quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

RUSH - NO LIMITE DA EMOÇÃO

RUSH: NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush, 2013, Imagine Entertainment/Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tobin Armbrust, Tim Bevan, Guy East, Todd Hallowell, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Andrew Eaton, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard, Peter Morgan, Brian Oliver. Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Bruhl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Pierfrancesco Favino, David Calder. Estreia: 02/9/13 (Festival de Londres)

O diretor Ron Howard tem uma forte tendência a recriar, em seus filmes, histórias reais de superação e/ou rivalidade. Foi assim em "Apollo 13", "Uma mente brilhante", "A luta pela esperança" e "Frost/Nixon". É assim também em "Rush, no limite da emoção", que ilumina a rivalidade levada às raias da obsessão entre os pilotos de Fórmula 1 James Hunt e Niki Lauda, concentrando sua narrativa na emocionante temporada de 1976, uma das mais sensacionais da história do automobilismo. Contando com um roteiro enxuto e direto de Peter Morgan - autor dos scripts de  "O aviador", "A rainha" e "Frost/Nixon", entre outros menos cotados - o filme de Howard é uma aula de narrativa visual, que consegue conquistar a admiração e a atenção até mesmo daqueles que veem o esporte que consagrou Ayrton Senna com absoluta indiferença.

Apesar de começar sua narrativa quando os protagonistas ainda estão engatinhando na Fórmula 3 - até como forma de estabelecer a idade de sua rivalidade, concentrada basicamente em seus diferentes modos de ver a carreira e lidar com a pressão das montadoras - "Rush" tem o bom senso de não tentar contar toda a história de vida dos dois pilotos, preferindo ater-se à tensão da temporada 1976, quando sua briga atingiu o auge. Contando sua história com imagens poderosas e uma edição impecável, Howard equilibra com perfeição os momentos mais pessoais dos protagonistas - como suas relações matrimoniais - com sequências abismais de corrida, fotografadas como nenhuma outra até hoje, que praticamente leva o espectador para o meio das pistas. O realismo das cenas é um dos maiores méritos do filme, que, além disso, não deixa de lado a construção dramática de seus personagens e dá a seus atores chances extraordinárias de mostrar serviço.


Se Chris Hemsworth consegue deixar pra trás seu personagem mais famoso até então, o super-heroi Thor, em um trabalho bastante eficiente - apesar de seu James Hunt ser extremamente apropriado a seu físico e à persona que ele vem construindo em sua carreira - é Daniel Bruhl quem brilha na pele do rígido e focado Niki Lauda, um homem obcecado com sua profissão a ponto de arriscar a vida para provar seu talento. Injustamente esquecido pelas indicações ao Oscar de coadjuvante - apesar de ser tão protagonista (ou mais) quanto Hemsworth, foi nessa categoria que ele concorreu ao Golden Globe - Bruhl está irreconhecível sob a maquiagem que o transforma no piloto austríaco e não tem medo de retratá-lo como alguém quase desagradável, em especial diante do carisma de Hunt. Sempre que estão juntos em cena, os dois atores fascinam o público, com uma química de causar faíscas, bastante valorizada pelos ótimos diálogos de Morgan, que enfatizam sem didatismo as diferenças cruciais entre os dois - e suas semelhanças óbvias.

A rivalidade entre os dois - que remete, guardadas as devidas proporções, ao multipremiado "Amadeus", de Milos Forman, que falava sobre Mozart e Salieri - é o ponto alto de "Rush". É sua discussão sobre as diferentes formas com que os gênios lidam com seus dons que move o filme, que permanece na memória do espectador como o melhor retrato da Fórmula 1 já mostrado no cinema. Mesmo que o final da história seja conhecido - ou de fácil acesso em tempos de Internet - é impossível tirar os olhos da tela. Graças ao conjunto de qualidades, é um dos melhores filmes da temporada 2013, infelizmente ignorado pela Academia até mesmo nas categorias técnicas - um trabalho irretocável e admirável. Um filme que certamente será valorizado ainda mais com o passar dos anos.

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