quarta-feira, 6 de março de 2013

DE REPENTE, CALIFÓRNIA

DE REPENTE, CALIFÓRNIA (Shelter, 2007, GP Pictures, 97min) Direção e roteiro: Jonah Markowitz. Fotografia: Joseph White. Montagem: Michael Hofacre. Música: J. Peter Robinson. Figurino: Derek Lee. Direção de arte/cenários: Denise Hudson, Gabor Norman/Michael Fitzgerald. Produção executiva: Anne Clements. Produção: Paul Colichman, J.D. Disalvatore, Stephen P. Jarchow. Elenco: Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth. Estreia: 16/6/07 (Frameline Film Festival)

Filmes de temática gay, são, via de regra, extremamente sádicos com seus personagens (e, consequentemente, com a plateia): são raras as produções direcionadas ao público LGBTT que não apelam para mortes trágicas ou sofrimentos exarcebados como forma de retratar o preconceito que cerca aquilo que Oscar Wilde um dia chamou de “o amor que não ousa dizer seu nome”. Só por isso, o delicioso “De repente, Califórnia” já merece ser aplaudido: mesmo que não evite tocar em temas como discriminação, o filme de Jonah Markowitz surpreende por seguir o caminho inverso do gênero, apostando na leveza e no romantismo como antídoto para a choradeira. Narrado em tom de conto de fadas, a bela e delicada história de amor entre o jovem Zach e o experiente Shaun surge como um oásis de otimismo diante de uma série predominante de filmes depressivos que envolvem relações homossexuais. Ensolarado como as paisagens de seu belo cenário natural, “De repente, Califórnia” é recomendável a todos que acreditam no amor independentemente da forma que ele assuma.
O protagonista da história é Zach (Trevor Wright), um jovem recém saído da adolescência que leva uma vida tranquila mas não exatamente excitante em uma cidade litorânea da Califórnia. Trabalhando em uma lanchonete, ele sonha tornar-se artista plástico mesmo depois de ter sido recusado em uma conceituada escola de outro estado. Além de trabalhar e surfar nas horas vagas, Zach ainda é o centro de uma família desestruturada: sua irmã é uma mãe solteira que não se acerta com nenhum namorado e ele volta e meia se vê obrigado a cuidar do sobrinho de cinco anos, a quem trata como um filho. Sua rotina – que inclui eventuais grafites pelos muros da cidade e um namoro pouco apaixonado – sofre um abalo quando ele reencontra Shaun (Brad Rowe), o irmão mais velho de seu melhor amigo, que acaba de mudar de cidade: gay assumido, Shaun volta para casa para recuperar-se do fim de um relacionamento e não demora para que os dois tornem-se parceiros habituais de surf. Com o tempo, tais momentos esportivos acabam por resultar em uma inesperada paixão que esbarra na diferença de idade (Shaun já está na casa dos 30 e Zach mal entrou nos 20) e principalmente no preconceito – se visto como amigo Shaun já estava incomodando ..., o que poderá acontecer se o romance vier à tona?




Markowitz, para alívio do público, não pesa a mão nos momentos mais dramáticos de sua história, preferindo sublinhar os pontos positivos do relacionamento que surge entre os protagonistas – um relacionamento maduro, carinhoso e repleto de compreensão e apoio que contrasta com o dia-a-dia de Zach, cercado de responsabilidades e egoísmo. É difícil não torcer pelo final feliz do par romântico forjado pelo roteiro do diretor, principalmente porque existe o cuidado extremo de tratá-los como gente normal, com problemas verossímeis e plausíveis, além de cercar o romance com um equilíbrio certeiro de delicadeza e sensualidade. Os dois atores centrais são atraentes na medida certa tanto para agradar à plateia gay quanto para não exagerar o glamour que muitas vezes cerca o gênero – Zach e Shaun são bonitos, mas nada que soe inalcançável ou fora da realidade, e as cenas de sexo são desprovidas (felizmente) da aura de culpa e angústia de obras importantes como “O segredo de Brokeback Mountain” e o inglês “O padre”: quando a dupla decide entregar-se à paixão, o sexo surge como consequência inevitável e não como um peso insustentável. E mesmo quando surge o maior dilema em seu caminho, o roteiro evita a tragédia, resolvendo tudo na base do diálogo – e não com tiros, violência ou gritos histéricos.
O que pode parecer simplismo ou superficialidade, porém, é uma qualidade admirável de “De repente, Califórnia”: interessa mais a seu diretor contar uma história de amor desinteressado do que radiografar suas consequências dramáticas. O título original do filme (“abrigo”, em tradução literal) já dá uma pista nesse sentido: Jonah Markowitz é um otimista, alguém que acredita que amor é o teto que protege das tempestades e não aquilo que as provoca, e deixa isso bem claro no desenvolvimento de sua trama. Shaun é o único que apoia Zach na busca por seu sonho – esmagado por uma rotina modorrenta e opressiva – e surge em sua vida como o catalisador e propulsor para novos voos. Essa ideia – de mostrar um romance gay como uma história de amor cujo gênero é quase secundário – é o melhor do filme. “De repente, Califórnia” foge, então, do escaninho de filme gay para ser uma história de amor pura e simples, capaz de encantar a quem se deixar envolver. Para isso, conta com o trabalho do jovem Trevor Wright – que transmite com perfeição o turbilhão emocional de seu personagem – e de Brad Rowe – o objeto de desejo de Sean Hayes na comédia (também de temática homossexual) “O beijo hollywoodiano de Billy”. Um par dos mais afinados, eles conquistam a plateia sem fazer muito esforço. E provam que o amor, quando visto pelo ângulo mais otimista, ainda é muito lindo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Achei o filme bem legal, um romance...

Anônimo disse...

Mto bom adorei, de 0 a 10 eu daria 11 pk e uma linda história parabéns pelo filme

sofia martínez disse...

Muito bom filme! Um filme comovente e tocante, uma história que aborda a questão da homossexualidade de uma forma sutil e precisa que leva à reflexão. Gerencia a narrar uma história bonita e pacífica que navegar entre o ambiente de trabalho mais melodrama sentimental e realismo mágico corantes social e pretensões ideológicas.