quarta-feira, 10 de maio de 2017

REDS

REDS (Reds, 1981, Paramount Pictures, 195min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty, Trevor Griffiths. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Dede Allen, Craig McKay. Música: Stephen Sondheim. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Simon Holland. Produção executiva: Dede Allen, Simon Relph. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Gene Hackman, Edward Herrman, Paul Sorvino. Estreia: 03/12/81

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Warren Beatty), Ator (Warren Beatty), Atriz (Diane Keaton), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Warren Beatty), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Warren Beatty) 

A concepção de um projeto cinematográfico é uma ciência inexata. Nunca se sabe em que circunstâncias uma ideia pode surgir - e que motivos inusitados podem levá-la a ver a luz dos refletores. Um exemplo claro dessa afirmação é "Reds", o milionário épico estrelado, dirigido, produzido e roteirizado por Warren Beatty: a história de um dos jornalistas mais importantes de sua época, John Reed, e de como ele testemunhou a Revolução Russa de 1917 começou a fervilhar na mente de seu criador por volta de 1966, quando, em viagem à Rússia, ele conheceu uma mulher que alegava ter tido um romance com Reed e lhe contou a história de sua vida. Alguns anos depois, aprendendo o idioma russo para conquistar a bailarina Maya Plisetskaya, Beatty aprofundou-se nos detalhes sobre seu protagonista e, em 1969, escreveu o primeiro esboço de um filme que só começaria a tomar forma de verdade dez anos depois - e que fez com que o astro recusasse o convite do cineasta soviético Sergey Bondarchuck de viver o jornalista em um outro filme. Ambicioso, caro (35 milhões de dólares), longo e arriscado, "Reds" chegou às telas americanas no final de 1981, mais de dois anos depois do começo de suas filmagens e, por incrível que pareça em relação a um filme com ideais claramente esquerdistas em uma Hollywood ainda torturada pelos anos do macarthismo, tornou-se um sucesso, especialmente de crítica e prêmios: indicado a 12 Oscar, levou três estatuetas para casa (direção, atriz coadjuvante e fotografia) e rendeu à Beatty láureas de direção do Golden Globe, da Associação de Diretores, dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. Nada mal para um filme que parecia que jamais iria estrear.

Quando Warren Beatty deu o pontapé inicial às filmagens de "Reds", em agosto de 1979, o cronograma previa quinze ou dezesseis semanas de trabalho. Quando finalmente o perfeccionista diretor se deu por satisfeito, seis meses já haviam se passado e o material filmado era suficiente para nada menos que duas semanas e meia de projeção. A própria Paramount Pictures, financiadora do projeto, só teve acesso ao filme pronto um mês antes de sua estreia - e. logicamente, tinha reservas em relação a como o tema (delicado e talvez político demais para o público médio) iria ser tratado por Beatty, já então um ator politicamente ativo. O resultado foi mais que positivo: ao contrário do que se poderia esperar, o roteiro de "Reds" não se detém na Revolução Russa, passando por ela apenas como uma das vastas experiências de seu protagonista junto a seu trabalho como repórter político e sua relação conturbada com outra jornalista, a independente Louise Bryant (Diane Keaton). Mais uma história de amor do que uma história política, "Reds" conquista pelo tom épico, pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro e por um elenco coadjuvante onde se destacam Jack Nicholson e Maureen Stapleton, ambos indicados ao Oscar, assim como Beatty e Keaton.


O filme começa em novembro de 1915, quando John Reed, um repórter da revista de esquerda The Masses conhece a inteligente e liberada Louise, que não hesita em abandonar o marido para se entregar à paixão que sente pelo experiente e sedutor jornalista. O romance entre os dois é atrapalhado somente pelo excesso de viagens de Reed e por seus pontos de vista distintos em relação à fidelidade matrimonial: enquanto ele não nega os romances passageiros que vive enquanto está fora de casa, ela se tortura psicologicamente por seu envolvimento com um amigo do casal, o dramatugo Eugene O'Neil (Jack Nicholson), completamente apaixonado por ela. A entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial serve como estopim para novas crises em seu relacionamento: depois de uma separação traumática, ele a convence a acompanhá-lo para uma viagem à Rússia, onde ele acredita que está se preparando uma grande revolução comunista que irá mudar o mundo. As consequências da revolução, porém, acaba ameaçando sua relação quando Reed se vê preso no país e Louise resolve, mesmo correndo riscos, procurar uma maneira de resgatá-lo. Nesse meio-tempo, Reed tenta também encontrar um modo de fazer com que seus conterrâneos abracem a causa comunista como forma de igualdade social.

Intercalando sua história com depoimentos reais de pessoas que conheceram os protagonistas (em entrevistas filmadas desde o começo dos anos 70), Warren Beatty constrói sua narrativa de forma quase documental, contando com a ajuda providencial da fotografia espetacular de Vittorio Storaro, que por pouco não abandonou o projeto devido às temidas "diferenças artísticas", devidamente solucionadas de forma a equilibrar os planos estáticos desejados por Beatty e os movimentos fluidos e ágeis de câmera propostos por Storaro - merecidamente premiado com um Oscar por seu trabalho. Boa parte do fascínio de "Reds" vem justamente do visual impresso na tela, com paisagens de tirar o fôlego entremeadas por longas cenas de diálogos inteligentes e dramaticamente consistentes: são nesses momentos que brilha Diane Keaton (então namorada do diretor e astro), que transforma sua Louise Bryant na verdadeira protagonista do filme, uma mulher decidida e forte que vê sua vida completamente transformada por amor a um homem e a uma causa. Beatty, galã de prestígio e um dos homens mais poderosos da indústria de então (foi indicado em quatro categorias do Oscar, por "Reds", seguindo outras quatro por "O céu pode esperar", de 1978) quase fica em segundo plano diante da potência do desempenho e Keaton, provando de vez que sua carreira não dependia de sua sociedade artística com Woody Allen. Talvez justamente sua performance tão sensacional dê a impressão de que "Reds" é mais uma história romântica - algo como "Doutor Jivago" (65) - do que uma história política. Melhor assim: sua ideologia não assustou ao público, foi bem aceita pela crítica e legou ao filme a fama de ser um dos épicos mais importantes de sua época. Poderia ser menos longo e mais focado, mas ainda assim é um belo e memorável espetáculo, prejudicado apenas pelo egocentrismo de seu ator principal - não é difícil perceber o quanto o filme fica mais interessante quando ele não está em cena!

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