Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Antes de tornar-se milionário com a trilogia "O Senhor dos Anéis" - cujo último filme lhe rendeu inclusive um cobiçado Oscar de diretor - o neozelandês Peter Jackson mostrou ao mundo que, além de comandar batalhas grandiosas e convencer plateias a respeito da existência de hobbits, ele sabia falar de seres humanos. É difícil acreditar que o mesmo homem por trás do tenebroso "Fome animal" - um terror podreira repleto de vísceras e humor negro - é o mesmo responsável por "Almas gêmeas", um filme que mantém uma delicadeza feminina e etérea até mesmo em seus momentos mais crus e tensos. Baseado em um fato real e indicado ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o incensado "Pulp fiction" - "Almas gêmeas" é a obra-prima de um cineasta cujas criatividade e imaginação são absolutamente inegáveis.
A história de "Almas gêmeas" se passa em Christchurch, uma pequena cidade da Nova Zelândia, e começa em 1952. A adolescente Pauline Parker (Melanie Lynskey), tímida e retraída, conhece e se encanta por sua cosmopolita colega de classe, a bela, milionária e culta Juliet Hulme (Kate Winslet). Entre as duas nasce uma imediata identificação, apesar de seus modos de vida totalmente opostos - enquanto Pauline vive em uma pensão de propriedade de seus pais, Juliet conhece o mundo todo graças a seus pais, parte da alta sociedade do país. A amizade entre elas começa a ficar mais intensa à medida em que elas entram em uma sintonia cada vez maior, a ponto de criarem um mundo à parte, onde podem exercitar sua imaginação fértil e um tanto distorcida. No entanto, quando os pais de Juliet resolvem se divorciar e consequentemente separar as duas amigas, o relacionamento entre as duas adolescentes começa a preocupá-los. Decididas a nunca mais se separarem, Juliet e Pauline tem, então, uma terrível ideia: acreditando que o maior obstáculo a sua relação é Honora (Sarah Peirse), a mãe de Pauline, elas tomam a decisão de assassiná-la. Todos os detalhes do plano são contados por Pauline em seu diário.
O roteiro do filme, co-escrito por Jackson e Frances Walsh é de uma inventividade ímpar. Ao invés de simplesmente narrar os acontecimentos que levaram à tragédia, os roteiristas dissecam as personalidades doentias, românticas e desesperadas de suas protagonistas com um carinho tétrico, um olhar assombrado mas fascinado e principalmente deixam-se levar pela mais alucinada fantasia. Juliet e Pauline tem um universo particular, o Quarto Mundo, onde, segundo elas, só existe lugar para o prazer e a arte, esta última representada pela Santíssima Trindade - o tenor Mario Lanza, o ator James Mason e o adorado Orson Welles, por quem elas nutrem uma relação de amor e ódio (a sequência em que elas imaginam estar sendo perseguidas pela personagem de Welles no filme "O terceiro homem" é extraordinária e resulta em uma das mais criativas cenas de sexo dos anos 90.

"Almas gêmeas" não é e nem quer ser um filme comum. Fala de um relacionamento homossexual, mas passa longe de ser um filme de apelo somente ao mundo GLS. Apresenta um assassinato cruel, mas jamais poderia ser taxado de um filme de suspense. Tem cenas de lágrimas, choros e desespero, mas enquadrá-lo como um drama podaria grande parte de seu poder de fascínio. É um filme para quem gosta de cinema e para quem se dispõe a, por duas horas, se deixar fascinar, encantar e chocar por uma história bem contada.
3 comentários:
O filme é absolutamente incrível. Assisti esses dias ás cegas, sem saber da trama e da excelente parte técnia, fui realmente surpreendido!
excelente texto, clênio!
[]s
Ótimo filme, com espetacular roteiro e atuação perfeita de Kate Winslet - nesse filme me apaixonei por seu talento profissional.
Bela escolha para comentário.
Vi este filme a muitos anos atras,simplismente fenomenal !!!
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