quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS (Nerve, 2016, Lionsgate, 96min) Direção: Henry Joost, Ariel Schulman. Roteiro: Jessica Sharzer, romance de Jeanne Ryan. Fotografia: Michael Simmonds. Montagem: Madeleine Gavin, Jeff McEvoy. Música: Rob Simonsen. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Chris Trujillo/Kara Zeigon. Produção executiva: Qiuyun Long, Jeanne Ryan. Produção: Anthony Katagas, Allison Shearmur. Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emilu Meade, Miles Heizer, Juliette Lewis, Kimiko Glen, Marc John Jefferies. Estreia: 12/7/16

Uma sociedade consumida pelo desejo ávido de fama, dinheiro e bajulação não tem como evitar que seus jovens acabem por buscar todos esses objetivos da maneira mais fácil e/ou rápida. Retratos de gerações vazias e desesperadas por algum sentido (qualquer um) já foram mostrados pelo cinema por diversas vezes, desde os rebeldes sem causa de "O selvagem" (53), com Marlon Brando e "Juventude transviada" (54), com James Dean, até os niilistas viciados em heroína de um dos maiores cults dos anos 90, "Trainspotting: sem limites", com Ewan McGregor e dirigido pelo oscarizado Danny Boyle. Unindo essa angústia existencial com a irresponsabilidade de uma geração escravizada pela Internet e pelas redes sociais - e suas consequências frequentemente trágicas - surgiu "Nerve: um jogo sem regras", um romance escrito por Jeanne Ryan que, assim como a bem-sucedida tetralogia "Jogos vorazes" parte de uma fictícia e quase macabra série de regras para criticar, sob forma de entretenimento ligeiro, a falta de perspectivas e limites dos viciados em tecnologia e popularidade instantânea. Sua versão para as telas de cinema, dirigida pela dupla Henry Joost e Ariel Schulman - também por trás dos capítulos 3 e 4 da franquia "Atividade paranormal" - pode não ter a contundência de um novo clássico, mas consegue uma façanha e tanto: diverte enquanto faz pensar.

Rápido e eficiente, "Nerve" é um filme adolescente, juvenil, que beira a superficialidade em seus questionamentos e soluções dramáticas, mas por incrível que pareça, funciona muito bem, desde que a expectativa do espectador não seja muito elevada. Com um visual modernoso, uma trilha sonora adequada e uma edição ágil na medida certa para quem não tem paciência com sequências muito longas - ou seja, a maior parte de seu público-alvo - o filme de Joost e Schulman é o típico exemplo de produção que, sem campanhas milionárias de marketing ou orçamentos gigantescos, acaba por conquistar uma bilheteria respeitável graças unicamente à propaganda boca-a-boca: mesmo sem grandes astros no elenco e sem a chancela de materiais já consagrados em outras mídias, atingiu uma bilheteria mundial de mais de 80 milhões de dólares - quatro vezes mais do que seu custo estimado (que, por sua vez, é o equivalente ao salário POR FILME de Julia Roberts, a tia de sua atriz principal, Emma). Na pele da protagonista Vee, a jovem Emma pela primeira vez demonstra carisma e talento suficientes para segurar um papel principal - e com uma ótima química com seu parceiro de cena, Dave Franco (irmão de James), é um dos destaques da produção, disfarçando algumas improbabilidades do roteiro e facilitando a identificação da plateia com a personagem.


Vee é uma jovem estudante do ensino médio que precisa ganhar dinheiro se quiser frequentar a faculdade de Artes da qual sonha fazer parte. Tímida e romântica, ela mora com a mãe, Nancy (Juliette Lewis) e é incapaz até mesmo de declarar-se para o rapaz por quem é apaixonada, o jogador de futebol J.P. (Brian Marc). Fotógrafa por vocação, ela se contenta em ser amiga da extravagante Sydney (Emily Meade), que não mede esforços para chamar a atenção e ser considerada a garota mais popular da turma. Seu esforço é tanto que ela é uma das mais famosas participantes de um jogo online chamado Nerve, em que aqueles que estão inscritos são desafiados a praticarem atos cada vez mais ousados diante das câmeras com o objetivo de acumularem dinheiro e seguidores. De bobagens como cantar diante de estranhos até ações mais pesadas como pendurar-se a centenas de metros do chão, os candidatos ao prêmio final do jogo vão sendo eliminados conforme não conseguem cumprir o que foi ordenado ou desistem de continuar. Abalada com seu status de espectadora passiva do mundo a seu redor, Vee resolve então entrar no jogo, mesmo contra os conselhos de seu melhor amigo, Tommy (Miles Heizer). Sua entrada no arriscado universo de Nerve coincide com sua parceria com Ian (Dave Franco), que também faz parte da brincadeira e com quem ela passa a desempenhar uma sucessão de tarefas que ao mesmo tempo lhe tornam famosa e admirada pelos espectadores e em constante possibilidade de falhar - especialmente quando Tommy descobre que Ian pode não ser quem eles acham.

Mesmo que seu desfecho seja abrupto, inverossímil e até anti-climático, é inegável que "Nerve" é um filme que sabe como entreter sua audiência. Tem um ritmo ágil, personagens carismáticos e sabe manter o interesse da plateia até o final, quando opta por uma saída fácil, que esvazia a força que a narrativa vinha imprimindo até então. Desperdiçando a presença de Juliette Lewis - que pouco aparece e é subaproveitada em um papel ingrato - e abraçando o óbvio final feliz, o roteiro ameniza a potência de sua denúncia, transformando o que poderia ser um belo discurso sobre os perigos da celebridade fácil em apenas mais uma (boa) aventura, perfeita para passar o tempo, mas sem muitas chances de fixar-se na memória do público logo após seus créditos de encerramento. É divertido, é atual e tem personalidade visual, mas não ultrapassa os limites que se autoimpõe como entretenimento despretensioso. Vale uma sessão, desde que não se tenham grandes expectativas a seu respeito.

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