sábado, 11 de outubro de 2014

CABARET

CABARET (Cabaret, 1972, Allied Artists Pictures/ABC Pictures, 124min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Allen, estórias de Christopher Isherwood, musical de Joe Masteroff, John Van Druten. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: David Bretherton. Música: John Kander. Figurino: Charlotte Flemming. Direção de arte/cenários: Rolf Zehetbauer/Jurgen Kiebach. Produção: Cy Feuer. Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Joel Grey, Marisa Berenson, Helmut Griem, Fritz Wepper. Estreia: 13/02/72

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 8 Oscar: Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey)

Pode uma obra ser indicada a 10 estatuetas do Oscar elevar oito delas sem ficar justamente com a mais importante, a de melhor filme? Sim, especialmente se concorrer diretamente com a saga da família Corleone. Foi isso que aconteceu na cerimônia de 1973, quando a transposição para o cinema de "Cabaret", famoso e consagrado musical da Broadway viu suas esperanças de sair com todas as suas indicações convertidas em prêmios acabarem com a vitória de "O poderoso chefão" como melhor filme, ator e roteiro adaptado (a outra categoria em que tinha chances). Hoje em dia talvez seja inadmissível que a obra-prima de Francis Ford Coppola não tenha sido campeã também em número de Oscar, mas basta apenas uma sessão do filme de Bob Fosse para que se perceba que, a despeito da qualidade inimitável da primeira parte da história de Michael Corleone, "Cabaret" é realmente um grande filme, uma obra de arte que mistura com poesia sátira política, liberdade sexual, música e uma forte crítica social à decadente Alemanha pré-II Guerra. Não é pouco para um musical aparentemente inocente.

A trama se passa na Berlim de 1931, onde chega o estudante inglês Brian Roberts (Michael York) para terminar seus estudos. Ele se hospeda na mesma pensão onde mora a americana Sally Bowles (Liza Minnelli), uma das atrações do cabaret Kit Kat Club, uma casa noturna decadente cujo palco é liderado por um sinistro Mestre de Cerimônias (Joel Grey, defendendo na tela o mesmo papel que o havia consagrado nos palcos, nos anos 60). Alegre e despachada - e com muitos sonhos de vencer na vida - Sally torna-se a referência de Brian na Alemanha prestes a mergulhar no nazismo. Sua relação torna-se ainda mais próxima quando ambos se descobrem interessados no mesmo homem, o milionário Barão Maximiliam von Heune, que os acena com uma vida de prazeres luxuosos. Enquanto o triângulo nem tão amoroso assim se desenvolve, uma outra história de amor, verdadeira, acontece sob a sombra do nacionalismo de Hitler e envolve dois alunos de Brian, a judia Natalia Landauer (Marisa Berenson) e o católico Fritz Wendel, que esconde um segredo que pode modificar suas vidas.


Equilibrando números musicais fascinantes que, ao invés de atrapalhar o desenvolvimento da história, a ajuda com comentários irônicos e/ou informativos, Bob Fosse mostrou que sabia como ninguém construir uma narrativa criada para os vastos palcos da Broadway em formato de cinema, provando-se à altura do compromisso de dirigir um filme recusado por Gene Kelly e Billy Wilder. Coreógrafo experiente e dono de um olhar extremamente crítico e sagaz, ele ousa contar sua história sem nenhum tipo de julgamento moral, limitando-se a, no máximo, deixar que a música fale por ele. E ela é excepcional. Apesar de apenas cinco números do espetáculo terem sobrevivido na versão para as telas, a trilha sonora de "Cabaret" é envolvente e contagiante, com algumas canções já tornadas clássicas ("Money, money" e a música-título, em especial) interpretadas com verve e dinamismo por Joel Grey - que ganhou o Oscar mesmo disputando com três atores de "O poderoso chefão" - e Liza Minnelli, merecida vencedora do Oscar de melhor atriz. Filha de Judy Garland e do cineasta Vincent Minnelli, Liza é, até hoje, a única oscarizada da história a ter os dois pais também premiados pela Academia. Mas, como ela mesma declarou ao receber a estatueta, os méritos são realmente dela.

Na pele de Sally Bowles, Liza consegue ser transgressora, delicada, romântica, cínica e engraçada, além de cantar e dançar com uma desenvoltura raras. Não foi à toa que o escritor Christopher Isherwood - que criou a personagem em um conto - declarou que a única falha da atriz na sua composição foi fazer de Bowles uma artista tão talentosa, uma vez que a original era apenas medíocre. Na tela, Minnelli é uma explosão de talento, conquistando a plateia com seu humor particular, suas idiossincrasias e especialmente sua carência de amor, explicitadas em sua relação com Brian. As cenas em que ambos são obrigados a tomar decisões cruciais para seu futuro são de partir o coração, e até nesses momentos fica claro o cuidado de Fosse em não se deixar cair no piegas. Assim como não há excessos no humor do roteiro também não o há no drama. Esse perfeito equilíbrio - que ainda encontra espaço para comentar discretamente a situação política da Alemanha e sua iminente transformação em inimiga do mundo - é que dá a "Cabaret" sua aura de eterno.

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