quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

STRAPPED (Strapped, 2010, AltarBoy Productions, 95min) Direção e roteiro: Joseph Graham. Fotografia: Matthew Boyd. Montagem: Sharon Franklin. Música: Inu, Windows to Sky. Direção de arte/cenários: Will King/Andrew Colon. Produção executiva: Derek Curl, Raymond Murray. Produção: Joseph Graham, William D. Parker. Elenco: Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin, Carlo D'Amore, Michael Klinger, Raphael Baker. Estreia: 17/7/10

Quando se tem ambições comerciais amplas, filmes de temática homossexual seguem padrões não muito ousados: ou apelam para versões gays de histórias de amor trágicas ou optam por produções mais politizadas, com a intenção de conscientizar o público sobre os problemas da comunidade. Foi assim com o ótimo "Milk: a voz da igualdade" (2008), que, dirigido por Gus Van Sant, deu o segundo Oscar de melhor ator a Sean Penn e ainda levou a estatueta de roteiro original ao contar a história de Harvey Milk, político homossexual que levantou a bandeira dos direitos gays, lutou contra o ódio dos fundamentalistas mais fervorosos dos EUA e acabou assassinado. Deixando de lado o talento de todos os envolvidos no filme e sua grande qualidade como cinema, porém, seu sucesso muito se deveu à força do dinheiro envolvido, nos nomes fortes do elenco e da produção e de um generoso empurrão da crítica. Produções independentes, baratas, sem nomes conhecidos no elenco e sem a máquina dos grandes estúdios normalmente passam em branco junto às plateias, ficando relegadas a seu público-alvo ou a poucos curiosos desprovidos de preconceito. Foi o que aconteceu com "Strapped", que não ganhou nem mesmo título em português, nunca estreou oficialmente no Brasil e mesmo assim conquistou fãs com sua honestidade e inteligência ao retratar, com um roteiro repleto de metáforas, a rotina de um garoto de programa que, descobre, mesmo sem querer, que tem muitos sentimentos escondidos por trás de sua fachada de autossuficiência.

Escrito e dirigido por Joseph Graham - especializado em produções de temática gay - e estrelado por um elenco de atores desconhecidos que dão plena conta do recado, "Strapped" é praticamente um conto surreal, que mistura um erotismo sutil (mas por vezes bastante sexy) com momentos de quase sentimentalismo. O mérito é, em boa parte, do roteiro, que consegue a façanha de ficar à beira do didático ao explorar inúmeros tipos que constroem a diversidade do universo que se propõe a iluminar, mas consegue escapar dos estereótipos e dos exageros que normalmente povoam o gênero. Graham consegue, de maneira fluente e com ritmo admirável, conduzir sua narrativa de forma a envolver a plateia e fazer com que ela acompanhe seu protagonista sem nome (ou, dependendo do ponto de vista, com vários nomes diferentes) em sua involuntária jornada de autodescobrimento com prazer e interesse. Para isso, muito ajuda a presença de Ben Bonenfant, um ator longe de ser brilhante ou dono de uma beleza avassaladora, mas que tem carisma e um ar de ingenuidade que serve perfeitamente ao personagem e o aproxima da audiência com extrema facilidade. Mesmo que o texto não aprofunde o bastante o histórico do protagonista - que veste um personagem diferente para cada cliente que se apresenta - o filme seduz o espectador pela despretensão e pelo tom realista/fantástico que imprime em cada sequência.


"Strapped" já começa em plena ação com o protagonista visitando John (Artem Mishin), um russo casado que, aproveitando-se de uma viagem da esposa, o chama para momentos de sexo casual e acaba desabafando com ele, contando sobre uma experiência de sua adolescência, quando se apaixonou perdidamente por um colega e viu o preconceito de perto, através dos olhos da própria família. Programa encerrado, o rapaz se vê perdido em um prédio cuja saída parece inalcançável e dá de cara com Leon (Carlo D'Amore), que o reconhece de programas anteriores e o leva para seu apartamento, onde ele dá de cara com uma festa particular regada a álcool e drogas - e com dois convidados muito especiais, entre os quais um jovem e tímido escritor Gary (Nick Frangione), que se encanta por sua sensualidade quase desajeitada. Em seguida, ele topa com David (Michael Klinger), também casado, que, a pretexto de ajudá-lo a sair do edifício, se esgueira com o rapaz para a lavanderia, onde revela seu desejo secreto por homens: o encontro acaba mal, e o jovem prostituto é amparado por Sam (Paul Gerrior), um homem de meia-idade que se revela uma pessoa solitária e com experiências de vida absolutamente fascinantes. É quando já está quase amanhecendo que o seguro e cobiçado michê descobre, da forma mais surpreendente possível, que dentro do "prédio mais gay da rua mais gay da cidade" pode estar sua chance de encontrar o amor.

Utilizando sem medo a metáfora do prédio sem saída como um retrato da encruzilhada existencial de seu protagonista, "Strapped" felizmente não se mantém como um filme de uma ideia só. Ao apresentar diversos tipos de homossexuais, ele quebra as barreiras de estereótipos e mostra ao público momentos de grande humanização de todos eles, desde o russo que nunca esqueceu o primeiro amor até o homem de meia-idade sedento por um abraço e uma boa conversa. Sem deixar de lado o aspecto mais festivo do mundo gay (com direito a cocaína, álcool e stripteases), Joseph Graham busca principalmente mostrar a comunidade homossexual masculina com todos os seus problemas e algumas eventuais alegrias. Até soa um tanto melancólico em boa parte do tempo, mas tal opção cabe perfeitamente em seu objetivo de tirar da prostituição masculina o glamour que muitos filmes acabaram por emprestar. Ainda que o protagonista não esteja exatamente desgostoso com sua profissão, o roteiro deixa claro sua solidão, os perigos que ele corre e até mesmo a falta de vínculos que o impede de encontrar o amor e o carinho não remunerados. O final feliz que finalmente consegue vislumbrar - depois de uma bela sequência romântico/erótica - é realista ao mesmo tempo em que flerta com o romantismo mais assumido. Essa surpresa final (essa ruptura com o quase pessimismo anterior) é que faz de "Strapped" um filme acima da média, apesar de alguns problemas decorrentes do perceptível orçamento baixo. É um filme que merece ser descoberto e admirado, não apenas por seu público-alvo mas por todos aqueles que admiram produções que falam sobre pessoas - seus medos, inseguranças e pequenas felicidades. Uma pequena pérola do cinema LGBT.




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