quarta-feira

O AMOR É CEGO


O AMOR É CEGO (Shallow Hal, 2001, 20th Century Fox, 113min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Sean Moynihan. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Billy Goodrum. Figurino:Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Jack Black, Gwyneth Paltrow, Jason Alexander, Joe Vitarelli, Anthony Robbins. Estreia: 09/11/2001

Bem no fundo, os irmãos Farrelly são dois românticos. Afinal, em seus filmes, por mais escatológicos e politicamente incorretos que eles sejam, sempre há espaço para histórias de amor. Em "Quem vai ficar com Mary?" (1997), Ben Stiller comia o pão que o diabo amassou para conquistar a mulher de sua vida, vivida por Cameron Diaz. Em "Eu, eu mesmo e Irene" (2000), Jim Carrey e sua segunda personalidade disputavam a foragida Renée Zellweger, E em "O amor é cego", lançado em 2001, é Jack Black quem vê sua rotina transformada pela paixão avassaladora por uma mulher - no caso a então recente vencedora do Oscar Gwyneth Paltrow. Porém, ser romântico não significa abrir mão de seu olhar bizarro sobre o cotidiano, e nem mesmo a longilínea Gwyneth escapou de ser alvo das gozações constrangedoras da dupla de diretores. Em uma produção que mais uma vez usa e abusa do humor sobre as minorias, eles surpreendem, no entanto, ao acrescentar uma bem-vinda dose de ternura, que quase ameniza a característica falta de sutileza de suas obras. Isso mesmo: "O amor é cego" é uma comédia dos irmãos Farrelly com moral da história.

Exagerado como sempre, Jack Black dá vida ao protagonista Hal Larson, um homem incapaz de manter um relacionamento sério desde que resolveu seguir os conselhos que o pai lhe deu no leito de morte: arrependido por ter casado cedo e com uma mulher por quem não se sentia atraído fisicamente, o moribundo exige do filho de nove anos que, em sua vida adulta, se envolva somente com mulheres deslumbrantes e sensuais, que possam lhe realizar sexualmente. Relativamente bem-sucedido profissionalmente, Hal vive à procura da mulher ideal, assim como seu melhor amigo, Mauricio (Jason Alexander) - que, assim como ele, estabeleceu padrões estéticos quase inalcançáveis para uma futura namorada. O problema é que, com as diretrizes do pai sempre vivas, Hal - que não é exatamente um exemplo de beleza masculina - só se interessa por modelos de corpo escultural e postura de modelos. Magoado com a imagem de superficialidade que transmite às pessoas que o cercam, o rapaz vê sua vida mudar com o encontro inusitado com Tony Robbins (no papel dele mesmo) em um elevador defeituoso: tocado com a nítida infelicidade do aspirante a garanhão, o palestrante e mentor lhe hipnotiza para que, a partir de então, ele consiga ver somente a beleza interior das pessoas. O resultado é imediato, e Hal passa a interessar-se por mulheres fisicamente pouco atraentes mas com personalidades e inteligências encantadoras. O ápice de sua nova condição acontece quando ele se apaixona por Rosemary Shanahan (Gwyneth Paltrow): vista por ele como uma loira espetacular e sexy, ela, na verdade, é uma mulher muito acima do peso, que sofre preconceitos por onde passa e que não consegue acreditar em sua repentina história de amor.

 

