantesco. Não apenas Glória tem um apelo comercial substancial - como bem demonstram as bilheterias dos filmes "Se eu fosse você", de 2006 e 2009 - como é uma atriz maiúscula, capaz de transmitir uma vasta gama de emoções de forma econômica e precisa. Em um filme no qual o silêncio fala tanto quanto longos diálogos, a presença de Glória é o leme que conduz a narrativa e rege a orquestra de coadjuvantes, todos tão convincentes que é difícil lembrar que são apenas atores interpretando doentes mentais - embora alguns rostos sejam conhecidos do público, como Fabrício Boliveira e Flávio Bauraqui. As faíscas produzidas entre o elenco confirmam o talento de seu diretor, Roberto Berliner, cineasta com larga experiência em documentários - "A pessoa é para o que nasce (2003) e "Herbert de perto" (2009) são os mais conhecidos - que se mostra igualmente dotado em sua segunda incursão na ficção. Seu olhar de documentarista evita o sentimentalismo e imprime uma narrativa sóbria, condizente com o tema e a personalidade de sua protagonista. Também ganha pontos em manter o foco, ainda que tal opção impeça o espectador de conhecer ainda mais sua personagem principal - ou seja, seu período como simpatizante do comunismo em um período pouco propício para tal, e sua consagração junto à comunidade psiquiátrica mundial.

"Nise: o coração da loucura" é um filme adulto, sério, relevante. Busca a empatia do espectador sem apelar para a condescendência e, ainda que retrate sua protagonista como uma heroína solitária lutando contra um sistema irascível - um clichê que não chega a atrapalhar o resultado final -, procura o máximo de realismo possível. Alguns momentos bastante comoventes - o desfecho de sua tentativa de aproximar os pacientes (a quem chama de clientes) a animais de estimação e a surpreendente história de amor e ciúme nascida dentro do hospital - valorizam a trama central e lembram o público de que estão diante de seres humanos e não apenas estatísticas. Emociona e faz pensar. E principalmente faz a devida homenagem a uma das mais ricas e importantes personalidades nacionais. Se hoje a psiquiatria já conseguiu abandonar seus traços mais sinistros, boa parte disso é consequência da sensibilidade de Nise, cujas imagens reais nos últimos minutos de filme apenas reiteram sua força e determinação. Imperdível!


terça-feira

MEU NOME É DOLEMITE


MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my name, 2019, Netflix, 118min) Direção: Craig Brewer. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Billy Fox. Música: Scott Bomar. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Beugg, Charisse Hewitt-Webster. Produção: John Davis, John Fox, Eddie Murphy. Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Mile Epps, Craig Robinson, Kodi Smit-McPhee, DaVine Joy Randolph, Snoop Dogg. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Poucos astros de Hollywood eram tão poderosos na década de 1980 quanto Eddie Murphy. Graças a filmes como "48 horas" (1982), "Trocando as bolas" (1983), "Um tira da pesada" (1984) e "Um príncipe em Nova York" (1988), ele era o ator negro mais respeitado desde que Sidney Poitier conquistou o coração de toda uma geração, nos anos 1960. Porém, mesmo sucessos consecutivos de bilheteria não significam prestígio eterno, e, sob o peso de escolhas equivocadas e um ego inflado, sua queda foi igualmente espetacular. Relegado a um quase ostracismo e mantendo a carreira com espasmos de sucesso - com "O professor aloprado" (1996) fez as pazes, momentaneamente, com o público e com "Dreamgirls: em busca de um sonho" (2006) chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante -, Murphy parecia destinado a repetir ad infinitum a voz do simpático burro de "Shrek" até que a sorte voltou a lhe sorrir. Produzido pela Netflix e aclamado pela crítica, "Meu nome é Dolemite" lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e ressuscitou mais uma vez uma carreira tantas vezes tida como definitivamente morta. A boa notícia é que o filme, dirigido por Craig Brewer (que comandou Terrence Howard em sua indicação ao Oscar de melhor ator em "Ritmo de um sonho", de 2005) é não apenas um bem-vindo respiro em uma sucessão de trabalhos fracos, mas sim um dos melhores filmes de seu currículo.

