sábado, 19 de dezembro de 2015

O QUINTO PODER

O QUINTO PODER (The fifth state, 2013, DreamWorks SKG/Reliance Entertainment, 128min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Josh Singer, livros "Inside WikiLeaks: my time with Julian Assange at the world's most dangerous website", de Daniel Domscheit-Berg e "WikiLeaks: inside Julian Assange's war on secrecy", de David Leigh, Luke Harding. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Veronique Melery. Produção executiva: Paul Green, Jonathan King, Jim Shamoon, Richard Sharkey, Jeff Skoll. Produção: Steve Golin, Michael Sugar. Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Bruhl, Alicia Vikander, Laura Linney, David Thewlis, Stanley Tucci, Alexander Beyer, Dan Stevens. Estreia: 05/9/(Festival de Toronto)

A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.

Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.


Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.

"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.

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