Como não poderia deixar de ser em um filme da dupla de diretores, "O amor é cego" não dispensa as piadas grosseiras e constrangedoras (algumas legitimamente engraçadas, outras nem tanto), mas é nítido como dessa vez sua vontade de contar uma história é maior do que aquela de simplesmente ofender qualquer minoria ou condição física, mental ou social. O arco dramático de Hal é verossímil, e sua relação com Rosemary desperta a torcida que todo filme romântico busca. Mesmo que a duração seja um tanto excessiva - uns bons quinze minutos a menos faria milagres pelo ritmo - e Jack Black não consiga deixar de lado sua tendência ao overacting, a direção dos Farrelly encontra um equilíbrio nunca visto em seus trabalhos anteriores. O roteiro é suave em sua transição entre a comédia física quase cruel e o romance doce entre seus protagonistas, e é surpreendente como eles encontram espaço até mesmo para um momento de genuína emoção: em um hospital infantil, já no ato final do filme, há o vislumbre  de uma insuspeita sensibilidade de dois homens que já fizeram rir de esquizofrênicos, fluidos corporais, pessoas com deficiências físicas e outros itens menos cotados. O arrependimento de Jack Black e Gwyneth Paltrow de terem participado do filme - conforme declarado anos depois - não deixa de ser um grande exagero.

Em termos de bilheteria, "O amor é cego" não chegou a ser um fracasso, ainda que tenha ficado muito atrás do sucesso comercial de "Quem vai ficar com Mary?", que rendeu inacreditáveis 370 milhões de dólares ao redor do mundo.  Se aproveitando da popularidade de seus atores centrais - Paltrow vinha do Oscar por "Shakespeare apaixonado" (1999) e Black de seu destaque em "Alta fidelidade" (1999) - e da grife de seus diretores, a 20th Century Fox acabou por embolsar quase 150 milhões por uma comédia romântica repleta de tiradas raras no gênero e uma atípica dupla de protagonistas. Não é pouca coisa se levarmos em consideração a previsibilidade e a apatia da maioria das produções do gênero.

 

terça-feira

À BEIRA DO ABISMO

 


À BEIRA DO ABISMO (Man on a ledge, 2012, Summit Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 102min) Direção: Asger Leth. Roteiro: Pablo F. Fenjves. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Kevin Stitt. Música: Henry Jackman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Alec Hammond/Chryss Hionis. Produção executiva: Jane Myers, David Ready. Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian. Elenco: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Edward Burns, Ed Harris, Kyra Sedgwick, Anthony Mackie, William Sadler, Genesis Rodriguez, Titus Welliver. Estreia: 26/01/2012

Às vezes tudo que um fã de filmes policiais precisa é de uma trama despretensiosa, com um bom ponto de partida, um elenco de bons atores e, se possível, uma ou mais reviravoltas (que nem precisam fazer todo o sentido do mundo).  "À beira do abismo" oferece tudo isso, e, mesmo sem ter feito muito barulho nas bilheterias, cumpre exatamente o que promete. Mesmo que o roteiro não se esquive de clichês e a direção do dinamarquês Asger Leth nunca ultrapasse o status de correta, o resultado final não decepciona a quem procura uma sessão descompromissada e que prescinde de efeitos visuais milionários para envolver as plateias. Estrelado pelo então ascendente Sam Worthington - saído do sucesso de "Avatar" (2009) e a meses de liderar o elenco do remake de "Fúria de titãs" (2012) -, "À beira do abismo" é a prova de que o trivial frequentemente pode ser bastante eficaz.

A primeira cena do filme mostra um homem de cerca de 30 anos, chamado Walker, se hospedando no 21º andar de um hotel de Nova York. Depois de pedir uma farta - e cara - refeição, ele limpa todas as impressões digitais do quarto e simplesmente se dirige ao parapeito, com o claro objetivo de se jogar. Para que isso não aconteça (ou ao menos que seja adiado), ele pede a presença de Lydia Mercer (Elizabeth Banks), experiente em negociar com suicidas, que acaba de sair de uma situação traumática com vítimas. O que nem Lydia nem o encarregado do caso, Jack Dougherty (Edward Burns), sabem é que o tal homem se chama, na verdade, Nick Cassidy, e é um ex-policial que, condenado pelo roubo de um valiosíssimo diamante, fugiu do presídio depois do funeral do pai e tem o objetivo de provar sua inocência. Mais do que isso, durante o processo de negociação, acontece o roubo a uma joalheria de propriedade do milionário David Englander (Ed Harris), que também está em vias de apresentar à cidade um ambicioso projeto imobiliário. Será que os três fatos tem relação? Por que Cassidy escolheu justamente Mercer para tentar impedí-lo de jogar-se do prédio? E qual o plano do jovem Joey (Jamie Bell) para invadir silenciosamente a joalheria de Englander?

