sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A LUZ ENTRE OCEANOS

A LUZ ENTRE OCEANOS (The light between oceans, 2016, Heyday Films/LBO Productions/Dreamworks, 133min) Direção: Derek Cianfrance. Roteiro: Derek Cianfrance, romance de M.L. Stedman. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Jim Helton, Ron Patane. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Karen Murphy. Produção executiva: Rosie Alison, Tom Karnowski, Jonathan King, Jeff Skoll. Produção: Jeffrey Clifford, David Heyman. Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz, Florence Clery, Jack Thompson, Thomas Unger, Bryan Brown, Anthony Hayes. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

Que o cineasta Derek Cianfrance sabe como filmar o desespero humano diante da impotência causada pelo destino não é novidade para quem assistiu a seus dois filmes mais conhecidos, o devastador "Namorados para sempre" (2010) - que deu à Michelle Williams uma merecida indicação ao Oscar - e o surpreendente "O lugar onde tudo termina" (2012) - em que repetiu a parceria bem-sucedida com Ryan Gosling. Porém, ele jamais foi tão longe em esmiuçar o sofrimento alheio quanto em "A luz entre oceanos", sua adaptação do romance homônimo de M.L. Stedman, que estreou no Festival de Veneza de 2016 e que, apesar das inúmeras qualidades, passou em branco pelas cerimônias de premiação da temporada. Com o elenco liderado por dois nomes em alta na indústria - o casal também na vida real Michael Fassbender e Alicia Vikander (ela recém laureada com o Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa", de 2015), o filme de Cianfrance é um romance à moda antiga, repleto de reviravoltas melodramáticas e espaço para lágrimas constantes, mas dotado de uma sensibilidade rara que o impede de escorregar no piegas - especialmente graças às interpretações inspiradíssimas de seus atores centrais.

Demonstrando um senso de delicadeza poucas vezes visto em sua carreira de personagens fortes e quase brutais em suas atitudes, Michael Fassbender mostra mais uma vez porque é um dos melhores atores de sua geração, na pele de Tom Sherbourne, um homem tímido e reservado que aceita um emprego temporário para cuidar do farol de uma ilha localizada a quilômetros de distância de uma pequena cidade litorânea da Austrália, no início do século XX. Veterano da I Guerra Mundial, Tom vê na solidão da ilha um alento para sua personalidade introspectiva, mas quando ele conhece a jovem Isabel (Alicia Vikander), filha do homem que lhe ofereceu o emprego, não consegue evitar de sentir-se atraído por ela. Quando o trabalho se transforma de temporário em efetivo, ele a pede em casamento e os dois vão viver seu romance emoldurados pela belíssima costa australiana, tendo contato com o restante da civilização apenas quatro vezes por ano. A romântica história de amor entre os dois, porém, sofre um forte abalo quando Isabel perde o bebê que esperava já no final da gravidez. Algum tempo depois, novamente esperando um filho, ela sofre novo aborto espontâneo e entra em uma severa depressão. Sem saber o que fazer para ajudar a esposa, Tom acaba se deixando envolver pelas circunstâncias quando, pouco depois, encontra um bote à deriva, com um homem morto e um bebê vivo. Convencido pela mulher a assumir a criança como se fosse sua, Tom se permite manter a mentira para poupar Isabel de mais tristezas, mas quando eles retornam à cidade para o batizado, uma surpresa começa a martelar-lhe a consciência: ele encontra Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz), a verdadeira mãe de sua filha.


A partir daí, "A luz entre oceanos" oscila entre um dramalhão romanesco sobre a culpa de Tom e suas tentativas de reparar seu erro, a busca de Hannah - filha de pai influente e com uma cota respeitável de dramas pessoais a resolver - pelo remetente de cartas anônimas falando de sua filha e os problemas de relacionamento entre o rapaz e Isabel, incapaz de lidar sequer com a possibilidade de perder novamente a criança que ama. Cianfrance, também autor do roteiro, mantém as três linhas narrativas sem perder o fio da meada, oferecendo ao público e aos atores personagens críveis e multidimensionais, repletos de qualidades heroicas e defeitos reprováveis. Tom, do alto de sua hombridade, luta para fazer o que é certo mesmo sabendo que isso pode destruir seu casamento e a mulher que ama - e que a honestidade, nesse caso, pode lhe levar à cadeia. Essa complexidade é tirada de letra por Michael Fassbender, um estupendo ator, capaz de injetar humanidade e verdade em cada papel. Alicia Vikander está no tom certo, mesmo que sua personagem pouco faça além de chorar e sofrer como uma heroína de folhetim. E Rachel Weisz, do momento em que entra em cena até suas sequências finais, segura com firmeza uma antagonista também provida de razões, ainda que possa ser vista com antipatia devido às ações que toma para recuperar sua filha. Centrado nesse trio de personagens fortes e em uma história emocionante, o filme consegue evitar a emoção fácil, equilibrando-se com maestria em um tom mais europeu de cinema, enfatizando os dramas com a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat e o ritmo cadenciado como as marés.

Com valores de produção deslumbrantes, como a fotografia arrasadora de Adam Arkapaw e uma reconstituição de época eficiente e cuidadosa, "A luz entre oceanos" é basicamente um filme de personagens e seus dramas. Ciente de tais características - que se encaixam em sua maneira de fazer cinema - Derek Cianfrance as enfatiza de forma a hipnotizar a plateia com interpretações emotivas mas jamais exageradas. Tudo em seu filme é convincente, desde o amor nascente entre Tom e Isabel até seu final melancólico e realista - passando por todas as fases de seu trágico relacionamento - e isso se deve principalmente à química entre seus atores e à segurança que imprime em cada cena. Um diretor que acredita em atores e em sua capacidade de segurar uma história, ele transforma o que poderia ser um melodrama insustentável em uma bela e devastadora trama de amor e culpa. Um dos filmes subestimados da temporada 2016, que merece ser descoberto e louvado por suas inúmeras qualidades.

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