"Meu nome é Dolemite" é uma história real, mas isso não faz dele menos divertido. Seu protagonista, Rudy Ray Moore, é um daqueles personagens inacreditáveis, cuja própria existência já é capaz de provocar gargalhadas na plateia. Tentando conquistar um lugar ao sol no showbusiness dos anos 1970, Moore se via repetidamente colecionando fracassos, seja como cantor ou humorista. Sua grande virada acontece quando, por acaso, ele vê nas palavras aparentemente sem sentido de um desabrigado que volta e meia surge na loja de discos em que trabalha, uma mina de ouro: com um personagem chamado Dolemite, que se veste como um cafetão e não economiza na linguagem pesada, ele se torna um sucesso absoluto da boemia negra de Los Angeles. Querendo ainda mais, ele grava um disco com suas piadas - e, para surpresa de muitos, o êxito é ainda maior, apesar do esquema amador de negócio. Para seu deleite, então, uma gravadora lhe oferece um contrato e novos discos são postos no mercado, expandindo o público de Moore/Dolemite. Cada vez mais ambicioso, o comediante resolve abraçar uma nova mídia e, para descrença de muitos, decide fazer um filme com seu personagem - tendo as plateias negras como público-alvo.

 

A partir daí, é impossível não traçar paralelos entre Moore e outro ilustre cineasta amador, o hoje celebrado Ed Wood - tema da obra-prima de Tim Burton e, coincidência ou não, escrito pelos mesmos Scott Alexander e Larry Karaszewski: tanto Wood quanto Moore tinham mais criatividade e energia em transformar seus sonhos em realidade do que noções básicas de como fazer um filme. Enquanto Wood contava com a experiência de um decadente Bela Lugosi, quem ajuda Moore é D'Urville Martin, um nome conhecido no universo da blaxploitation que entra no projeto de má-vontade e acaba não apenas atuando mas dirigindo o filme, escrito por Jerry Jones (Keegan-Michael Key), um dramaturgo de ambições sérias atônito com as sugestões do dono da produção - mesmo que sem muito sentido, Moore quer incluir no filme coisas como kung-fu (mesmo que ele não saiba lutar), mulheres nuas, piadas, perseguições de carro, e tudo mais que puder chamar público ("exorcismo eu deixo para um próximo"). E, assim como no filme estrelado por Johnny Depp e Martin Landau, são os bastidores das filmagens que deixam "Meu nome é Dolemite" deliciosamente trash - e surpreendentemente emocionante.

Acostumados a contar histórias sobre personalidades reais - também assinam os scripts de "O povo contra Larryy Flynt" (1996) e "O mundo de Andy" (1999), ambos dirigidos por Milos Forman -, Larry Alexander e Scott Karaszevski fazem de "Meu nome é Dolemite" um dos pontos altos de sua carreira. Equilibrado com perfeição entre o humor, o drama e um retrato acurado sobre a cultura negra nos EUA dos anos 1970, o filme não apenas lembra o público de como Eddie Murphy pode ser um bom ator quando deixa de lado sua vaidade como dá uma nova chance a outro ator cuja popularidade despencou depois de uma série de sucessos: na pele do afetado D'Urville Martin, o polêmico Wesley Snipes entrega talvez o melhor desempenho de um filme cujos atores coadjuvantes brilham sem fazer muito esforço - a ótima DaVine Joy Randolph é um exemplo claro dessa afirmação, com uma atuação que pode fazer rir e chorar na mesma cena. E se o roteiro é um achado, o mesmo pode ser dito da direção de Craig Brewer. Não é à toa que o próprio Eddie Murphy o tenha escolhido para dirigir a esperada continuação de "Um príncipe em Nova York", com estreia marcada para 2021.

segunda-feira

NA MIRA DO CHEFE


NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, 2008, Focus Features/Film4/Blueprint Pictures, 107min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Anna Lynch-Robinson, Hendrick Moonen. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent; Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Ciarán Hinds, Zeljko Ivanek, Jéremie Renier. Estreia: 17/01/2008 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Colin Farrell  

