segunda-feira, 2 de abril de 2012

KILL BILL, V.1


KILL BILL, V.1 (Kill Bill, v.1, 2003, Miramax Films, 111min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino, personagem criado por Quentin Tarantino e Uma Thurman. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Música: The RZA. Figurino: Kumiko Ogawa, Catherine Thomas. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda, David Wasco/Yoshihito Akatsuka, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Erica Steinberg, E. Bennett Walsh, Bon Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba. Estreia: 10/10/03

Cinco anos depois do lançamento de seu filme anterior, "Jackie Brown" - que dividiu a crítica e seus fãs - o cultuado Quentin Tarantino surpreendeu meio mundo com "Kill Bill", uma sangrenta e violenta odisséia de vingança dividida em dois capítulos devido às exigências da Miramax Pictures. Quem esperava um produto típico do diretor levou um susto. Apesar de muitas características suas estarem presentes - diálogos rápidos, referências pop aos borbotões e a edição picotada - o quarto filme de Tarantino é de longe o mais ousado, divertido e radical trabalho de sua mente enlouquecida.

Desde a primeira cena, em preto-e-branco - em que a protagonista inicia seu calvário ao som da belíssima "Bang bang" na voz de Nancy Sinatra - até o final que desperta uma curiosidade atroz de ver logo sua continuação, "Kill Bill, v.1" é um presente aos fãs do cineasta em particular e de cinema como entretenimento em geral. Totalmente desdenhoso de verossimilhança, o universo criado por Tarantino em seu novo filme só faz sentido quando o bom-senso, a crítica e o mau-humor forem deixados de lado. Afinal de contas, suas personagens são capazes de matar quase 100 homens armados em poucos minutos, cabeças decepadas esguicham litros e mais litros de sangue e uma mulher que ficou anos em coma consegue viajar dos EUA ao Japão sem ter ao menos um emprego. Estando ciente dessa necessidade premente de ligar a "suspensão de realidade", basta entrar no clima e cair na diversão - isso se a concepção de diversão do espectador for a mesma do fiel público de Quentin Tarantino.

Tudo começa quando uma jovem grávida e vestida de noiva é violentamente atacada por um bando de matadores e entra em coma. Quatro anos depois, a tal jovem (vivida de forma inesquecível por Uma Thurman) acorda com sede de vingança. Fazendo uma lista com os nomes de todas as pessoas responsáveis por sua tragedia pessoal - todas elas parte de um grupo de extermínio do qual ela mesma fazia parte - ela sai em busca de cada um, disposta a matá-los pessoalmente até chegar ao chefe de todos: o temido Bill, pai da criança que ela esperava no momento do atentado.

        

A história de vingança seria comum e banal, se Quentin Tarantino não estivesse por trás do roteiro. A protagonista, criada pelo diretor e pela atriz Uma Thurman é, sem dúvida, uma das figuras icônicas de seu tempo. O uniforme amarelo usado por Thurman na mais famosa das sequências - quando ela simplesmente dizima um exército de seguranças utilizando apenas uma espada - foi claramente inspirado nos filmes de Bruce Lee, fonte obrigatória na qual Tarantino bebeu descaradamente. Aliás, homenagens não faltam no decorrer da projeção, principalmente a filmes orientais. Até mesmo a criativa e empolgante sequência em anime - para contar as origens de uma das personagens mais interessantes, O-Ren Shii (vivida por Lucy Liu) - faz parte das várias lembranças culturais do diretor.
Mas o que diferencia "Kill Bill, v.1" dos outros filmes do cineasta é a profusão de cenas de ação. Nem mesmo seu filme mais violento até então, "Cães de aluguel", tem tantas cenas de luta e sangue. Milimetricamente coreografadas, as lutas entre Uma Thurman e Vivica A. Fox - que literalmente joga o espectador na trama sem muitos rodeios - e Thurman e Lucy Liu - sem falar em várias outras de tirar o fôlego - não deixam espaço para questionamentos logísticos e/ou filosóficos. São momentos da mais pura adrenalina, com membros sendo decepados sem dó nem piedade, sangue jorrando generosamente e uma trilha sonora que somente os filmes do diretor conseguem tornar homogêneas - que tal "Please, don't let me be misunderstood" ilustrando uma cena belissimamente fotografada em um jardim japonês coberto de neve?

Aliás, outro ganho importante no conjunto final de "Kill Bill, v.1" é o acréscimo do diretor de fotografia Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK". Substituindo o tradicional Andrzej Sekula, colaborador habitual da equipe de Tarantino, Richardson refinou o visual da obra, criando cenas de acabamento impecável que apenas reiteram o crescimento do autor de "Pulp fiction" como realizador. Em cada cena, em cada quadro nota-se nitidamente a forma como Quentin Tarantino se supera a cada trabalho. No primeiro volume de "Kill Bill" ele deixa um pouco de lado sua tendência à verborragia - mas não nos priva de criar personagens seriamente candidatas à antológicas, como a Elle Driver de Daryl Hannah (que terá bem mais destaque na segunda parte) e a segurança pessoal Gogo Yubari (que, vestida de colegial, já é um fetiche ambulante) - para concentrar-se na ação.

O segundo filme continuaria a saga da protagonista (cujo nome nunca é citado aqui) por sua vingança sangrenta e prometia ainda mais cenas inesquecíveis, além de finalmente apresentar a contento o infame Bill. E alguém conseguiu esperar calmamente depois da última frase do filme??

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