sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE

UM HOMEM CHAMADO OVE (En man som heter Ove, 2015, Tre Vanner Produktion AB, 116min) Direção: Hannes Holm. Roteiro: Hannes Holm, romance de Fredrik Backman. Fotografia: Goran Hallberg. Montagem: Fredrik Morheden. Música: Gaute Storaas. Figurino: Camilla Lindblom. Direção de arte/cenários: Jan Olof Agren. Produção executiva: Michael Hjorth, Fredrik Wikstrom. Produção: Annica Bellander, Nicklas Wikstrom Nicastro. Elenco: Rolf Lassgard, Bahar Pars, Filip Berg, Ida Engvoll, Tobias Almborg. Estreia: 13/12/15

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Maquiagem

Talvez nem mesmo os mais assíduos frequentadores de mostras de cinema e festivais internacionais consigam fazer, sem pensar por um bom tempo, uma lista de filmes suecos que conseguiram ultrapassar as barreiras do idioma e chegar às telas nacionais nos últimos vinte anos. Não tão tradicionais e populares no Brasil como as produções espanholas, francesas e italianas, os filmes da terra de Ingmar Bergman apenas ocasionalmente tem a oportunidade de romper o hermetismo do mercado brasileiro de exibição - e para que isso aconteça, nada mais oportuno e eficaz do que uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Por isso - e logicamente por suas qualidades inerentes - o emocionante "Um homem chamado Ove" conseguiu a façanha de conquistar o público sem apelar para efeitos visuais de última geração ou orçamentos inchados. Adaptado do romance de Fredrik Backman - que vendeu mais de 700 mil exemplares em sua língua original - e dirigido por Hannes Holm, o filme tornou-se um enorme sucesso na Suécia, chegando a figurar entre as cinco maiores bilheterias da história do país antes de começar uma vitoriosa trajetória em festivais que culminou com sua candidatura à estatueta dourada. Simples, direto e de fácil comunicação com a plateia, é um oásis de delicadeza em meio à pretensão do cinema que convencionou-se chamar de "cabeça" pelo simples fato de não ser falado em inglês.

Ao contrário do alemão "Toni Erdmann", seu rival na disputa pelo Oscar, que já tem refilmagem hollywoodiana engatilhada apesar de ser dolorosamente chato, "Um homem chamado Ove" nem precisa ganhar um remake para cativar a plateia. Contando uma história universal de amor, perda e redenção, o roteiro do também diretor Holm brinca com duas linhas temporais para iluminar a rotina de um senhor que, às vésperas de completar 60 anos, perde o sentido da existência ao ser demitido e perder a esposa a quem idolatrava. Interpretado com maestria por Rolf Lassgard, o protagonista se apresenta como um homem amargurado e de mal com a vida, que passa os dias implicando com os vizinhos e tentando manter a ordem no condomínio fechado em que mora, no interior da Suécia. Ranzinza e fechado, ele vê seu dia-a-dia ser transformado com a chegada de uma nova família ao local. A jovem iraniana Parvaneh (Bahar Pars), grávida e mãe de duas meninas, se torna uma inesperada fonte de vivacidade e prazer na vida do solitário ancião, que também ajuda o marido da nova amiga, Patrik (Tobias Almborg), a adaptar-se em sua nova realidade. Aos poucos, sua existência cinzenta ganha novas cores, e seus constantes desejos de morrer - refletidos em suas frequentes e frustradas tentativas de suicídio - dão lugar a um relacionamento construtivo que muda inclusive sua percepção dos demais companheiros de condomínio.


Iluminando o passado de Ove através de elucidativos flashbacks que explicam seu comportamento atual, o filme de Holm utiliza-se de uma edição inteligente - ainda que relativamente comum - para revelar ao público diferentes nuances do protagonista. Interpretado ainda por Filip Berg em sua juventude e Viktor Baagoe na infância, Ove se demonstra, a cada cena, uma pessoa dona de uma personalidade complexa, consequência de uma vida repleta de amor e paixões - seja pela esposa, Sonja (Ida Engvoll), ou por carros e motores, que lhe fascinam desde criança. Conforme o roteiro vai avançando e os reais sentimentos de Ove vão sendo expostos pela bela fotografia e pela doce trilha sonora, o filme vai alcançando uma dimensão bem mais humana e singela do que se poderia supor. Mesmo apelando para o clichê em sua estrutura dramática, o filme jamais se deixa atrapalhar pelo previsível ou pela apatia: seu protagonista é, sim, um típico idoso chato e desagradável, cheio de manias e regras, mas a forma com que ele transforma tudo isso em combustível para uma nova fase da vida é capaz de desenhar um sorriso no rosto do mais cínico dos espectadores. E para isso, nem é preciso uma grande reviravolta ou armadilhas sentimentalistas.

Contando sua história com delicadeza e um senso de ritmo que evita tempos mortos, Hannes Holm convida a plateia a testemunhar, sem pressa, a mudança de percepção do personagem principal em relação à vida e ao que ela (ainda) o oferece. De forma surpreendente, o roteiro consegue cativar a audiência tanto nos flashbacks que contam a história de amor entre Ove e Sonja quanto em seu presente tedioso, alterado pela convivência com a juventude e a esperança de seus novos companheiros de jornada. Mesmo que não apresente maiores novidades em sua trama, é um filme dotado de uma beleza tão simples e delicada que se torna impossível não se deixar envolver por ele. Um belo programa, que merece ser descoberto pelo público que gosta de ter o coração aquecido por uma boa e humana história sobre pessoas que podem estar na casa ao lado.

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