Quando "Três anúncios para um crime" tornou-se um dos maiores destaques da temporada 2017/2018, o público viu-se diante de uma produção rara, onde personagens complexos (e um tanto excêntricos) serviam à uma trama bem escrita e com atores inspirados dirigidos com segurança e sensibilidade - a ponto de dois deles, Frances McDormand e Sam Rockwell, saírem da cerimônia do Oscar com suas estatuetas. O que grande parte desse público deslumbrado não sabia é que o estilo do diretor/roteirista Martin McDonagh já não era segredo nem aos cinéfilos mais antenados e nem mesmo à própria Academia: lançado no Festival de Sundance de 2008, a comédia policial "Na mira do chefe" foi festejada pela crítica a ponto de receber uma solitária - mas importante - indicação ao Oscar de roteiro original (onde foi derrotado pelo bem mais badalado "Milk: a voz da igualdade") e um Golden Globe de melhor ator em comédia/musical para Colin Farrell. Foram lembranças merecidas, que se juntaram ao BAFTA de melhor roteiro original e várias outras láureas, de críticos norte-americanos (Detroit, Boston, Florida, Nova York), estrangeiros (Itália e Rússia) e do prestigiado National Board of Review - que incluiu o filme entre as dez melhores produções independentes do ano.

"Na mira do chefe" é, a princípio, um filme policial: seus protagonistas, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brandon Gleeson) são dois matadores de aluguel que, seguindo ordens de seu chefe, são mandados para uma pequena cidade belga chamada Bruges. Lá, eles devem esperar por um novo contato com instruções. Enquanto Ken segue os conselhos de seu patrão e tenta se divertir com os pontos turísticos e culturais do local, Ray não consegue deixar de lado as lembranças de uma missão que acabou tragicamente. Nem mesmo o encontro com Chloe (Clémence Poésy), parte da equipe de um filme que está sento realizado na cidade, muda o clima de depressão do jovem assassino. As coisas ficam ainda piores quando, irritado com a demora de Ken cumprir suas ordens, seu superior, Harry (Ralph Fiennes), também chega a Bruges para resolver de vez a questão - e descobre que as coisas não serão assim tão fáceis.


 O que afasta "Na mira do chefe" dos filmes policiais comuns é seu senso de humor particular. Não interessa a McDonagh um ritmo alucinado, com piadas em série sendo jogadas no rosto do espectador enquanto dezenas de pessoas são feridas e mortas e explosões ocorrem a cada esquina. Sua visão de comédia é mais centrada em ironias, em acontecimentos surreais, em personagens contraditórios. É assim que seus protagonistas, apesar de assassinos de aluguel, são humanos e despertam a simpatia do público. É assim também que um astro de cinema anão se torna peça fundamental no desenlace da trama. E, finalmente, é sem seus diálogos frescos e inteligentes que se encontra o maior tesouro de seu filme: se utilizando de elementos clássicos de gêneros consagrados, McDonagh os funde de forma a criar um novo estilo, que conversa brilhantemente com a filmografia de outros cineastas contemporâneos (em um primeiro olhar, os irmãos Coen e Quentin Tarantino parecem referências óbvias). Em seu filme seguinte, "Sete psicopatas e um shih tzu"(2012), o cineasta iria ainda mais longe em suas tentativas de borrar as linhas entre gêneros - e mais uma vez ficaria restrito à parcela mais alternativa do público.

Por fim, é impossível falar em "Na mira do chefe" sem louvar seu maior acerto: a escalação de elenco. Se Brandon Gleeson surpreende com um personagem que contraria seu tipo físico - e se mostra tão frágil quanto possível em momentos cruciais -, o trabalho de Colin Farrell é precioso. Mais uma vez demonstrando que é um dos mais subestimados atores de sua geração, Farrell constrói um Ray repleto de camadas, todas plenamente críveis e tratadas com sensibilidade ímpar. O ator irlandês - que surgiu como galã e aos poucos foi demonstrando um talento raro - faz rir e emociona com um personagem que, em mãos erradas, poderia facilmente se transformar em alguém patético ou detestável. Sob o domínio de Farrell, o angustiado Ray encontra o intérprete ideal, capaz de cativar a audiência com suas expressões de cão sem dono mesmo com um histórico profissional pouco recomendável. A química entre Gleeson e Farrell é impecável - e a presença de Ralph Fiennes no terço final do filme apenas a valoriza ainda mais. "Na mira do chefe" é uma produção repleta de qualidades memoráveis. É, sem espaço para qualquer dúvida, um dos filmes que merecem ser descobertos e amados.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...