quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MESMO SE NADA DER CERTO

MESMO SE NADA DER CERTO (Begin again, 2013, Exclusive Media Group/Sycamore Pictures, 104min) Direção e roteiro: John Carney. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Andrew Marcus. Música: Gregg Alexander. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Kris Moran. Produção executiva: Guy East, Sam Hoffman, Ben Nearn, Tom Rice, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Molly Smith. Produção: Judd Appatow, Tobin Armsbrust, Anthony Bregman. Elenco: Mark Ruffalo, Keira Knightley, Adam Levine, James Corden, Hailee Steinfeld, Catherine Keener, Cee Lo Green. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Lost stars")

Em 2007, o cineasta John Carney conquistou o mundo com a história de um amor platônico regado à música folk e estrelado por ilustres desconhecidos: "Apenas uma vez" tornou-se cult, ganhou o Oscar de melhor canção e mostrou que nem só de grandes produções hollywoodianas vive o cinema romântico. Seis anos depois, com um orçamento um pouco mais generoso - e um elenco formado por indicados ao Oscar bem conhecidos do grande público - Carney mostrou que seu sucesso não foi apenas sorte de principiante. "Mesmo se nada der certo" é um delicioso drama romântico musical, recheado de belas canções, momentos encantadores, diálogos certeiros e personagens cativantes, capazes de deixar qualquer espectador com um enorme sorriso nos lábios ao final da sessão. E para isso não é preciso nem mesmo um único beijo na boca entre os protagonistas.

A primeira - e fascinante - cena do filme mostra a jovem inglesa Gretta (Keira Knightley) sendo praticamente obrigada a subir ao palco de um bar com música ao vivo de Nova York para mostrar uma canção de sua autoria. Quem se empolga com sua apresentação, apesar da tristeza inerente que vem da música, é Dan (Mark Ruffalo), sócio de uma gravadora independente que imediatamente propõe a ela um contrato de exclusividade. Acontece que as coisas não são exatamente como parecem, como logo ficará claro. Dan acaba de ser demitido da própria empresa, está separado da mulher, Miriam (Catherine Keener), e vive um relacionamento distante com a filha adolescente, Violet (Hailee Steinfeld). Gretta está em vias de embarcar de volta à Inglaterra, de onde saiu ao lado do namorado, Dave (Adam Levine, vocalista da banda pop Maroon 5) apenas para ser tratada como mera assistente durante a gravação de seu álbum - e pior ainda, ser trocada por outra mulher. Ambos se sentindo no pior momento de suas vidas, eles tem a ideia de gravar um disco ao ar livre, pelas ruas de Nova York, como forma de dar a volta por cima. Surge, então, uma amizade profunda, baseada na admiração e empatia.


Os acertos são muitos em "Mesmo se nada der certo": mesmo com o mísero orçamento de cerca de oito milhões de dólares - o que não paga nem a divulgação de certos blockbusters - John Carney conseguiu fazer um filme que em momento algum parece barato ou feito às pressas. A química entre Mark Ruffalo (sempre ótimo em papéis de perdedor) e Keira Knightley (em papel que quase foi parar nas mãos da cantora Adele) é excelente, e a atriz consegue até mesmo disfarçar sua tendência em fazer caras e bocas. Adam Levine sai-se muito bem no papel de Dave, ainda que não pareça que lhe tenha sido um grande desafio viver nas telas um personagem que pode muito bem ter semelhanças com sua rotina real (e a ele cabe a interpretação da bela "Lost stars", indicada ao Oscar de melhor canção). E os coadjuvantes de luxo - Catherine Keener, Hailee Steinfeld e até o colega de Levine na bancada do "The Voice" americano, Cee Lo Green - oferecem um ingrediente a mais em uma receita deliciosa.

É brilhante, por exemplo, a sequência em que Dan e Gretta caminham pelas ruas de Nova York ouvindo música pelo fone de ouvido e compartilhando seu gosto um com o outro - é uma das cenas mais românticas dos últimos anos mesmo que eles mal se toquem durante todo o tempo. E todas as cenas que mostram a gravação do álbum de Gretta pela cidade é de uma delicadeza ímpar, que mostra o extremo bom-gosto do cineasta e sua capacidade de transformar o mais simples metal em ouro puro. Essa alquimia rara é sua maior qualidade como diretor e roteirista - e a paixão que demonstra por seus personagens e pela música transcende a tela até chegar ao público, que, sem escolha, se deixa seduzir alegremente por suas histórias de recomeços e novas chances. Um filme encantador!

Nenhum comentário: