terça-feira

O SONHO DE CASSANDRA


O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra's dream, 2007, Wild Bunch, 108min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmon. Montagem: Alisa Lepselter. Música: Philip Glass. Figurino: Jill Taylor. Montagem: Maria Djurkovic/Tatiana MacDonald. Produção executiva: Brahim Chioua, Vincent Maraval, Daniel Wuhrmann. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley. Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, John Benfield, Claire Higgins, Hayley Atwell. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

"Família é família! Sangue é sangue! Você não faz perguntas. Você protege os seus." Com esse argumento fechado a questionamentos o bem-sucedido cirurgião plástico Howard (Tom Wilkinson) pede a seus dois sobrinhos que cometam, por ele, o mais terrível crime que um ser humano pode cometer: o homicídio. Precisando ver-se livre de um antigo associado que pode lhe arruinar a vida, o médico propõe aos rapazes, filhos de sua irmã, que o eliminem. O que a princípio parece um absurdo inominável aos poucos toma forma de real possibilidade graças às dificuldades financeiras dos irmãos. O mais velho, Ian (Ewan McGregor) sonha em tornar-se empresário do ramo de hotéis e abandonar o negócio de restaurantes do pai - especialmente quando se apaixona pela ambiciosa atriz Angela (Hayley Atwell). O caçula, Terry (Colin Farrell) é viciado em jogo e precisa urgentemente de dinheiro para cobrir uma dívida acumulada. Proposta aceita e fato consumado, cabe a eles administrarem o sentimento de culpa - em especial o frágil Terry, que não consegue esquecer o acontecimento - e lidar com a solução rápida de seus problemas monetários.

Filme seguinte de Woody Allen após o suspense com humor negro "Scoop, o grande furo", o drama "O sonho de Cassandra" não agradou aos críticos e nem tornou-se um sucesso comercial. Tendo sua estreia americana adiada para depois da temporada que apresenta os possíveis vencedores do Oscar, o terceiro trabalho consecutivo do cineasta a ser rodado na Inglaterra sofreu inúmeros ataques por não atingir o mesmo grau de excelência de "Match point, ponto final", com quem dialoga em temática e gênero. Enquanto no filme estrelado por Jonathan Rhys-Meyers a culpa praticamente inexistia depois do crime que dá partida à trama, nesse novo filme ela é personagem essencial, ainda que surja apenas no pensamento obsessivo de Terry. Se na obra de Allen que emulava "Crime e castigo" havia sensualidade, tensão e um certo glamour, em seu primeiro trabalho sem atores americanos no elenco só o que aparece em cena é angústia, remorso e uma decadência moral sem o mesmo charme de um "Crimes e pecados". Musicado por Philip Glass, "O sonho de Cassandra" não é um típico Woody Allen, mas, mesmo com todos os seus defeitos, ainda consegue ser um trabalho acima da média.


O grande acerto de Allen foi o de misturar as cartas de seu baralho e oferecer a seus jovens atores centrais papéis que fogem de sua zona de conforto. Enquanto o esperado era que o irlandês Colin Farrell se esbaldasse como o amoral Ian e o escocês Ewan McGregor brindasse o público com o tenso Terry - que se entrega ao álcool e à tendência suicida depois do crime - o filme vira tudo de cabeça para baixo com a escalação surpreendente de seu elenco. Se Tom Wilkinson brilha como o cirurgião que transforma a vida dos sobrinhos oferecendo-os dinheiro em troca de um assassinato, McGregor e Farrell saem-se fazem o possível para mostrar que tem capacidade de sobra para encarnar papéis distintos. Nem sempre se saem bem - mais culpa das personagens pouco carismáticas - mas ficam bem longe do desastre. E é inegável que Allen sabe o que faz com as cenas de suspense: assim como em "Match point", as sequências que exigem tensão são muito bem dirigidas.

"O sonho de Cassandra" realmente não é um Woody Allen dos melhores. É lento em demasia, tem problemas no desenho de algumas personagens e acaba bruscamente. Mas tem um elenco sensacional, uma direção elegante e é bem mais inteligente do que a grande maioria de seus congêneres. Vale uma conferida, mas não entrará em nenhuma lista de melhores do cineasta.

Um comentário:

Anônimo disse...

Também acho o filme mediano, mas a atuação de Colin Farrell surpreende.

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...