 

As respostas vão surgindo aos poucos, nem sempre de forma sutil, mas sempre de modo a empurrar adiante a história, como manda o manual dos roteiros de Hollywood. Boa parte dos segredos são desvelados antes mesmo da metade da sessão, que se dedica então a cenas de ação dirigidas com certa competência pelo dinamarquês Asger Leth, cujo currículo contava apenas com o documentário "Os fantasmas de Cité Soleil" (2006): nessa segunda fase, o filme abandona a narrativa fragmentada que havia adotado (com interessantes e empolgantes flashbacks) para abraçar com vontade o subgênero "filmes de golpe". Nem tudo funciona - o personagem de Ed Harris por vezes soa deslocado -, mas consegue manter o ritmo de forma admirável. Ecoando situações de "Um dia de cão" (1975) - as testemunhas populares como parte da ação, a cobertura midiática - e do clássico "Horas intermináveis" (1951), de Howard Hawks - a ideia central, tirada de uma reportagem sobre um caso de suicídio ocorrido em 1938 -, "À beira do abismo" ganha pontos ao não cair na armadilha de tentar ser engraçado (ainda que as interações entre Jamie Bell e Genesis Rodriguez sejam recheadas de falas de duplo sentido) e conquistar o público com um tom adulto que tampouco apela à violência tão comum no cinema policial.

A discrição da direção de Leth também é responsável por extrair de seu elenco desempenhos firmes - ainda que não exatamente memoráveis. Sam Worthington sai-se bem com um protagonista que não depende de efeitos digitais, mesclando força e fragilidade nas medidas adequadas, enquanto o jovem Jamie Bell destaca-se em um papel de anti-herói e Elizabeth Banks (em papel que quase ficou com Amy Adams) tem o carisma necessário para segurar dividir as principais cenas com Worthington sem parecer coadjuvante. É de lamentar apenas a forma como Ed Harris e Kyra Sedgwick (como a repórter Suzie Morales) são subaproveitados - especialmente Kyra, cuja personagem poderia ter rendido ótimos momentos. Tais pequenos problemas, no entanto, não chegam a atrapalhar a diversão. "À beira do abismo" é um entretenimento bastante decente, que deixa claro o potencial de seu ator central para além dos limites de Pandora.

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

POR FAVOR, MATEM A MINHA MULHER


POR FAVOR, MATEM MINHA MULHER (Ruthless people, 1986, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Jim Abrahms, David Zucker, Jerry Zucker. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Michael Colombier. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Donald Woodruff/Anne D. McCulley. Produção executiva: Joanna Lancaster, Richard Wagner, Walter Yetnikoff. Produção: Michael Peyser. Elenco: Danny DeVito, Bette Midler, Judge Reinhold, Helen Slater, Bill Pullman, Anitta Morris. Estreia: 27/6/86

Logo depois de uma pré-estreia de "Por favor, matem minha mulher", o ator Danny DeVito ligou para sua parceira de cena, Bette Midler, e os dois ficaram um longo tempo no telefone discutindo como o filme era ruim e como as carreiras de ambos provavelmente estavam arruinadas com isso. Meses depois, com o sucesso de bilheteria da produção - mais de 70 milhões de dólares de arrecadação -, é provável que os dois astros tenham mudado de ideia. Midler assinou um polpudo contrato com a Touchstone (subsidiária da Disney para filmes adultos) e DeVito iniciou uma bem-sucedida carreira também como diretor já no ano seguinte, com o irônico "Joga a mamãe do trem" (1987). Último filme dirigido pelo trio ZAZ - Jim Abraham, Jerry Zucker e David Zucker -, conhecidos pelos demolidores "Apertem os cintos... o piloto sumiu" e "Top Secret: superconfidencial" -, a comédia brincava com o estilo de vida dos novos-ricos californianos (com seus exageros, futilidade e arrogância), mas recheado do humor iconoclasta dos cineastas e amparado no histrionismo irresistível de sua atriz central - uma força da natureza que teve, na segunda metade dos anos 1980, seu período de maior popularidade.

