quinta-feira, 6 de março de 2014

VICKY CRISTINA BARCELONA

VICKY CRISTINA BARCELONA (Vicky Cristina Barcelona, 2008, Weinstein Company, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sol Caramilloni, Sylvia Steinbrecht. Produção executiva: Jaume Rores. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley. Elenco: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz, Patricia Clarkson, Chris Messina. Estreia: 17/5/08 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz)

O mais nova-iorquino dos cineastas americanos, Woody Allen acabou descobrindo, através de financiamento de outros países, que seu talento independe de localização. Na Inglaterra, dirigiu um dos melhores filmes de sua carreira, o impactante "Match Point, ponto final" - além de "Scoop, o grande furo" e "O sonho de Cassandra". E, seguindo suas viagens pelo mundo - que ainda dariam ao público o sensacional "Meia-noite em Paris" - ele chegou à Espanha com o divertido "Vicky Cristina Barcelona", o mais sexy de sua carreira e o terceiro estrelado por Scarlett Johansson. Brincando com a fama de sangue quente do povo latino, o cineasta criou uma trama que mistura artes plásticas, sexo e a busca pela liberdade emoldurada por paisagens deslumbrantes e um elenco afiadíssimo - no qual se destaca Penélope Cruz, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho como Maria Elena, a desequilibrada primeira mulher de Juan Antonio (Javier Bardem em papel escrito especialmente para ele).

Cruz - bela e desenvolta em uma personagem com nítidos ecos de sua parceria com Pedro Almodovar - só aparece depois de quase uma hora de projeção, mas rouba descaradamente a cena, apagando as duas protagonistas, as americanas Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que chegam à Barcelona para passar as férias, às vésperas do casamento da primeira com o certinho e apaixonado Doug (Chris Messina). Inebriadas com a atmosfera sensual da Espanha, elas acabam conhecendo Juan Antonio, um renomado e sedutor artista plástico que imediatamente as convida para um fim-de-semana a seu lado. Enquanto Vicky não tem a menor intenção de envolver-se sexualmente com outro homem, Cristina não nega sua atração pelo pintor e as duas aceitam o convite. As coisas, porém, saem do controle quando a tensão sexual entre os três é apimentada pela chegada de Maria Elena - a ex-mulher de Juan, que, a despeito de sua tranquila aceitação da nova realidade, irrompe em ataques de violência sempre que é contrariada.


Livre das amarras de seus tradicionais roteiros passados em Nova York, Woody Allen apresenta, em "Vicky Cristina Barcelona" uma leveza narrativa das mais inspiradas. O verão espanhol fotografado com maestria por Javier Aguirresarobe (que também já colaborou com Almodovar) nunca pareceu tão excitante quanto diante das aventuras amorosas das personagens típicas do cineasta - um tanto neuróticas, mas cultas, inteligentes e sofisticadas mesmo quando não tem condições financeiras para tal. O problema maior do filme, porém, reside no fato de que os personagens coadjuvantes acabam sendo muito mais interessantes do que as protagonistas. Enquanto Johansson não faz mais do que exibir sua sensualidade tradicional - coisa que faz em todos os seus filmes - e Rebecca Hall tem o ônus de segurar uma personagem bastante chata, Javier Bardem e Penélope Cruz (que se casaram dois anos depois das filmagens) brilham com atuações que fogem bastante de seus papéis anteriores. Até mesmo Patricia Clarkson - uma ótima atriz ainda não devidamente reconhecida - consegue se sobressair às protagonistas, na pele da liberada Judy, anfitriã das jovens visitantes.

Engraçado, sensual e sofisticado na medida certa, "Vicky Cristina Barcelona" é mais uma prova de que Woody Allen não é um diretor/roteirista limitado. Ao sair de sua zona de conforto, ele mostra, mais uma vez, que sua inteligência ainda estão longe de esgotar-se.

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