segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Ultimo tango a Parigi, 1972, United Artists, 136min) Direção: Bernardo Bertolucci. Roteiro: Franco Arcalli, Bernardo Bertolucci, ideia de Bernardo Bertolucci. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Franco Arcalli, Roberto Perpignani. Música: Gato Barbieri. Figurino: Gitt Magrini. Direção de arte/cenários: Philippe Turlure. Produção: Alberto Grimaldi. Elenco: Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud. Estreia: 14/10/72

2 indicações ao Oscar: Diretor (Bernardo Bertolucci), Ator (Marlon Brando)

Como um filme idealizado como uma história de amor e obessão entre um casal homossexual e posteriormente alterado para um casal hetero, repleto de cenas de sexo cruas e quase desagradáveis e com um roteiro composto por alguns diálogos francamente pobres pode ter se transformado em um dos mais famosos filmes da história do cinema? A resposta é uma só: Marlon Brando. Um dos atores mais admirados de sua geração, Brando deu ao polêmico filme de Bernardo Bertolucci uma aura de arte que, não fosse por sua propalada presença, ele jamais teria. Violentamente atacado pela Igreja e por censores de toda a parte do mundo - inclusive do Brasil, onde foi manteve-se proibido por vários anos - como "pornográfico", "O último tango em Paris" também foi a bandeira levantada por todos que lutavam por liberdade de expressão nos difíceis anos 70. Uma pena, porém, que a luta tivesse uma bandeira tão chamativa mas ao mesmo tempo tão oca. Chocante o filme é, mas pelas razões erradas.

Dizer que o "O último tango em Paris" é pornográfico é exagero. Qualquer um que já tenha assistido a uma produção de sexo explícito sabe que as pretensas cenas quentes do filme de Bertolucci são quase pudicas. Tirando o fato de apresentar inúmeras sequências de nudez frontal de Schneider e os diálogos fortes não há nada de muito transgressor ou excitante - talvez a ideia de um encontro sexual anônimo em um apartamento vazio, mas só. A famigerada "cena da manteiga" ou o momento em que Paul - personagem de Brando - pede à amante que lhe enfie o dedo no ânus não são capazes de habitar os sonhos lúbricos de quem quer que seja, servindo apenas para reiterar o nível de degradação crescente dos personagens que, aliás, nunca ultrapassam o nível de superficialidade psicológica, ao contrário das centenas de admiradores.


Assim como Adrian Lyne fez 14 anos depois com seu "9 1/2 semanas de amor", Bertolucci não oferece a seu público maiores informações sobre seus protagonistas: sobre Paul, sabe-se apenas que é um americano quarentão que é proprietário de um hotel decadente e que acaba de ficar viúvo, depois do suicídio da mulher. A respeito de Jeanne o que se depreende é que ela é uma jovem em busca de um apartamento para morar com o namorado, o cineasta Tom (Jean-Pierre Léaud, o ator-fetiche de François Truffaut encarnando um diretor da nouvelle vague com os mesmos cacoetes de seu descobridor, na melhor sacada do filme). Os dois, Paul e Jeanne, se encontram fortuitamente em um apartamento para alugar e, sem maiores motivos do que simplesmente um tesão instantâneo e irrefreável, iniciam um relacionamento tórrido e desprovido de quaisquer outras intenções. Sem conhecimento de nada sobre a vida um do outro, eles passam a se encontrar regularmente.

E é só isso. Bertolucci conta com uma fotografia inspirada de Vittorio Storaro - influenciada pela obra de Francis Bacon - para ilustrar suas ideias, mas justamente o que falta são ideias. Brando, que improvisou boa parte de suas falas, fica zanzando pelos cenários declamando textos desconexos - que os babadores de ovo profissionais consideraram profundos e densos - quando não simplesmente ofensivos. À Schneider - atriz sem grande carisma que teve uma carreira irregular e não teve a sorte de cair nas graças da crítica - resta ser eclipsada pela atuação de seu célebre colega de cena, que desfila a interminável fila de vícios adquiridos no Actor's Studio como forma de disfarçar o fato de que seu personagem é desagradável e chato com seus discursos onde tenta desconstruir o amor, a família, a Igreja e todo e qualquer pilar da civilização organizada.

É engraçado perceber como os fãs de "O último tango em Paris" conseguem encontrar desculpas esfarrapadas até mesmo para seus erros técnicos - a equipe do filme refletida no vidro de um prédio, por exemplo, significa "mais um elemento de inquietação subliminar". É difícil assumir que - excetuando-se o fato de sua importância transgressora em uma época de sufocante opressão - o filme de Bertolucci não tem muito mais onde se apoiar a não ser em sua aura de escândalo. É importante? Talvez. Mas é bom? Apenas quando se tende a gostar do que foi convencionado chamar de "filme de arte".

Um comentário:

Anônimo disse...

Brando está realmente impecável