domingo, 4 de junho de 2017

AMOR SEM FIM

AMOR SEM FIM (Endless love, 1981, Polygram Filmed Entertainment, 116min) Direção: Franco Zefirelli. Roteiro: Judith Rascoe, romance de Scott Spencer. Fotografia: David Watkin. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Jonathan Tunick. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Alan Hicks. Produção executiva: Keith Barish. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Brooke Shields, Martin Hewitt, Shirley Knight, James Spader, Beatrice Straight, Don Murray, Richard Kiley, Tom Cruise. Estreia: 17/7/81

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Endless love")

Por motivos bem diferentes entre si, tanto a veterana Shirley Knight quanto Teri Shields, mãe da atriz Brooke Shields, não queriam que a estrela juvenil de "A lagoa azul" (80) fosse escalada para o papel principal de "Amor sem fim", a ser dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Teri temia - com carradas de razão - de que a filha acabasse sendo apenas um enfeite em um filme cujo roteiro era praticamente inexistente. E Knight, com sua experiência, julgava - também sem estar muito errada - que a bela adolescente não tinha talento suficiente para o papel. Para Knight, qualquer outra jovem atriz seria uma melhor opção - e, para facilitar a vida do cineasta, sugeriu uma lista de nomes que incluía Rosanna Arquette, Bo Derek, Linda Blair, Carrie Fisher, Jodie Foster, Melanie Griffith, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer e Debra Winger. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu convencer Zefirelli a mudar de ideia - e Knight ainda teve o desprazer de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante do ano (fazendo companhia, por extrema ironia, tanto à Brooke quanto ao diretor e ao galã do filme, Martin Hewitt).

Baseado em um livro de Scott Spencer, "Amor sem fim" é o típico filme que ganhou notoriedade pelos motivos errados. Em primeiro lugar, há a beleza plácida e incontestável de Brooke Shields, um dos mais lindos rostos já descobertos por Hollywood. Em segundo, há a canção-tema, interpretada por Lionel Richie e Diana Ross, indicada ao Golden Globe e ao Oscar e campeã de vendas e execução nas rádios à época de seu lançamento. Afora isso, é um romance de plástico, com uma trama frouxa e inverossímil e uma dupla central de atores que, à parte sua fotogenia, não consegue sustentar um roteiro de telenovela mexicana dirigido sem brilho e sem inspiração por um cineasta que, pouco mais de uma década antes, havia tornado Shakespeare popular à juventude cinéfila com uma versão delicada e comovente de "Romeu e Julieta" (68). Amor proibido, portanto, não lhe era um terreno desconhecido  - o que deixa a decepção ainda maior e mais imperdoável: "Amor sem fim" é simplesmente ruim, capaz de conquistar corações adolescentes pouco exigentes mas impossível de agradar racionalmente a quem procura um filme de verdade.


A história - rala e pouco crível - já começa mostrando o namoro de David Axelrod (Martin Hewitt, estreando no cinema em papel para o qual até mesmo Tom Hanks foi testado) e Jade Butterfield (Brooke Shields): ele tem 17 anos e ela tem 15, mas a família aparentemente liberal da menina não se importa muito que eles já estejam fazendo sexo (ao menos sua mãe, que gosta de David mais do que uma sogra deveria gostar). De uma hora para outra, no entanto, o pai da garota, Hugh (Don Murray), um médico nem tão moderno assim, decide que é hora de afastá-los, porque as noites de amor entre os dois estão prejudicando os estudos de sua bela filha. Revoltado com o fato - e com a possibilidade de Jade não estar mais apaixonada por ele -, David faz o que qualquer um faria (???) e incendeia, por acidente, a casa da família. Condenado a dois anos em uma instituição psiquiátrica, ele não deixa de pensar na namorada (ou ex) e, assim que tem a oportunidade de sair da prisão, resolve que é hora de reconquistar o seu amor - nem que para isso tenha que usar de meios banais, como seduzir a ex-sogra.

Se fosse uma comédia - ou até mesmo um filme de suspense -, "Amor sem fim" poderia ser um filme no mínimo razoável. Mas Franco Zefirelli, sem a menor sutileza, resolveu apresentá-lo como um romance adolescente, quase pueril (apesar da nudez dos atores centrais) e totalmente desprovido de lógica. A separação do casal por imposição dos pais, por exemplo, soa descabida, assim como a relação entre David e Ann (Shirley Knight) - por mais que desde o início dê para perceber o interesse dela pelo rapaz, sua aproximação é nitidamente um artifício para criar uma aura de tensão que nem é trabalhada com eficiência pelo roteiro, que ainda encontra um jeito de acrescentar uma morte ao molho de tragédias da história e encerra sua narrativa de forma anticlimática e morna. Sobra então encantar-se com Brooke Shields (que além disso some de cena por boa parte do segundo ato) e tentar entender porque Hollywood resolveu fazer um remake em 2014 - que não tinha nem Shields e nem a música de Lionel Richie.

Em tempo: tentem encontrar Tom Cruise em uma única e crucial cena. Talvez seja outro motivo para encarar uma sessão.

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