Na verdade, Bette Midler só entrou no projeto depois da saída de Madonna, que abandonou o barco devido às famosas "diferenças artísticas" entre ela e os diretores. Levando-se em consideração que Madonna nunca foi exatamente uma atriz de grande talento, a mudança no elenco foi providencial: mesmo que apareça relativamente pouco (dividindo seu tempo com as outras subtramas que se somam ao resultado final), Midler é a intérprete ideal para a insuportável Barbara Stone, herdeira, socialite e perua irrecuperável que se torna vítima de um sequestro orquestrado para atingir seu marido, e que acaba se unindo a seus algozes quando descobre que, ao contrário do que se poderia esperar, ele não está nem um pouco disposto a pagar o resgate. Irascível e agressiva nos momentos iniciais, debochada e irônica na segunda metade, a personagem é um prato cheio para a atriz - mesmo que, posteriormente, ela não tenha conseguido se livrar muito do estilo, que talvez não agrade a todos. Para alívio geral, porém, o rocambolesco roteiro dá espaço para o restante do elenco, em uma trama de erros envolvente e divertida que mantém o interesse até o clímax.

 

O sequestro de Barbara Stone é o pontapé inicial do filme. Seu marido, Sam (Danny DeVito), casou-se com ela por puro interesse, mas seu maior desejo é livrar-se de suas inconveniências e estupidez. Seus planos de assassinar a esposa são interrompidos, no entanto, quando ele recebe a notícia de que ela acaba de ser raptada: ao invés de pensar em um crime perfeito, basta a ele fazer corpo mole, não pagar o resgate e correr pro abraço. Mas as coisas não são assim tão simples. Sua amante, Carol (Anita Morris), também tem um amante, o pouco inteligente Earl (Bill Pullman), e o casal pretende chantagear Sam com a filmagem do assassinato planejado pelo industrial - e é claro que, sem assassinato nenhum, a fita que eles tem em mãos tem um outro tipo de material que ambos desconhecem (o que acaba os deixando em uma situação pouco confortável). Além disso, enquanto espera que o marido pague o resgate, Barbara descobre que seus sequestradores não tem nada de criminosos corriqueiros: Ken (Judge Reinhol) e Sandy (Helen Slater) procuram apenas um modo de vingar-se de Sam, que os passou para trás ao roubar uma ideia que poderia ter-lhes deixado ricos.

O roteiro de "Por favor, matem minha mulher" é um primor: deixando de lado a ideia de que é imprescindível haver lógica em uma comédia, Dale Launer criou uma série de situações bizarras e desconcertantes que se acumulam e se cruzam involuntariamente. Dando espaço para que todo o elenco tenha momentos seus, ele evita tempos mortos, imprime um ritmo apropriado ao gênero e de quebra convida o espectador a tentar adivinhar os rumos da trama - sem que, com isso, a torne previsível. A direção dos amigos ZAZ é precisa ao evitar os excessos de Midler e sua própria tendência ao anarquismo visual que marcou seus trabalhos anteriores. Mesmo que no final haja uma certa dose de moralismo, o tom acertadamente caótico e a atmosfera oitentista - perceptível em cada cenário e figurino - fazem desse potencial fiasco uma inesperadamente feliz sessão da tarde.

sexta-feira

MUDANÇA DE HÁBITO

 


MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92

Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano  repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.

Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer  mais inventivo do que realmente é.

 

A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...

E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).

E para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com direito a voto no Oscar.

quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

quarta-feira

MEU PRIMEIRO AMOR


MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91

No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.

No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.

 

Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -,  mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").

Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.

terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

segunda-feira

FUGA À MEIA-NOITE

 


FUGA À MEIA-NOITE (Midnight run, 1988, Universal Pictures, 126min) Direção: Martin Brest.Roteiro: George Gallo. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Chris Lebenzon, Michael Tronick, Billy Weber. Música: Danny Elfman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/George R. Nelson. Produção executiva: William S. Gilmore. Produção: Martin Brest. Elenco: Robert DeNiro, Charles Grodin, Joe Pantoliano, Yaphet Kotto, Dennis Farina, John Ashton. Estreia: 20/7/88
 
Jack Nicholson, Al Pacino, John Travolta, Michael Douglas. Mel Gibson, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger. Charles Bronson, Clint Eastwood, Gene Hackman. Burt Reynolds, Richard Gere, Mickey Rourke, Jeff Bridges. Dustin Hoffman, Jon Voight, Harrison Ford. Em determinado período da segunda metade da década de 1980, praticamente todo ator de razoável visibilidade em Hollywood foi cogitado, sondado ou meramente imaginado no papel principal de "Fuga à meia-noite", uma comédia de ação que, explorando o velho clichê das duplas improváveis - que havia sido o motor do megasucesso "Máquina mortífera" (1987) -, era a principal aposta da Paramount Pictures para a temporada 1988. Com um roteiro leve, ágil e engraçado e a direção de Martin Brest - vindo da consagração de "Um tira da pesada" (1984) -, o projeto surpreendeu ao mudar de mãos antes do começo das filmagens: por tais famosas "diferenças criativas", os executivos do estúdio passaram a ideia adiante e, em sua nova casa, a Universal Pictures, o filme tornou-se um dos maiores êxitos comerciais do ano, com uma renda superior a 80 milhões de dólares - e agradou em cheio também à crítica, com duas indicações ao Golden Globe (ator e filme/comédia ou musical) e a inclusão na lista dos dez melhores do National Board of Review. E se o perfeito equilíbrio entre os gêneros e a direção precisa de Brest são ingredientes cruciais ao sucesso da produção, é inegável que seu maior trunfo é a presença irresistível de Robert DeNiro - no final das contas a escolha mais acertada para liderar o elenco, a despeito de sua imagem de ator dramático.

E foi justamente a vontade de DeNiro em explorar um lado novo de seu talento que o aproximou do projeto de "Fuga à meia-noite": depois de perder o papel principal de "Quero ser grande" (1988) para Tom Hanks, o ator agarrou com unhas e dentes a oportunidade de viver Jack Walsh, um ex-policial tornado caçador de recompensas envolvido em um jogo de gato e rato que lembra os melhores momentos do clássico "Acorrentados", que em 1958 uniu Tony Curtis e Sidney Poitier em um road movie dos mais movimentados e empolgantes. Ao lado de um inspirado Charles Grodin, DeNiro não abdica de seus trejeitos mais conhecidos, mas os usa de forma inteligente, como ferramentas para fazer rir como nunca antes em sua carreira: calcado em diálogos espirituosos e na brincadeira com a percepção do público a seu respeito, ele prescinde de caretas ou exageros para alcançar o tom ideal - e quando necessita oferecer emoção, o faz com a sutileza de que só os grandes são capazes. Mesmo que seja uma comédia - um gênero tradicionalmente menosprezado pela crítica considerada séria - o filme de Brest não descuida da direção de atores, e no fim é isso que faz toda a diferença.
 
