segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ALMAS GÊMEAS

ALMAS GÊMEAS (Heavenly creatures, 1994, Wingnut Films, 108min) Direção: Peter Jackson. Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh. Fotografia: Alun Bollinger. Montagem: James Selkirk. Figurino: Ngila Dickinson. Direção de arte/cenários: Grant Major/Jill Cormack. Produção executiva: Hanno Huth. Produção: Jim Booth. Elenco: Kate Winslet, Melanie Linskey, Sarah Peirse, Diana Kent, Clive Merrison, Simon O'Connor. Estreia: 16/11/94

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Antes de tornar-se milionário com a trilogia "O Senhor dos Anéis" - cujo último filme lhe rendeu inclusive um cobiçado Oscar de diretor - o neozelandês Peter Jackson mostrou ao mundo que, além de comandar batalhas grandiosas e convencer plateias a respeito da existência de hobbits, ele sabia falar de seres humanos. É difícil acreditar que o mesmo homem por trás do tenebroso "Fome animal" - um terror podreira repleto de vísceras e humor negro - é o mesmo responsável por "Almas gêmeas", um filme que mantém uma delicadeza feminina e etérea até mesmo em seus momentos mais crus e tensos. Baseado em um fato real e indicado ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o incensado "Pulp fiction" - "Almas gêmeas" é a obra-prima de um cineasta cujas criatividade e imaginação são absolutamente inegáveis.

A história de "Almas gêmeas" se passa em Christchurch, uma pequena cidade da Nova Zelândia, e começa em 1952. A adolescente Pauline Parker (Melanie Lynskey), tímida e retraída, conhece e se encanta por sua cosmopolita colega de classe, a bela, milionária e culta Juliet Hulme (Kate Winslet). Entre as duas nasce uma imediata identificação, apesar de seus modos de vida totalmente opostos - enquanto Pauline vive em uma pensão de propriedade de seus pais, Juliet conhece o mundo todo graças a seus pais, parte da alta sociedade do país. A amizade entre elas começa a ficar mais intensa à medida em que elas entram em uma sintonia cada vez maior, a ponto de criarem um mundo à parte, onde podem exercitar sua imaginação fértil e um tanto distorcida. No entanto, quando os pais de Juliet resolvem se divorciar e consequentemente separar as duas amigas, o relacionamento entre as duas adolescentes começa a preocupá-los. Decididas a nunca mais se separarem, Juliet e Pauline tem, então, uma terrível ideia: acreditando que o maior obstáculo a sua relação é Honora (Sarah Peirse), a mãe de Pauline, elas tomam a decisão de assassiná-la. Todos os detalhes do plano são contados por Pauline em seu diário.

O roteiro do filme, co-escrito por Jackson e Frances Walsh é de uma inventividade ímpar. Ao invés de simplesmente narrar os acontecimentos que levaram à tragédia, os roteiristas dissecam as personalidades doentias, românticas e desesperadas de suas protagonistas com um carinho tétrico, um olhar assombrado mas fascinado e principalmente deixam-se levar pela mais alucinada fantasia. Juliet e Pauline tem um universo particular, o Quarto Mundo, onde, segundo elas, só existe lugar para o prazer e a arte, esta última representada pela Santíssima Trindade - o tenor Mario Lanza, o ator James Mason e o adorado Orson Welles, por quem elas nutrem uma relação de amor e ódio (a sequência em que elas imaginam estar sendo perseguidas pela personagem de Welles no filme "O terceiro homem" é extraordinária e resulta em uma das mais criativas cenas de sexo dos anos 90.

As extraordinárias ideias de Jackson, porém, seriam inúteis se ele não estivesse cercado de gente de muito talento. Tendo a sorte de realizar seu filme na Nova Zelândia, livre de qualquer pressão de executivos tacanhos e mercenários, ele pode escolher seu elenco da maneira que bem quis e o resultado é avassalador: a estreante Melanie Lynskey (escolhida poucos dias antes do início das filmagens) consegue ser fria, assustadora e emotiva de acordo com o momento, comprovando que beleza não põe mesa. E Kate Winslet, que poucos anos depois se tornaria estrela de primeira grandeza (e uma das atrizes mais respeitadas de sua geração) faz uma estreia auspiciosa, injetando força e fragilidade a sua complexa personagem (que hoje em dia é uma escritora de livros policiais, chamada Anne Perry).

"Almas gêmeas" não é e nem quer ser um filme comum. Fala de um relacionamento homossexual, mas passa longe de ser um filme de apelo somente ao mundo GLS. Apresenta um assassinato cruel, mas jamais poderia ser taxado de um filme de suspense. Tem cenas de lágrimas, choros e desespero, mas enquadrá-lo como um drama podaria grande parte de seu poder de fascínio. É um filme para quem gosta de cinema e para quem se dispõe a, por duas horas, se deixar fascinar, encantar e chocar por uma história bem contada.

3 comentários:

Alan Raspante disse...

O filme é absolutamente incrível. Assisti esses dias ás cegas, sem saber da trama e da excelente parte técnia, fui realmente surpreendido!

excelente texto, clênio!
[]s

renatocinema disse...

Ótimo filme, com espetacular roteiro e atuação perfeita de Kate Winslet - nesse filme me apaixonei por seu talento profissional.

Bela escolha para comentário.

Anônimo disse...

Vi este filme a muitos anos atras,simplismente fenomenal !!!