quarta-feira, 13 de março de 2013

HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA


HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA (Hairspray, 2007, New Line Cinema, 117min) Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, roteiro original de John Waters, peça musical de Mark O'Donnell, Thomas Meehan. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Michael Tronick. Música: Marc Shaiman. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: David Gropman/Gordon Sim. Produção executiva: Toby Emmerich, Jennifer Gigbot, Garrett Grant, Mark Kaufman, Michael Lynne, Marc Shaiman, Adam Shankman, Bob Shaye. Produção: Neil Meron, Craig Zadan. Elenco: John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, James Marsden, Amanda Bynes, Brittany Snow, Nikki Blonsky. Estreia: 13/7/07

O caminho natural de um produto artístico quando resolve mudar de mídia raramente é alterado. Às vezes um filme vira peça de teatro ou musical da Broadway e em alguns casos o contrário também acontece. O que é raro, mas também acontece, é o caminho tortuoso de "Os produtores" - inspirada no filme "Primavera para Hitler", de Mel Brooks, transformou-se em musical nos palcos e depois chegou às telas em 2005 estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman. "Hairspray, em busca da fama" faz parte desse seleto grupo. Inspirado no "clássico" de John Waters, o musical fez enorme sucesso no teatro e voltou a seu lar de origem, o cinema, cheio de moral. Com uma renda de quase 120 milhões de dólares de arrecadação nas bilheterias americanas, o filme de Adam Shankman - que exagerou na sacarose em "Um amor para recordar" e no humor pasteurizado em "Doze é demais 2" - agradou também à crítica (foi indicado a 3 Golden Globes) e surpreendeu o mundo ao mostrar um John Travolta extremamente à vontade cantando e dançando... no papel de uma dona-de-casa fora de forma.

No filme original - onde a característica de Waters de exagerar no kitsch era elevada à décima potência de deboche - a rotunda Edna Turnblad era interpretada pelo travesti Divine, um dos atores-símbolo de sua filmografia. Nessa versão século XXI, a ideia de manter um ator no papel mostrou-se novamente acertada. Além do choque de dar de cara com Travolta - um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 70/80 - bem acima do peso e na pele de uma personagem feminina, a decisão mostra com perfeição o espírito despido de preconceitos com que o filme chega a seu público. Nada mais adequado, aliás, já que a trama central fala justamente sobre discriminação. Apesar do tema, porém, que não se espere nenhum tratado sociológico. Com um registro leve e engraçado, "Hairspray" conquista pelo bom-humor e por seu compromisso único e exclusivo com a diversão.


Apesar de ser a presença sempre magnética de Travolta que mais chama a atenção do filme, sua Edna Turnblad não é a protagonista. O posto de personagem central ficou nas mãos da novata Nikky Blonsky, que interpreta a sonhadora Tracy, adolescente gordinha da pequena cidade de Baltimore que, no ano de 1962 (ou seja, no auge da luta pelos direitos civis dos afrodescendentes) passa os dias obcecada com "The Corny Collins Show", programa musical de TV que, para sua esperança, sofre um desfalque em seu elenco de dançarinas. Certa de que tem chances de ganhar a vaga - a ser disputada em um concurso - Tracy conta com a ajuda de seu amigo Seaweed (Elijah Kelley), que lhe ensina passos novos, discriminados como dança de gueto. Durante sua campanha para a vaga, Tracy toma contato com a discriminação racial do programa - que conta apenas com dançarinos brancos, dando espaço aos jovens negros apenas uma vez por mês - e do país como um todo, chamando a atenção da mídia e de Link Larkin (Zac Efron), jovem galã integrante do programa que se apaixona por ela, para desespero de sua "namorada" Amber Von Tessle (Brittany Snow). Quem também não gosta nada dessas novidades todas é a mãe de Amber, Velma (Michelle Pfeiffer), que também é gerente de programação da emissora que transmite o programa de Collins.

Conquistando desde seus créditos de abertura que mostram Tracy a caminho da escola, "Hairspray" tem a seu favor o ritmo adequado e o humor quase ingênuo, que reflete a época na qual se passa. Mesmo quando falam de temas sérios, o roteiro e a música fazem questão de lembrar o espectador de que eles estão assistindo a apenas uma comédia musical, sem maiores pretensões que não entreter. É essa sua falta de pretensão sua maior qualidade, além do elenco inspiradíssimo. Além de Travolta - que se diverte notadamente em cena e tem uma química invejável com seu marido na tela, Christopher Walken - a bela Michelle Pfeiffer mostra que não tem nada a temer com a idade, ficando com um papel que quase foi oferecido a Meryl Streep e Madonna. Zac Efron e Nikky Blonsky estão ótimos em seus papéis e se Queen Latifah não chega a ser totalmente aproveitada, ao menos não desparece diante de alguns números musicais realmente empolgantes.

Engraçado, divertido e leve, "Hairspray, em busca da fama" só perde um pouco seu ritmo em seu terço final - ainda que o recupere bravamente em seu desfecho. Mas é um entretenimento de primeira.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei o comentário e amei o filme