sábado, 15 de janeiro de 2011

ASSASSINOS POR NATUREZA

ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural born killers, 1994, Warner Bros/Regency Enterprises, 118min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, David S. Veloz, Richard Rutowski, história de Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: Brent Lewis. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Arnon Milchan, Don Murphy, Clayton Townsend. Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Tom Sizemore, Rodney Dangerfield, Arliss Howard, Balthazar Getty. Estreia: 26/8/94

Não existe nada parecido com "Assassinos por natureza". Vagamente baseado em uma história original de Quentin Tarantino, bastante modificada no roteiro final, a história de um casal de assassinos que torna-se fenômeno da mídia encontrou no polêmico Oliver Stone seu diretor ideal. Mesmo acostumado com controvérsias - afinal, ele tem "Nascido em 4 de julho" e "JFK" no currículo - Stone jamais poderia imaginar o verdadeiro escândalo que seu ... longa causaria junto à imprensa, à crítica e até mesmo à justiça. Eleito pela revista americana Premiere como "O Filme Mais Perigoso de Todos os Tempos", "Assassinos por natureza" chegou a colocar seu diretor no banco dos réus, acusado de incitar a violência e inspirar assassinatos. Mas, afinal de contas, é ou não um filme tão perigoso quanto pintam?

Sem dúvida, "Assassinos por natureza" é um filme diferente de tudo que foi visto no cinema comercial americano, e passados 16 anos de sua estreia, mantém sua extrema capacidade de surpreender, chocar e fazer pensar. Utilizando 18 formatos diferentes de filmagem e quase 3000 cortes - que tomaram 11 meses de trabalho dos editores Brian Berdan e Hank Corwin - a trajetória sanguinária de Mickey e Mallory Knox foge dos padrões convencionais de se contar uma história e, com isso, conseguiu tanto fãs inveterados quanto detratores tão violentos quanto seus protagonistas. O escritor John Grisham, por exemplo, comprou briga com Oliver Stone ao acusá-lo de ser o responsável indireto por uma tentativa de homicídio cuja vítima era seu amigo: o casal que atirou na vítima havia assistido ao filme depois de uma sessão de alucinógenos e, depois de matar uma pessoa, deixou outra presa em uma cadeira de rodas. Stone foi absolvido somente em 2002, mas o episódio apenas reitera o poder do filme junto a audiência. O fato de ter sido solenemente ignorado nas cerimônias de premiação do ano - apesar de muitas críticas entusiasmadas - é sintomático: mesmo no ano em que "Pulp fiction" (não exatamente um filme familiar) chegou perto de ganhar o Oscar, "Assassinos por natureza" foi rechaçado e julgado transgressor além da conta.  O que, de certa forma, não deixa de ser um elogio e tanto...

Narrado de forma não-convencional, "Assassinos por natureza" conta a história de Mickey e Mallory Knox, vividos com intensidade e com uma química explosiva por Woody Harrelson e Juliette Lewis. Depois de matarem os pais da jovem - que abusava sexualmente dela -, eles partem em uma viagem pelos EUA, cometendo assassinatos a esmo e tornando-se conhecidos da população graças principalmente a programas sensacionalistas de TV. Transformados em ídolos de uma parcela da audiência jovem e desiludida não apenas americana, mas mundial, eles acabam sendo presos pelo igualmente psicótico Jack Scagnetti (Tom Sizemore) - traumatizado pela morte violenta da mãe. Às vésperas de ser mandado para uma lobotomia, Mickey aceita dar uma entrevista exclusiva e ao vivo para o repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr., espetacular), a ser transmitida direto do presídio de segurança máxima onde está preso a um ano. Durante o programa, uma rebelião começa e, com a câmera na mão, Gale acompanha Mickey e Mallory em sua eletrizante fuga, mostrada ao vivo para o país inteiro.

