terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O SONO DA MORTE

O SONO DA MORTE (Before I wake, 2015, Relativity Media, 97min) Direção: Mike Flanagan. Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard. Fotografia: Michael Fimognari. Montagem: Mike Flanagan. Música: Danny Elfman, The Newton Brothers. Figurino: Lynn Falconer. Direção de arte/cenários: Patricio M. Farrell/Tim Pope. Produção executiva: Mali Elfman, David S. Greathouse, Lew Horwitz, Michael Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, D. Scott Lumpkin, Julie B. May, Glenn Murray. Produção: Sam Englebardt, William D. Johnson, Trevor Macy. Elenco: Kate Bosworth, Thomas Jane, Jacob Tremblay, Annabeth Gish. Estreia: 07/4/16

Coisas do destino: se o filme "O sono da morte" tivesse sido lançado na data prevista, em setembro de 2015, um de seus maiores trunfos provavelmente teria passado batido. No entanto, sua produtora, a Relativity Media, declarou falência antes de sua estreia e deixou-lhe em um limbo de onde sairia apenas em 2016, quando foi comprado e distribuído internacionalmente pela Netflix. De uma certa forma, foi um percalço providencial: quando finalmente a produção de Mike Flanagan viu a luz do dia, seu ator-mirim, Jacob Tremblay, já era uma pequena grande estrela graças à "O quarto de Jack", que virou queridinho da crítica e deu a Brie Larson o Oscar de melhor atriz. Assim como na dramática história de mãe e filho presos em um cativeiro durante anos, o suspense de Flanagan tem na diminuta figura de Tremblay seu maior destaque: em uma trama que foge do terror fácil, o garotinho dá mais um show, oferecendo consistência dramática e sensibilidade à uma história que mistura tensão, fantasia e sobrenatural sem nunca definir-se completamente por nenhum dos gêneros com que flerta. Apesar dessa indecisão (ou talvez até por causa da ousadia de tal proposta), "O sono da morte" acaba por ser o melhor filme do diretor que, no mesmo ano de 2016, lançou outros duas produções de terror: "Hush: a morte ouve" e "Ouija: origem do mal".

Assim como o australiano "O Babadook", de 2014, usava um monstro assustador como metáfora para a depressão, em "O sono da morte" o diretor Flanagan (também coautor do roteiro e editor) também explora sentimentos de tristeza e solidão para narrar o encontro entre um casal em luto pela morte do filho pequeno e um menino órfão que tem problemas para encontrar novos pais graças a um estranho dom (ou maldição) que o impede de levar uma infância normal. Os pais, Jessie e Mark, são interpretados por Kate Bosworth e Thomas Jane, em atuações apenas corretas. Inconsoláveis com a morte do filho ainda criança, eles decidem amainar a dor através da adoção de Cody (um trabalho impecável de Jacob Tremblay, já mostrando o potencial que o mundo conheceria em seu filme seguinte). Órfão e traumatizado por uma série de lares que acabaram por não efetivar sua adoção, o menino de oito anos é recebido com carinho e atenção, mas não demora para que estranhos acontecimentos abalem a estrutura de seu novo lar: o que começa com a aparição inesperada de belas borboletas coloridas e a surpreendentes visitas do falecido filho torna-se, aos poucos, uma espécie de pesadelo vívido. E não é apenas impressão, já que Cody tem o poder de transformar todos os seus sonhos em realidade - inclusive a constante aparição de um monstro que se recusa a abandonar o garoto.


O mais interessante no roteiro de Flanagan é a sua opção por inserir elementos de terror em uma história repleta de dor e melancolia, tornando-os ferramentas narrativas dúbias ao espectador escolado no gênero. Mesmo que a aparição do monstro que atormenta Cody não acrescente nenhuma novidade aos filmes de terror que são lançados a granel, sua função na trama foge do óbvio ao não limitar-se apenas a provocar sustos. O "Homem-Cancro" que aterroriza o menino e o faz desesperadamente evitar noites de sono tem um alcance psicológico muito maior do que se poderia esperar em um filme de suspense, mas isso não o impede de, como bom vilão, ameaçar a paz dos personagens em sequências desenhadas com louvável cuidado pela fotografia discreta e pela trilha sonora eficiente em sublinhar cada sentimento da aflita família. São nos momentos de maior pavor que o pequeno Jacob Tremblay mostra a que veio, lembrando, com uma atuação segura e surpreendente, a impressionante presença de Haley Joel Osment em "O sexto sentido" (1999). Diante dele, Kate Bosworth e Thomas Jane - não exatamente grandes atores - empalidecem, mas felizmente não deixam escapar o tom, entregando interpretações consistentes mesmo quando a trama parece estar a um passo do inverossímil.

Vendido erroneamente como um filme de terror comum, "O sono da morte" pode pegar o espectador de surpresa: na verdade, é um drama familiar denso e angustiante, que se aproveita dos clichês de um gênero pouco afeito a ousadias para fazer pensar e emocionar. Essa ambiguidade é, ao mesmo tempo, uma de suas maiores qualidades e um de seus maiores defeitos: ainda que acrescente camadas mais inteligentes a um estilo normalmente rígido em suas regras, pode afastar os fãs mais radicais. No fim das contas, vale a pena conferir nem que seja para perceber que o pequeno Tremblay não brilhou em "O quarto de Jack" apenas por sorte: ele é realmente um espanto de ator.

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