quarta-feira, 19 de maio de 2010

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.


Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.

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