segunda-feira, 12 de junho de 2017

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA (Christiane F.: Wir Kinder vom Banhof Zoo, 1981, Solaris Film, 138min) Direção: Ulrich Edel. Roteiro: Herman Weigel, Ulrich Edel, livro de Kari Hermann, Horst Rieck. Fotografia: Jurgen Jurges, Justus Pankau. Montagem: Jane Seitz. Música: Jurgen Knieper. Figurino: Myrella Bordt. Direção de arte/cenários: Sabine Eichinger, Harald Muchametow/Rainer Schaper, Holger Scholz. Produção: Bernd Eichinger, Hans Weth. Elenco: Natja Brunckhorst, Thomas Haustein, Jens Kuphal, Christiane Reichelt. Estreia: 02/4/81

Publicado em 1979 e imediatamente alçado à categoria de best-seller mundial, o livro "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" chocou os leitores com sua descrição crua e detalhada de uma juventude perdida em meio ao consumo de drogas. Mesmo tendo a Alemanha dos anos 70 como cenário, o livro, escrito em primeira pessoa, fazia sentido em qualquer parte do planeta e, por isso, amedrontou pais e despertou discussões acaloradas - mas quase sempre inúteis. O fato é que, ao jogar luz sobre uma realidade pesada e que muita gente preferiria ignorar, o livro tornou-se fundamental em escancarar um lado feio e amargo da adolescência - e virou leitura quase obrigatória da época. Dois anos após seu lançamento nas livrarias, como era de se esperar, "Christiane F." chegou às telas - e, livre da influência pasteurizadora de Hollywood, chegou às telas da maneira mais fiel possível. Sem medo de soar sujo, desagradável e/ou realista demais, o filme de Ulrich Edel é um retrato doloroso e depressivo, mas bem-sucedido no que mais importa: a fidelidade ao clima decadente e claustrofóbico da obra original.

Virando sua câmera para ambientes desprovidos de glamour - e se utilizando de jovens viciados, prostitutas e afins como extras - o cineasta então estreante (e que depois mudaria o nome para Uli Edel e iria para Hollywood para assinar filmes como "Corpo em delito", estrelado por Madonna em 1992) mergulha sem medo do universo de sua protagonista, e equilibra sua ousadia com uma narrativa convencional e de fácil diálogo com a plateia. Mesmo sem poupar o público de cenas francamente indigestas, o diretor conta sua história sem sobressaltos e sem artifícios, estabelecendo desde suas primeiras cenas uma atmosfera de familiaridade que vai, aos poucos, se transformando em um cenário de desespero e decadência. Para isso, conta com a ajuda de Natja Brunkhorst, sua atriz principal: aos 14 anos durante as filmagens, a jovem intérprete é a personificação exata da personagem central. De aparência cândida e inocente quando vista pela primeira vez, ela vai se transformando diante do espectador - física e moralmente - de acordo com a descida a seu inferno pessoal, tratado no roteiro de forma séria e sem espaço para momentos de humor (mesmo o mais negro). A barra é pesada, e felizmente o filme não cai na tentação de aliviá-la para tornar o processo mais palatável ao público médio: assim como o livro que lhe deu origem, "Christiane F." é um soco no estômago - e um alerta atemporal a pais e educadores.


Quando o filme começa, Christiane é uma pré-adolescente de 13 anos igual a tantas outras: mora com a mãe e a irmã em um apartamento em Berlim, frequenta a escola regularmente e, vez ou outra, mente a idade para poder ser aceita em clubes da moda. Em um desses locais, o Sound, é que sua vida irá tomar rumo completamente oposto ao que seguia até então: acompanhando a melhor amiga, Kessi (Daniela Jaeger), ela conhece um outro mundo, bastante diverso do seu, e, encantada com as inúmeras possibilidades que se abrem diante dela (ainda que muitas delas pouco atraentes), mergulha em uma rotina de festas, shows de rock e, posteriormente consumo desenfreado de drogas. Parte de um grupo de adolescentes igualmente envolvidos com esse comportamento errático - no qual também participa Detlev (Thomas Haustein), por quem ela se apaixona - Christiane não demora a perceber que suas escolhas tem consequências trágicas e dolorosas. Viciada em heroína, ela segue o caminho do namorado e apela à prostituição como forma de manter seu novo estilo de vida.

Com uma trilha sonora recheada de canções de David Bowie - que faz uma participação especial como ele mesmo em uma sequência que dá início à travessia da protagonista rumo à autodestruição - e um visual sujo que traduz com perfeição o clima da história contada, "Christiane F." cumpre com louvor a missão a que se propõe: é uma adaptação fiel, um drama desconcertante sobre uma parcela representativa da juventude e um poderoso recorte de sua época. Ainda hoje bastante controverso e impactante, é um filme fundamental e um dos mais importantes sobre o assunto - que foge do filtro moralizador de Hollywood para buscar um tom de extrema honestidade, valorizado pelo elenco juvenil e absolutamente entregue. Um filme que resiste bravamente ao tempo!

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