sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A LISTA DE SCHINDLER

A LISTA DE SCHINDLER (Schindler's list, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 195min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Thomas Keneally. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anna Biedrzycka-Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen, Steven Spielberg. Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Embeth Davidtz. Estreia: 30/11/93

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Liam Neeson), Ator Coadjuvante (Ralph Fiennes), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro 

Em 1975, o suspense "Tubarão" inaugurou a era dos blockbusters e apresentou ao mundo um cineasta jovem, cheio de energia e criatividade chamado Steven Spielberg. Um punhado de grandes sucessos comerciais depois, ele iniciou uma nada discreta caminhada rumo ao mais esperado dos prêmios do cinema, o Oscar. Sendo assim, o pai de Indiana Jones e ET lançou filmes emocionalmente maduros e esteticamente primorosos, como "A cor púrpura" e "Império do sol". Sempre relegado pela Academia - às vezes sem motivo aparente - ele acabou sendo recompensado justamente por um filme através do qual ele fazia as pazes com sua origem judia. Realizado ao custo relativamente baixo de 25 milhões de dólares, "A lista de Schindler" não apenas também se transformou em sucesso de bilheteria apesar do tema pesado - quase 100 milhões de arrecadação nos EUA - como finalmente providenciou a ele sua primeira estatueta de melhor diretor - além de outras seis, inclusive melhor filme. Incensado unanimemente por crítica e público como um dos melhores dramas de guerra da história do cinema, "A lista de Schindler" é mais do que simplesmente uma história contada com o coração: é um exemplo perfeito de um artista no auge de seu talento. É uma obra-prima incontestável!

Baseado no livro de Thomas Kennealy - que romanceou uma história inacreditavelmente real - "A lista de Schindler" começa em 1943, quando o nazismo começava a mostrar seu poder devastador. Sentindo que a guerra pode lhe beneficiar financeiramente, o industrial tcheco Oskar Schindler (o papel definitivo de Liam Neeson) passa a utilizar mão-de-obra judaica em sua fábrica de esmaltados. Oportunista e mulherengo, ele só começa a perceber o tamanho da ameaça do III Reich em relação aos guetos judeus através de seu contador, Itzhak Stern (Ben Kingsley), que o alerta a respeito da violência indescritível que está sendo cometida nos campos de concentração. Testemunhando pessoalmente algumas das atrocidades cometidas em especial pelo frio comandante Amon Goeth (Ralph Fiennes, espetacular), Schindler resolve fazer uma lista de "funcionários indispensáveis" a seu negócio, pagando de seu próprio bolso por eles - e assim evitando sua transferência para os campos.

Por mais que a história real seja um pouco enfeitada para melhor servir aos objetivos dramáticos de Spielberg - o verdadeiro protagonista não era tão altruísta como mostrado no filme, dizem as más línguas - é inegável que "A lista de Schindler" é um espetáculo de primeira grandeza. Apesar do tema doloroso e profundamente chocante - mostrado sem subterfúgios por uma câmera nervosa e onipresente - é um filme obrigatório para qualquer fã de cinema ou de história. Acusado por alguns detratores de exagerar na sacarina em seus momentos finais e de buscar o choque fácil, ele mantém-se poderoso e inesquecível, principalmente devido à paixão imposta por seu diretor em cada momento de seus longos 195 minutos de duração - que passam sem que o público sinta.



Cada detalhe, em "A lista de Schindler" é digno de nota. O cuidado da produção é gritante - e é de admirar-se que um filme desse porte tenha custado tão pouco. A reconstituição de época é impecável - a direção de arte levou um merecido Oscar - e a fotografia de Janusz Kaminski - então casado com a atriz Holly Hunter - é um primor: em um preto-e-branco deslumbrante, Kaminski revela os horrores do holocausto revestindo-o de uma beleza plástica sem precedentes. Talvez tenha sido justamente esse senso estético em relação a um capítulo tão sangrento que tenha incomodado alguns, mas negar-se a admitir sua competência não é nada mais do que inveja.

E é de invejar-se também o trabalho excepcional do inglês Ralph Fiennes, no papel que o consagrou e que quase lhe deu um Oscar - que ele perdeu inexplicavelmente para Tommy Lee Jones, em "O fugitivo". Na pele de Amon Goeth, o mal em pessoa, Fiennes consegue transmitir pavor apenas com seu sorriso forçado e seu olhar diabólico. Suas cenas com Liam Neeson - com diálogos repletos de intenções mascaradas - são dirigidas com extremo cuidado, o que derruba a teoria de que Spielberg não é um bom diretor de atores. Isso também se aplica a Ben Kingsley, dono de algumas das sequências mais tristes do longa. Cercado por Fiennes e Kingsley, Liam Neeson, um ator eficiente mas pouco carismático entrega a atuação de sua carreira, pela qual recebeu sua até agora única indicação ao Oscar. Herdando um papel que Harrison Ford declinou - acertadamente, ele achava que sua presença desviaria a atenção da força da história - Neeson criou um Schindler falível, mas humano, o que torna mais fácil sua identificação com a plateia. Sua expressão horrorizada ao assistir de longe a evacuação de um gueto é, provavelmente, a mesma da audiência.

Uma das sequências mais fascinantes - porque triste e inacreditavelmente verdadeira - mostra os soldados alemães acabando com o gueto de Varsóvia, talvez um dos primeiros sinais da tragédia que se avizinhava aos judeus. Centenas de anos de história seriam apagadas, como bem cita Amon Goeth, em poucas horas: o público assiste, horrorizado (mas presenteado com imagens belas e uma música impecável de John Williams), a maneira cruel e abjeta com que seres humanos foram destituídos de suas posses, de suas dignidades, de seu amor-próprio, de sua idelogia. Spielberg não tenta disfarçar nada com sua câmera: tiros são disparados à queima-roupa, sangue jorra aos borbotões, e monstruosidades são registradas da forma mais neutra possível. Como se fosse um documentário - ou um inventário de atrocidades - "A lista de Schindler" é um documento dos mais avassaladores que o cinema criou.

Em uma época em que muita gente apoia inúmeros tipos de fascismo - e onde a crueldade muitas vezes é perdoada ou incentivada - é fundamental que filmes como "A lista de Schindler" sejam resgatados e discutidos. Artisticamente impecável e socialmente indispensável!

Um comentário:

renatocinema disse...

Spielberg não é dos meus diretores prediletos. Prefiro Scorsese, Tornattore, Tarantino. Mas, a saga Indiana Jones e "O Império do Sol" estão entre os meus prediletos.

"A Lista de Schindler" fez eu tirar o chapéu de vez para esse ícone do cinema. Eu não gostar muito de seu estilo, não quer dizer que não saiba de sua importância cinematográfica.

Sobre a perda do Oscar do ótimo Ralph Fiennes para Tommy Lee Jones, em "O fugitivo", é a prova de que realmente não devemos valorizar tanto esse prêmio. Gosto dos trabalhos de Tommy Lee Jones, mas, realmente não poderia ter vencido o Oscar, não por esse trabalho.

Uma produção dele que eu adorei foi "A.I. - Inteligência Artificial". O filme é ótimo. O que estraga são os 5 minutos finais, onde ele quer mostrar um final bonzinho sem necessidade. Mas, essa é minha visão pessoal. Talvez, chata.