quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

QUASE 18

QUASE 18 (The edge of seventeen, 2016, Gracie Films/STC Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig. Fotografia: Doug Emmett. Montagem: Tracey Wadmore-Smith. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: William Arnold/Ide Foyle. Produção executiva: Oren Aviv, Pete Corral, Brendan Ferguson, Adam Fogelson, Cathy Schulman, Robert Simonds, Donald Tang, Lisa Walder, Zhongjun Wang, Zhonglei Wang, Jerry Ye. Produção: Julie Ansell, James L. Brooks, Kelly Fremon Craig. Elenco: Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Haley Lu Richardson, Kyra Sedgwick, Blake Jenner, Hayden Szeto. Estreia: 16/9/16 (Festival de Toronto)

Se tivesse sido lançada nos anos 80, a comédia adolescente "Quase 18" poderia facilmente ser confundida com uma produção de John Hughes, e sua protagonista interpretada por Molly Ringwald. Ícones do gênero em sua época graças a filmes como "Clube dos cinco", "A garota de rosa-shocking" e "Gatinhas e gatões", Hughes e Ringwald conquistaram legiões de fãs por terem conseguido o quase impossível: falar com uma plateia jovem e ávida por representatividade em um período repleto de heróis de ação brutamontes e efeitos visuais espetaculares. Com roteiros simples e diretos, que dialogavam sem frescura com seu público-alvo, seus filmes atravessaram gerações e tornaram-se tanto documentos de um momento específico no tempo quanto fontes de referência inesgotáveis. Foi assim que Will Gluck utilizou-se de seus elementos primordiais para criar o delicioso "A mentira" (2010) e é assim que a jovem Kelly Fremon Craig chegou a encantar a crítica e o público com sua estreia na direção: "Quase 18" tem John Hughes em seu DNA, e mantém o frescor e a inteligência de seus melhores trabalhos - além de contar com uma inspiradíssima Hailee Steinfeld no papel central.

Nadine, a atormentada protagonista de "Quase 18", parece ter sido escrito especialmente para Steinfeld, tamanha a sintonia entre personagem e atriz. Indicada ao Oscar de coadjuvante já em seu primeiro papel no cinema, no western "Bravura indômita", de 2010, a jovem Steinfeld demonstra no filme de Fremon Craig que seu talento vai muito além de sorte de principiante: carismática e expressiva, ela explora todas as nuances que o papel exige, a ponto de oferecer um lado humano e simpático até mesmo a suas atitudes mais egoístas e pouco razoáveis. Com um roteiro realista e sem condescendências escrito pela própria diretora, o filme foge das armadilhas de menosprezar os problemas de sua protagonista, fazendo com que o público consiga compreender o tamanho de cada um deles através de sua perspectiva - talvez exagerada, mas de acordo com sua idade e sua visão de mundo. Justamente por não fazer de Nadine uma adolescente exemplar e repleta de virtudes, mas sim uma pessoa mais próxima da realidade, o filme conquista, diverte e faz pensar - sem nunca deixar de lado sua aura de divertimento juvenil.


Nadine, a protagonista, é uma adolescente de dezessete anos que nunca sentiu o gostinho de ser a mais popular da escola ou ter muitos amigos. Quieta e desiludida, ela observa o próprio irmão, Darian (Blake Jenner), assumir o posto de preferido da mãe, Mona (Kyra Sedgwick), e destacar-se em todas as atividades a que se propõe, enquanto passa os dias reclamando da sorte ao lado da única amiga, Krista (Haley Lu Richardson). O que já era ruim torna-se ainda pior quando Krista resolve se apaixonar por Darian, deixando Nadine furiosa e sentindo-se a mais traída das criaturas. Só quem a entende é um colega nerd, Erwin (Hayden Szeto) - que ela não percebe ser apaixonado por ela - e um paciente professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), em quem ela descarrega toda a sua raiva e agressividade. Tentando sobreviver à adolescência, a menina ainda precisa lidar com a paixão que sente por um dos rapazes mais populares da escola, que mal sabe de sua existência, e a saudade do pai, que morreu quando ela ainda era uma criança.

Sem jamais cair na caricatura ou qualquer tipo de excesso, Hailee Steinfeld concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical, mas perdeu para Emma Stone, favorita absoluta por seu desempenho em "La La Land: cantando estações". Sua lembrança entre os indicados mostra, no entanto, que é difícil resistir a seu encanto juvenil e sua sinceridade contagiante. Logo na primeira cena, quando entra na sala do professor avisando que irá cometer suicídio, Nadine conquista a plateia com seu jeito exagerado e dramático de encarar a vida e as situações pelas quais passa, e durante os próximos 100 minutos, o público se deixa docilmente conduzir por seu universo de desespero e angústia - tudo mostrado com o bom-humor e o respeito que se poderia esperar de uma discípula de John Hughes como é o caso da diretora/roteirista. Sucesso moderado de bilheteria (rendeu o dobro do orçamento de 9 milhões de dólares, mas não chegou a causar barulho nas caixas registradoras da produtora), "Quase 18" é um filme pequeno, que nada contra a maré de superproduções caras e megalomaníacas e pode encontrar sua audiência em quem procura entretenimento menos ambiciosos. Merece ser descoberto como um legítimo representante de um gênero sempre querido e inteligente.

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