quarta-feira

O CONTO

O CONTO (The tale, 2018, HBO Films, 114min) Direção e roteiro: Jennifer Fox. Fotografia: Denis Lenoir, Ivan Starsburg. Montagem: Anne Fabini, Alex Hall, Gary Levy. Música: Ariel Marx. Figurino: Tricia Gray. Direção de arte/cenários: Debbie DeVilla/Kelly D. Mills. Produção executiva: Julie Parker Benello, Dan Cogan, Abigail Disney, Geralyn White Dreyfos, Wendy Ettinger, Ali Jazayeri, Jayme Lemons, Ross Marosso, Ben McConley, Amy Rodrigue, David Van Eman, Jason Van Eman. Produção: Sol Bondy, Jennifer Fox, Lawrence Inglee, Mynette Louie, Oren Moverman, Simone Pero, Reka Posta, Laura Rister, Lynda Weiman. Elenco: Laura Dern, Ellen Burstyn, Frances Conroy, Common, Jason Ritter, Elizabeth Debicki, Laura Allen, John Heard. Estreia: 20/01/18 (Festival de Sundance)

É preciso muita coragem para transformar um trauma em uma obra de arte. Mais do que coragem, é preciso talento para não fazer de sua obra apenas uma sessão de análise maçante e egocêntrica. E mais do que talento, é preciso sensibilidade para fazer de seus fantasmas a matéria-prima de um produto forte, ousado e ao mesmo tempo poético e perturbador. E a documentarista Jennifer Fox demonstra, em seu primeiro longa de ficção, "O conto", ter todas essas qualidades indispensáveis a quem procura conquistar sua plateia sem abrir mão da inteligência. Inspirada em fatos pouco agradáveis da vida da própria diretora e roteirista, a produção da HBO, acabou sendo o filme certo na hora certa: ecoando o movimento #MeToo surgido em Hollywood depois de uma série de denúncias sobre assédio sexual, "O conto" serve como a ilustração perfeita de um momento crucial na indústria do entretenimento - mas nem por isso deixa de ser, acima de tudo, um filme excepcional, tanto em termos políticos quanto artísticos. Não à toa, foi uma das produções mais elogiadas de 2018, especialmente devido à atuação gigantesca de Laura Dern, em um dos melhores momentos de sua vitoriosa carreira.

"O conto" foge de uma narrativa convencional ao optar por fazer de sua protagonista, Jennifer, os olhos e a memória da trama que vai se desenrolando diante dos olhos do público. Da mesma forma que as recordações da personagem vão surgindo - e muitas vezes substituindo outras até então arraigadas em seu subconscientes -, a plateia vai descobrindo, junto com ela, a verdade sobre fatos escondidos sob a névoa de um romantismo manipulado. O roteiro e a direção, impecáveis, equilibram o realismo com o lúdico, intercalando passado, presente e a imaginação com delicadeza ímpar. É uma providência de extrema importância, uma vez que o tema do filme é indigesto e francamente triste - mas retratado com a sofisticação e a sensibilidade de quem sabe o que está falando. A coragem de Jennifer Fox em expor uma experiência tão dolorosa é de suprema importância social, mas seu maior mérito é indubitavelmente artístico: mesmo com origem no universo dos documentários, ela transita com desenvoltura na linguagem de ficção, evitando as armadilhas do melodrama e demonstrando grande senso de ritmo e fluência - além de uma habilidade rara de criar personagens complexos e verossímeis.


Assim como a Jennifer da vida real, a protagonista de "O conto", Jenny, é uma documentarista bem-sucedida. Vive um relacionamento estável com o fotógrafo Martin (Common), dá aulas em uma universidade e está trabalhando em um filme sobre abuso sexual em mulheres de países do terceiro mundo. Sua rotina é quebrada quando sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn) lhe telefona, preocupada: ela acaba de descobrir, entre antigos pertences da filha, um trabalho escolar onde a então adolescente de 13 anos descrevia um relacionamento amoroso com um homem mais velho. Sem dar muita importância às angústias da mãe, Jennifer relê seu conto e começa a relembrar acontecimentos de sua infância, quando, ainda criança (e interpretada por Isabelle Nélisse ), foi envolvida em um jogo de sedução por sua professora de equitação, Sra. G (Elizabeth Debicki) e um instrutor de ginástica que trabalhava a seu lado, Bill Allen (Jason Ritter). Aos poucos suas memórias começam a ficar mais claras e ela percebe que, apesar de realmente ter considerado o fato como uma história de amor, sua inocência foi um fator determinante para uma série de abusos sexuais. Nesse caminho, ela reencontra personagens importantes de seu passado, inclusive outras mulheres que também podem ter sido vítimas da dupla.

Jennifer Fox conduz seu filme como um pesadelo à luz do dia. Sem apelar para clichês visuais, ela penetra no sofrimento de sua protagonista sem forçar o espectador a tirar suas conclusões de forma antecipada. Sua narrativa suave, que contrasta com a dureza das revelações que vão surgindo durante o trajeto de Jenny. Sem demonizar os abusadores ou carregar nas tintas de seus desvios de caráter, ela apresenta inclusive uma certa condescendência em relação a ambos, até o desfecho visceral e adequado como uma catarse. Filmando sempre de forma a manter a elegância e a sensibilidade (mesmo diante de situações desconfortáveis), Fox mostra que não é preciso ser panfletária ou radical para se tratar de assuntos delicados - seu filme é um grito de revolta, sim, mas orientado de forma correta e contundente. Se Jenny julgava ter saído incólume de suas experiências infantis, o filme de Jennifer demonstra que nem sempre as cicatrizes são visíveis ou óbvias - mas são indeléveis e, mesmo soterradas pelo tempo, jamais curam completamente. "O conto" é um filme obrigatório, não apenas pelo tema, mas também porque é dramaturgia de primeira qualidade, antenado com seu tempo e certamente destinado a tornar-se um pequeno clássico. Bravo!

Nenhum comentário:

JEJUM DE AMOR

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday, 1940, Columbia Pictures, 92min) Direção: Howard Hawks. Roteiro: Charles Lederer, peça teatral "The fr...