quinta-feira, 21 de maio de 2015

ADEUS, LÊNIN

ADEUS, LÊNIN (Good bye, Lenin, 2003, X-Creative Pool Film, 100min) Direção: Wolfgang Becker. Roteiro: Bernd Lichtenberg, colaboração de Wolfgang Becker, Achim von Borries, Hendrick Handloegten, Christoph Silber. Fotografia: Martin Kukula. Montagem: Peter R. Adam. Música: Yann Tiersen. Figurino: Aenne Plaumann. Direção de arte/cenários: Lothar Holler/Matthias Klemme. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Daniel Bruhl, Katrin Sab, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas, Alexander Beyer. Estreia: 09/02/03 (Festival de Berlim)

Falar de política em tom de comédia de costumes não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando se tem o objetivo de conquistar um público não exatamente acostumado a sutilezas. Quando o filme em questão é de origem alemã, então, é cruzar os dedos e torcer para que a plateia passe por cima dos preconceitos e descubra que humor nem sempre significa piadas escatológicas ou personagens histéricos. Se "Corra Lola, corra", de Tom Tykwer deixou bem claro em 1999 que a cinematografia germânica moderna tinha espaço de sobra para narrativas mais ágeis e mais populares do que as firulas intelectualoides de gente como Wim Wenders e seus anjos melancólicos, o simpático "Adeus, Lênin", de 2003, explorou um novo viés do cinema do país: a crítica social com contornos familiares. Dirigido por Wolfgang Becker e estrelado por Daniel Bruhl - que se tornaria em poucos anos um dos nomes mais significativos do cinema alemão - o filme é uma deliciosa e inteligente comédia recomendada a todos aqueles que procuram uma alternativa ao cinemão comercial hollywoodiano.

Inspirado livremente em acontecimentos reais dos dois últimos anos de vida de Lênin - que, protegido por Stalin não tinha acesso a nenhuma notícia sobre política graças a jornais pré-editados por ele - o filme de Becker se passa em uma Berlim às vésperas da queda do muro que separava as Alemanhas Oriental e Ocidental. No lado oriental vive uma idealista mãe de família que, abandonada pelo marido, criou sozinha o casal de filhos sem nunca deixar de lado sua dedicação quase fanática ao regime socialista. Durante uma manifestação política, ao ver o filho Alex (Daniel Bruhl) ser preso pela polícia, ela sofre um enfarte e entra em coma, no qual permanece por oito meses. Nesse meio-tempo, o país sofre transformações radicais, e quando ela finalmente acorda, seus filhos recebem dos médicos a instrução de poupá-la de quaisquer aborrecimentos, que podem causar um novo ataque, dessa vez fatal. Sabendo que a notícia de que os dogmas políticos de sua mãe não são mais válidos com a nova configuração do país, Alex tem a ideia de esconder dela toda e qualquer pista sobre a verdade. Começa assim uma odisseia para impedí-la de ter acesso aos telejornais, às ruas da cidade e à qualquer menção de que os hábitos ocidentais invadiram o dia-a-dia dos berlinenses orientais.


Mesmo sendo filme de uma piada só, "Adeus, Lênin" conquista o espectador sem fazer muito esforço, graças à simpatia do elenco e à inteligência com que o roteiro desenvolve sua trama, equilibrando com suavidade o humor sutil e o melodrama. Enquanto protege sua mãe da desilusão de ver seus ideais destruídos junto com o muro de Berlim, Alex vive uma terna história de amor com sua jovem enfermeira e precisa lidar com a revolta da irmã, que apaixonou-se por um alemão do lado ocidental e, apesar de entender as razões do irmão, não vê a hora de voltar a ter uma vida normal, repleta dos prazeres a que passou a ter direito com as reformas ocorridas. Ao mesmo tempo, existe o trauma da separação dos pais, que acompanha Alex desde a infância - e que se resolve sem barracos ou lágrimas excessivas, mostrando a parcimônia dos roteiristas em explorar as emoções da história. Percorrendo as ruas de uma Berlim reunificada - ainda que modificada por efeitos especiais discretos - a câmera de Becker também ajuda o espectador a ter a consciência de como foi a adaptação dos alemães a coisas básicas como a chegada da Coca-cola e a Copa do Mundo de 1990, que reunificou a todos também em termos culturais.

Divertindo sem ofender a inteligência e falando de política sem tomar partido ou fazer qualquer tipo de panfletarismo - ainda que não deixe de ficar claro a simpatia do diretor pela ocidentalização do país - "Adeus, Lênin" é um dos filmes mais interessantes do novo cinema alemão, surgido após a queda do muro de Berlim. Conquistando a plateia logo de cara e envolvendo-a nas aventuras de Alex em cumprir seu objetivo - com inteligência e perspicácia - também cativa por apresentar personagens adoráveis, simples e humanos, de fácil identificação apesar de suas peculiaridades. Um pequeno grande filme!

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