sábado, 4 de fevereiro de 2017

MELHORES AMIGOS

MELHORES AMIGOS (Little men, 2016, Charlie Guidance Productions, 85min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Óscar Durán. Montagem: Mollie Goldstein, Affonso Gonçalves. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Eden Miller. Direção de arte/cenários: Alexandra Schaller/Emily Deason. Produção executiva: Tom Dolby, Dom Genest, Matthew Helderman, Daniella Kahane, Lars Knudsen, David Kyle, Sophie Mas, Melissa Pinsly, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Hugh Schulze, Luke Dylan Taylor, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Franklin S. Zitter. Produção: Lucas Joaquin, Christos V. Konstantakopoulos, Jim Lande, Ira Sachs, L.A. Teodosio. Elenco: Greg Kinnear, Paulina García, Jennifer Ehle, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Talia Balsam. Estreia: 25/01/16 (Festival de Sundance)

Em 2014, o cineasta Ira Sachs conquistou a crítica com "O amor é estranho", uma agridoce história de amor homossexual na terceira idade, estrelada por John Lithgow e Alfred Molina. Três anos depois, ele volta a falar de pessoas comuns em momentos extraordinários da vida em "Melhores amigos", indicado ao Independent Spirit Award de melhor roteiro e atriz coadjuvante. Ao contrário de seu filme anterior, porém, ele foca seu olhar em outra direção etária, ao examinar, com delicadeza e sensibilidade, o despertar da amizade entre dois pré-adolescentes que se descobrem no meio do fogo cruzado entre suas famílias, surgido por dificuldades financeiras e profissionais. Sem maiores lances dramáticos e com um tom discreto e minimalista, Sachs consegue contar uma história simples e humana centrando-se basicamente em personagens críveis e uma narrativa honesta, que jamais ambiciona ir além do que promete. Com dois promissores atores jovens nos papéis centrais e um elenco coadjuvante generoso, "Melhores amigos" é o tipo de filme capaz de encantar aos espectadores que procuram produções simples e emocionantes.

Tudo começa quando o pai de Brian Jardine (Greg Kinnear) morre e lhe deixa de herança um pequeno prédio no Brooklyn nova-iorquino. Não exatamente bem-sucedido na profissão de ator e vivendo de pequenas produções teatrais que não pagam o sustento da família - o que acaba sendo função da esposa, Kathy (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta tanto compreensiva quanto dedicada - o rapaz se muda para o novo bairro com a mulher e o filho pré-adolescente, Jake (Theo Taplitz), e não demora para se adaptar à nova vida, facilitada também com o apoio de Leonor Calvelli (Paulina García), inquilina do andar de baixo do prédio de seu pai e amiga do falecido. Dona de uma loja de roupas costuradas à mão e de origem latina, Leonor também tem um filho, Tony (Michael Barbieri), que imediatamente se torna amigo de Jake. Os dois jovens tem sonhos em comum - Jake quer ser artista plástico, Tony ambiciona ser ator - e passam a conviver como irmãos. Acontece que a vida adulta nem sempre reflete a inocência da juventude e problemas de dinheiro acabam por intrometer-se na relação entre as duas famílias. Pagando um aluguel irrisório graças à sua amizade com o proprietário, Leonor se vê repentinamente cobrada a pagar um preço muito maior por sua loja - afinal, Brian não apenas precisa de dinheiro como também se vê cobrado por sua irmã, que também tem direito ao valor do aluguel. Vendo tudo do lado de fora, os dois meninos tentam impedir que o conflito os atinja e à sua amizade.


Assim como já havia feito em "O amor é estranho", Ira Sachs utiliza como principal matéria-prima de seu filme o dia-a-dia de pessoas normais, lutando para manter uma vida digna e harmoniosa, mesmo que para isso seja preciso que se faça alguns sacrifícios ou que conflitos se façam inevitáveis. Sem marcar nenhum de seus personagens com definições fáceis ou maniqueístas, o roteiro flui com a delicadeza de uma crônica, valorizado pelos desempenhos ricos em nuances de Greg Kinnear e Paulina García. O primeiro mostra-se um ator cada vez mais engajado no universo do cinema independente - dentro do qual saiu um de seus maiores sucessos de bilheteria e crítica, o merecidamente incensado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - e García, aplaudida mundialmente por seu trabalho em "Gloria" (2013), mais uma vez surpreende, com uma atuação rica em pequenos gestos e subtextos. Mesmo que boa parte do foco esteja nos meninos que tentam isentar-se da batalha travada pelos pais, são os adultos que refletem a dura realidade que os cerca e dão o peso necessário à narrativa e à trama, e os atores veteranos conquistam justamente por equilibrar com tanta destreza todos os desvãos da história sem apelar para o sentimentalismo ou a crueza pura e simples.

E, logicamente, é preciso louvar a escalação dos dois jovens atores que interpretam os melhores amigos do título nacional - ou os pequenos homens do batismo original. Se Theo Taplitz encontra o meio-tom ideal para seu Jake (um menino tímido e quase deslocado que encontra na arte e na amizade do novo vizinho um canal para desenvolver-se como adulto), é Michael Barbieri quem se destaca mais, na pele do corajoso e questionador Tony. Sem medo de contracenar com atores mais experientes e encarando de frente o desafio de liderar o elenco de um filme tão centrado em diálogos e cenas de emoções complexas, os dois iniciantes demonstram também uma química que se mostra imprescindível para o desenvolvimento da trama - e que conduz ao final melancólico e realista. Ainda não são grandes intérpretes, mas dão uma boa pista de que, bem dirigidos, podem se tornar nomes respeitados em um futuro breve. Seu primeiro filme, ao menos, aponta para esse caminho. "Melhores amigos" pode não surpreender ou ser inesquecível, mas é honesto e bem-intencionado.

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