terça-feira

MEDO DA VERDADE

MEDO DA VERDADE (Gone baby gone, 2007, Miramax Films, 114min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Aaron Stockard, romance de Dennis Lehane. Fotografia: John Toll. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Alix Friedberg. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Chris Cornwell. Produção executiva: David Crockett. Produção: Sean Bailey, Alan Ladd Jr., Dan Rissner. Elenco: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Morgan Freeman, Amy Ryan, Amy Madigan. Estreia: 19/10/07

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Amy Ryan)

Apesar de alguns sucessos de bilheteria - "Armaggedon" e "Pearl Harbor" entre eles - o nome de Ben Affleck não era exatamente sinônimo de prestígio dentro de Hollywood no início dos anos 2000. Severamente criticado por suas parcas qualidades como ator - fato comprovado com atuações pífias em "Contato de risco" (ao lado da então noiva Jennifer Lopez) e "Menina dos olhos" (que repetiu sua parceria com o diretor Kevin Smith) - ele optou então por um caminho inteligente cujos primeiros passos ele havia dado em 1998 com "Gênio indomável" (que ele co-escreveu com o amigo Matt Damon e lhe deu o Oscar da categoria) - tornar-se diretor. Se a crítica e o público tinham reservas quanto a seu talento dramático, porém, não puderam deixar de surpreender-se positivamente com "Medo da verdade". Adaptado do romance de Dennis Lehane pelo próprio ator e por Aaron Stockard, o filme agradou em cheio por revelar em Affleck um cineasta sensível, discreto e, melhor ainda, atento ao objetivo principal de um filme: prender a atenção da plateia.

Lehane - também autor do livro que originou "Sobre meninos e lobos" - criou uma trama potente e inteligente, que valoriza os dramas pessoais das personagens tanto quanto o desenvolvimento do suspense e Affleck acertou em dar a devida atenção a tais conflitos, contando para isso com um elenco coadjuvante acima de qualquer crítica. Seu único erro - e de certa forma crucial - foi escalar para o papel central seu irmão Casey, que, apesar da indicação ao Oscar de coadjuvante por "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford", não tem estofo dramático o suficiente para segurar tal desafio. Ao lado da igualmente frágil Michelle Monaghan, Casey acaba fazendo de seu Patrick Kenzie a menos interessante personagem da história.



Situado em um subúrbio de Boston, "Medo da verdade" começa com o desaparecimento da pequena Amanda McCready, de apenas 4 anos de idade. Filha única de Helene (Amy Ryan) - uma mulher não exatamente exemplar - a menina sumiu de sua própria casa sem deixar vestígios, o que deixa a vizinhança em polvorosa. Chamados para investigar o caso em paralelo com a polícia, os detetives Patrick Kenzie e Angie Gennaro (Monaghan) acabam por descobrir uma rede de corrupção policial, pedófilos e traficantes de drogas. Mesmo acostumados com a região, eles ficam chocados com todos os desdobramentos do crime, que apontam para uma solução nada ortodoxa.

Com as já citadas atuações apenas razoáveis de Casey Affleck e Michelle Monaghan - ele sem o tipo físico e o carisma apropriados e ela sem maiores características marcantes - "Medo da verdade" se beneficia também de seu elenco de apoio, formado por atores extraordinários em papéis que demonstram várias camadas no decorrer da projeção. É assim que Ed Harris, Morgan Freeman e Amy Madigan crescem conforme a trama vai se desenrolando e é assim também que Amy Ryan cria uma Helene McCready impecável, que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante. É Ryan, com sua personagem desagradável, quase cruel e fria, que melhor representa todas as nuances do filme, com seu jogo de aparências e interesses.

Tratado mais como um drama do que como um policial, "Medo da verdade" foge dos clichês do gênero ao apostar em reviravoltas críveis, que empurram a história adiante sem soar forçadas. As engrenagens do roteiro - muito bem adaptado, com fidelidade e respeito mas sem perder a objetividade - só são expostas de verdade no terço final, quando tudo faz um apavorante sentido e justifica o crescimento interno dos protagonistas - também presentes em outros romances de Lehane. A sensação sufocante que deixa quando acaba - ao contrário de muitos produtos puramente comerciais e ocos - dá ao filme de Affleck uma qualidade tangível, de tristeza e indignação. E não é isso que diferencia os filmes apenas corretos daqueles que merecem um lugar na lista dos melhores?

Um comentário:

Hugo disse...

Grande filme com uma ótima e surpreendente direção de Ben Affleck, que comprovaria seu talento na função nos trabalhos posteriores.

Abraço

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