 
O roteiro, repleto de reviravoltas e sequências que capricham na ação e no humor, conta a história da conturbada relação entre Jack Walsh e Jonathan Mardukas. Walsh saiu da polícia depois de acontecimentos mal expliados envolvendo criminosos da pesada e seu casamento fracassado. Mardukas é um contador foragido que deu um golpe em seu patrão mafioso, Jimmy Serrano (Dennis Farina), distribuiu 15 milhões de dólares a instituições de caridade e se encontra escondido da polícia. Seus caminhos se cruzam quando o agente de fianças Eddie Moscone (Joe Pantoliano) contrata Walsh para localizar Mardukas em Nova York e entregá-lo em Los Angeles no prazo de quatro dias. O experiente caçador de recompensas aceita o desafio e tudo parece correr dentro do previsto apesar da personalidade irritante do contador. Porém, o que Walsh não sabe é que há mais gente disposta a qualquer coisa para colocar as mãos em seu companheiro de viagem: a polícia, na figura do agente do FBI Alonso Mosely (Yaphet Kotto); o competitivo rival de Walsh, Marvin Dorfler (John Ashton em papel considerado para John Goodman e John Candy); e o próprio Jimmy Serrano, em busca de vingança por seu dinheiro roubado. No caminho até Los Angeles - e até o pouco confiável Moscone, os dois novos parceiros começam a desenvolver uma relação de amizade (atípica) e respeito (ainda que velado).

Brilhante em sua forma de equilibrar humor e ação, "Fuga à meia-noite" é um produto típico de sua época, apresentando uma série de clichês e explorando-os da maneira mais inteligente possível. A dupla formada por DeNiro e Charles Grodin - no melhor desempenho de sua carreira - pode facilmente fazer parte de uma linhagem de parceiros antológicos do cinema hollywoodiano (uma lista da qual fazem parte Butch Cassidy & Sundance Kid e Riggs & Murtaugh), e é dela os melhores momentos do longa, principalmente quando acontecem os divertidos embates de personalidade, capazes de fazer gargalhar o mais mau-humorado espectador. E destacar-se em um universo de produções que parecem seguir sempre a mesma fórmula (ainda que nem sempre de maneira memorável) não deixa de ser um feito e tanto!

P.S.: E quanto às "diferenças criativas" que fizeram a Paramount entregar o filme de bandeja à Universal? Basta dizer que, para aumentar as chances de sucesso da produção, o estúdio queria alterar o gênero de Mardukas para criar uma tensão sexual entre os protagonistas - e tinha até o nome de Cher como possibilidade de estrela. Depois da rejeição peremptória de Martin Brest, houve a sugestão de Robin Williams - vindo do sucesso de "Bom dia, Vietnã" (1987) -, mas a insistência do cineasta em manter Charles Grodin como coprotagonista (a despeito de não ser um grande nome) acabou por desagradar os engravatados, que acharam por bem abandonar o barco e deixar o projeto para outros. O tempo mostrou quem estava enganado...

sábado

COCKTAIL

 


COCKTAIL (Cocktail, 1988, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Heywood Gould, romance de sua autoria. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Neil Travis. Música: J. Peter Robinson. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Hilton Rosemarin. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Cruise, Bryan Brown, Elisabeth Shue, Gina Gershon, Kelly Lynch. Estreia: 29/7/88

Em 1989, Tom Cruise já havia começado sua transição de galã juvenil para ator respeitado pela crítica e pela indústria - o que confirmou-se com sua indicação ao Oscar por "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. Antes de abandonar seu status de símbolo sexual, porém, deu de presente a seus fãs um último trabalho capaz de explorar seu sorriso e seu carisma. Baseado no romance homônimo de Heywood Gould, também autor do roteiro pouco inventivo - e que foi premiado com o Framboesa de Ouro da categoria -, "Cocktail"se enquadra nos tradicionais dramas românticos de fundo moralista que tanto fizeram sucesso na década de 1980, mas que, valorizado por uma embalagem atraente (belas locações na Jamaica, trilha sonora de hits, elenco de jovens astros em ascensão) o levou a arrecadar polpudos 170 milhões de dólares ao redor do mundo. Uma prova inconteste do apelo de Cruise junto ao público, o filme do neozelandês Roger Donaldson - vindo do ótimo "Sem saída" (1987), que deu a Kevin Costner um de seus melhores papéis no cinema - o coloca novamente ao lado de um ator veterano como forma de contraste entre duas gerações. Se em "A cor do dinheiro" (1986) a dupla era com Paul Newman (que ganhou o Oscar por seu desempenho), e em "Rain Man" (lançado pouco meses depois de "Cocktail") o encontro foi com Dustin Hoffman (igualmente oscarizado por seu trabalho), o filme de Donaldson promove o encontro de Cruise com o australiano Bryan Brown - que pouco tem a fazer com um personagem atolado em clichês.