Dividido claramente em duas partes, "Assassinos por natureza" tem ritmos distintos para cada uma delas, que se completam com maestria. Na primeira hora do filme, a audiência acompanha os fatos que levaram o casal à prisão, narrados de forma quase anárquica e psicodélica por Stone e seus editores - a profusão de cores, de sons e de efeitos que distorcem as imagens soam como a maneira com que os protagonistas vêem o mundo. A entrevista de Mickey com Wayne Gale é fotografada com claridade e cores vivas e a rebelião em um claustrofóbico preto-e-branco. É seguro dizer que, apesar de ter detestado o roteiro do filme, o premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" - realizou aqui um dos melhores e mais desafiadores trabalhos de sua carreira. Alternando-se entre formatos dos mais variados - até mesmo animação e super 8 - a fotografia é mais um dos pontos altos do filme, uma vez que a visão de Stone é muito particular, em especial a quase afirmar, através de imagens quase surreais, que Mickey e Mallory são na verdade anjos exterminadores em um mundo caótico - e o hipnotizante diálogo entre o assassino e seu entrevistador reitera essa posição.

 

E se a maneira sui generis de Oliver Stone enxergar seus protagonistas encontra excelência na fotografia e na edição, é impossível negar que sua criatividade atinge o ápice em algumas das geniais sequências criadas por seu roteiro delirante. A sofrida vida doméstica de Mallory antes de seu encontro com Mickey, por exemplo, é retratada em forma de um episódio de sitcom (com direito a gargalhadas fake ao fundo e palavrões omitidos), com o humorista Rodney Dangerfield no papel de um pai escroto e cruel. A busca de Mickey por soro antiofídico em uma drogaria deserta é mostrada em forma de desenho animado. E, inseridos entre cenas de violência explícita, comerciais de Coca-cola e imagens de arquivo da televisão americana dos anos 60. Misturadas a uma trilha sonora pulsante - que inclui desde Patti Smith, Nine Inch Nails e Bob Dylan a um extraordinário Leonard Cohen (cujas canções abrem e encerram o filme) essas ideias fora do comum demonstram o poder de Oliver Stone em passar, através de seus filmes, ideologias e discursos no mínimo polêmicos.
 
Mas falar de "Assassinos por natureza" sem tecer loas a seu elenco seria no mínimo injusto, uma vez que é crucial para o filme que ele seja interpretado da maneira correta, sob pena de sair da sátira e da crítica para transformar-se em uma comédia involuntária. Sendo assim, a escolha por Woody Harrelson (saindo imediatamente de "Proposta indecente") e Juliette Lewis (nunca menos do que fantástica) mostrou-se muito acertada, assim como dar ao ótimo Robert Downey Jr. o crucial papel de Wayne Gale (que o autor da história, Quentin Tarantino, queria para si nos primórdios do projeto). Por incrível que pareça é o premiado Tommy Lee Jones quem destoa do conjunto. Oscarizado por "O fugitivo", ele parece confundir ironia com palhaçada, quase estragando o clímax do filme com uma atuação exagerada e fora de contexto. Felizmente sua participação é relegada a segundo plano quando a violência e a tensão assumem a protagonização da história, em detrimento de seu sarcasmo.
 
Crítica ácida à forma como a mídia transforma vilões em heróis, "Assassinos por natureza" não é um filme para qualquer público, mas justamente sua ousadia temática e visual é que faz dele uma das obras fundamentais do cinema americano dos anos 90.

5 comentários:

Ricardo Morgan disse...

Esse filme é foooooda! Oliver Stone na direção e Tarantino no roteiro proporcionou uma frenesi sensacional ao "Assassinos por Natureza", sem falar na espetacular 'moral do filme'. Obrigatório!

renatocinema disse...

Filmaço........Adoro a violência maluca e insana da produção.

A trilha sonora, imperdível, me apresentou Leonard Cohen, outro gênio da música.

abraços

Rodrigo Mendes disse...

CLENIO: este pe o único Cineclipe da história do cinema que me empolga!

Abs.
Rodrigo

pseudo-autor disse...

FILMAÇO! Impressionante como a carreira da Juliette Lewis decaiu. Ela poderia estar numa muito melhor! E tem gente que chama o Oliver Stone de diretor menor. Brincadeira!

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