quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A LEI DA NOITE

A LEI DA NOITE (Live by night, 2016, Warner Bros, 129min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Dennis Lehane. Produção: Ben Affleck, Jennifer Davisson, Leonardo DiCaprio, Jennifer Todd. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Sienna Miller, Chris Messina, Robert Glenister, Remo Girone, Zoe Saldana, Chris Cooper. Estreia: 13/12/16

Não é a primeira vez que os caminhos de Ben Affleck e do escritor Dennis Lehane se cruzam: a estreia de Affleck como diretor, em 2007 foi com a adaptação do romance "Gone baby, gone", batizada no Brasil como "Medo da verdade" e que deu à Amy Ryan uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. De lá pra cá, Affleck colecionou elogios e prêmios com novas incursões à carreira de diretor - como a estatueta de melhor filme, por "Argo", em 2013 - e Lehane viu outro livro seu ganhar as telas ("Ilha do medo", de Martin Scorsese, de 2010) e chegou a roteirizar um conto seu em "A entrega", dirigido por Michael R. Roskam em 2014. O reencontro entre os dois, porém, não foi dos mais felizes: apático e desinteressante, "A lei da noite" decepcionou nas bilheterias e foi desprezado pela crítica e pelas cerimônias de premiação, tornando-se, até agora, o elo mais fraco de uma filmografia que vinha se mostrando bastante consistente e empolgante. Mesmo contando com algumas louváveis qualidades, o quarto trabalho de Affleck como diretor não empolga nem cativa o espectador - e só não é ainda pior porque, inteligente e já experiente, ele soube cercar-se de uma equipe acima de qualquer suspeita, que disfarça suas eventuais falhas.

Abandonando sua temática urbana contemporânea, Lehane buscou, para "A lei da noite", raízes no cinema noir e em sua iconografia facilmente reconhecível pelos cinéfilos: estão presentes no filme a narração em off, mulheres fatais, regras de moral bastante elásticas, violência e o visual deslumbrante oferecido pelo premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" (91). Porém, apesar de todos os elementos estarem no lugar, há algo que falta ao resultado final: alma. Apesar da reconstituição de época caprichada, do excelente trabalho do elenco (exceção ao próprio Affleck, mau ator como em seus piores dias) e da ambientação sofisticada, não existe empatia em relação ao protagonista e até mesmo as tramas secundárias são apresentadas de forma confusa, em um roteiro que não se aprofunda em nenhuma delas e ainda deixa o público sem ter por quem torcer. Tivesse deixado o ego um pouco de lado e escalado um ator melhor para viver o personagem principal (como Leonardo DiCaprio, que foi considerado mas permaneceu apenas como um dos produtores) talvez parte do problema resolvido, mas sua falta de expressão acaba por ser o tiro de misericórdia em uma produção morna e lenta que em nenhum momento empolga a plateia. A falta de personalidade de "A lei da noite" pode até ser creditada às diferenças criativas entre o diretor e a Warner Bros - que exigiu um filme com mais ação em detrimento de diálogos e uma trama mais psicológica que era a intenção de Affleck e deixou o resultado final capenga - mas é inegável que o domínio narrativo apresentado nos trabalhos anteriores do diretor/ator/roteirista faz uma enorme falta quando se assiste a um filme com mais de duas horas de duração que parecem o dobro de tempo quando a sessão acaba.


Assim como todo policial noir, "A lei da noite" acompanha a trajetória de um anti-herói. Joe Coughlin (Ben Affleck) é o filho caçula de um respeitado policial de Boston (Brendan Gleeson), mas isso não o impede de flertar abertamente com o mundo do crime, assaltando bancos e roubando até mesmo dos perigosos mafiosos que lucram com a Lei Seca. Um desses golpes o aproxima de Emma Gould (Sienna Miller, irreconhecível), que também é amante de um poderoso chefão local. Tal romance acaba por colocá-lo em maus lençóis: condenado à prisão e sabendo da morte da bela namorada, ele sai da cadeia disposto a vingar-se e aceita trabalhar com um dos rivais de seu novo inimigo. Enquanto sobe na carreira, se envolve com a cubana Graciela (Zoe Saldana), um relacionamento que irá despertar a fúria da Ku Klux Klan e deixá-lo em rota de colisão com rivais que também buscam enriquecer com o contrabando de bebidas - e posteriormente com o jogo. Para proteger-se, Coughlin se aproxima do xerife local, Figgis (Chris Cooper) e de sua ambiciosa filha, Loretta (Elle Fanning).

Com tantos personagens e tramas paralelas jogadas na tela, "A lei da noite" sofre de um sério problema de foco. Ben Affleck desperdiça alguns ótimos personagens como coadjuvantes de uma trama central clichê e sem novidades, deixando de lado atuações milagrosas de Chris Cooper e Elle Fanning e concentrando-se na relação entre seu protagonista e Graciela e em sua trajetória como criminoso: nenhuma das duas histórias é forte o bastante para manter o espectador interessado, e ambas são desenvolvidas superficialmente, quase com preguiça, o que é um pecado mortal para um filme que se pretende um thriller policial. Não deixa de ser lamentável que uma produção tão cuidadosa e com tantos talentos envolvidos tenha ficado tão aquém de seu potencial. Dessa vez Ben Affleck errou feio. "A lei da noite" não é um filme insuportável, mas está longe de ser bom como poderia ser - e mais longe ainda do que se esperava dele.

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