A trama é simples e inspirada na própria experiência do roteirista por trás dos balcões de bares: Brian Flanagan (interpretado por Cruise) é um jovem ambicioso que abandona sua pequena cidade natal com o objetivo de vencer no mercado financeiro de Nova York. Seus planos logo se mostram mais complicados do que pareciam, e ele se vê trabalhando como bartender ao lado do experiente Douglas Coughlin (Bryan Brown), que lhe serve como mentor e melhor amigo. Aos poucos, esbanjando carisma e dedicação, Brian se torna um dos mais conhecidos profissionais do ramo e, mudando o rumo de seus desejos de sucesso, se une a Douglas no objetivo de abrir um negócio próprio. As coisas não saem como planejado e, depois de abandonar Manhattan - culpa de uma briga com seu futuro sócio -, o rapaz começa uma vida nova na Jamaica, onde novamente se destaca com suas coreografias elaboradas e seu sorriso cativante. É lá que ele conhece a jovem Jordan (Elisabeth Shue), com quem inicia um apaixonado romance. Mais uma vez, no entanto, tudo vira do avesso em sua vida quando Douglas reaparece, rico, bem casado e disposto a apagar as rusgas do passado - o que pode ameaçar o nascente relacionamento com a doce Jordan.

 

Apesar de depender quase unicamente do sorriso e do carisma de Cruise - algo que o então jovem galã não economizava, para alegria dos fãs -, "Cocktail" nem sempre teve tal trunfo em mãos. Antes que Cruise acertasse sua participação no filme, atores de vários tipos físicos, idades e perfis foram cotados para liderar o elenco - um forte indício da falta de personalidade de um projeto que, segundo o próprio Heywood Gould, deu origem a 40 diferentes versões do roteiro. Dessa forma, nomes como Robin Williams, Charlie Sheen, John Travolta, Rob Lowe, Jeff Bridges, Matthew Broderick e Mel Gibson chegaram a ser pensados - Keanu Reeves, Tom Hanks e Bill Murray só foram deixados de lado por conflitos com outros compromissos. Da mesma forma, o papel do mentor do protagonista também teve sua lista de possíveis intérpretes, que iam de Paul Newman e Dustin Hoffman (que voltariam a contracenar com Cruise) a Jack Nicholson, Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Joe Pesci e Michael Caine (que pulou fora do barco para integrar o elenco do hilário "Os safados", ao lado de Steve Martin. E até mesmo a atriz para viver a doce heroína do filme, Jordan, foi objeto de discussão, com Elisabeth Shue batendo nomes fortes como Demi Moore, Jennifer Jason Leigh, Jennifer Grey, Sarah Jessica Parker, Daryl Hannah e, pasmem, Jodie Foster.

É inegável que, sob a luz da nostalgia, "Cocktail" é uma sessão da tarde deliciosa, descompromissada, leve e agradável. Como cinema, porém, é apenas um veículo para explorar a popularidade de Tom Cruise - e sob esse ponto de vista, o filme é um sucesso. A bilheteria expressiva ajudou o estúdio (a Touchstone Pictures), a ascensão do astro (que em breve focaria a carreira em produções mais sérias) e o público, que lotou salas de exibição para acompanhar uma história quase maniqueísta, fotografada de forma tão solar e romântica que mal deixava vislumbrar seu moralismo quase ingênuo. No frigir dos ovos, a química entre Cruise, Brown e Shue - somada à trilha sonora que incluía até mesmo uma canção original dos Beach Boys - foi o suficiente para as plateias menos exigentes e serviu para reafirmar a posição de seu astro como um dos nomes mais fortes do cinema hollywoodiano dos então vindouros anos 1990.

sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

quinta-feira

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

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