terça-feira, 27 de outubro de 2015

ARGO

ARGO (Argo, 2012, Warner Bros, 120min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio, livro "The master of disguise", de Antonio J. Mendez e artigo "The great escape", de Joshuah Bearman. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Jan Pascale. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Tim Headington, Graham King, David Klawans. Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov. Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Alan Arkin, Bryan Cranston, Victor Garber, Chris Messina, Tate Donovan, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Clea DuVall, Scott McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Bob Gunton. Estreia: 31/8/12 (Festival de Telluride)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Diretor (Ben Affleck)

Desde que chegou pela primeira vez às telas, no Festival de Cinema de Telluride, em agosto de 2012, o terceiro longa-metragem do ator medíocre tornado diretor talentoso Ben Affleck começou as especulações a respeito de suas possíveis indicações ao Oscar. Nada mais justo. Enxuto, sóbrio e contando uma inacreditável história real ainda bastante relevante em uma época de constantes conflitos raciais e políticos, "Argo" conquistou a crítica e merecidos Golden Globes de melhor drama e diretor. Infelizmente a Academia não foi assim tão generosa, deixando o amigo de Matt Damon de fora do páreo e diminuindo as chances da vitória na categoria principal. Mesmo assim, indicado em 7 categorias, "Argo" deu a volta por cima e riu por último, convertendo 3 das mais importantes indicações em estatuetas douradas: melhor filme, roteiro adaptado e montagem - todos eles prêmios justos e bastante merecidos.

Tendo entre seus produtores o ator George Clooney - que tinha planos de dirigir e estrelar o filme desde 2007 - "Argo" encontrou em Ben Affleck um comandante dos melhores. Assumindo também o papel principal que quase ficou com Brad Pitt, ele consegue a proeza de deixar a vaidade de lado para focar-se totalmente na história, ocorrida em 1980 e que se manteve secreta até meados da década seguinte. Sem querer tornar-se maior do que os acontecimentos, ele dá também a oportunidade a seus atores brilharem sem fazer muito esforço - o que inclui o ótimo Bryan Cranston (consagrado pela série de TV "Breaking bad") e o veterano Alan Arkin, indicado ao Oscar de coadjuvante. Dono de um belo roteiro, que não obriga o espectador a ter prévio conhecimento dos fatos que retrata (ao menos em profundidade), explicando-os de forma clara mas nunca exageradamente didática, o filme apresenta a seu público uma história bem contada e discreta em suas ambições, mas que acaba sendo fascinante justamente por isso.


A história começa em 1979, quando um grupo de mais de 50 diplomatas americanos é mantido refém na embaixada dos EUA no Irã por um grupo de revolucionários que exigem o repatriamento de seu xá. No entanto, um grupo de seis colegas consegue escapar e encontra proteção na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber). Alguns meses depois, ao perceber que as coisas não parecem se encaminhar para um final feliz imediato, a CIA pede ajuda a Tony Mendez (interpretado com discrição pelo próprio Affleck), especialista em repatriamentos de emergência. Depois de pensar em várias possibilidades, o agente tem a ideia - a princípio tida como absurda, mas depois aceita com ressalvas por seus superiores - de disfarçar os reféns como uma equipe canadense de filmagens em busca de locações para um filme de ficção científica chamado "Argo". Contando com o apoio do produtor de cinema Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), Mendez cria uma verdadeira operação de guerra que inclui campanha de marketing em jornais temáticos, passaportes falsos e biografias inventadas. Com tudo pronto, ele embarca para Teerã com o objetivo de trazer todos os seis conterrâneos sãos e salvos para casa.

O maior mérito do roteiro de Chris Terrio - baseado em um livro escrito pelo próprio Mendez, que foi um dos apresentadores do Golden Globe de 2013 - é manter o ritmo e o suspense durante todo o tempo de projeção, mesmo contando uma história cujo final hoje em dia é amplamente conhecido. Mesmo que exagere um bocadinho na sequência final, aumentando a tensão de forma a tornar o filme mais palatável como entretenimento hollywoodiano, o script de Terrio acerta em intercalar com maestria os preparativos para a fuga com as dúvidas dos reféns e a constante ameaça dos revolucionários, sem apelar para heroísmos baratos ou vilanias maniqueístas. Ainda que seja claro quem é quem - americanos do bem contra iranianos do mal - não existe, no resultado final, aquele ranço tão ufanista que estraga boa parte do cinema que se propõe político. A ideia de Affleck não é levantar bandeiras e sim contar uma bela história. E isso ele consegue com louvor, fazendo de "Argo" um dos grandes filmes de seu tempo.

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