quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

GRACE DE MÔNACO

GRACE DE MÔNACO (Grace of Monaco, 2014, Stone Angels/YRF Entertainment, 103min) Direção: Olivier Dahan. Roteiro: Arash Amel. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Olivier Gajan. Música: Christopher Gunning. Figurino: Gigi Lepage. Direção de arte/cenários: Dan Weil. Produção executiva: Claudia Blumhuber, Jeremy Burdek, Florian Dargel, Uta Fredebeil, Irene Gall, Bill Johnson, Nadia Khamlichi, Adrian Politowski, Jonathan Reiman, Jim Seibel, Gilles Waterkeyn, Bruno Wu. Produção: Arash Amel, Uday Chopra, Pierre-Ange Le Pogam. Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi. Estreia: 14/5/14 (Festival de Cannes)

Em 2007, o cineasta Olivier Dahan comoveu o mundo e revelou o talento de Marion Cottilard ao contar a história de um dos maiores ícones da música francesa em "Piaf, um hino ao amor" - que rendeu à bela Cottilard o merecidíssimo Oscar de melhor atriz. Sete anos e dois filmes mais tarde, ele tentou repetir o sucesso, dessa vez mirando sua câmera para outro ídolo popular - e uma das mulheres mais invejadas do mundo: Grace Kelly, musa de Hitchcock, atriz vencedora do Oscar e, sonho dos sonhos, princesa do Condado de Mônaco após seu casamento com o Príncipe Rainier. Acontece que, apesar da história forte (a vida real de Kelly nos cômodos do palácio real não era tão idílica quanto parecia), do talento de Nicole Kidman no papel central e do talento do diretor em sublinhar a emoção de seus personagens sem soar piegas, "Grace de Mônaco" naufragou fragorosamente. Depois de abrir o Festival de Cannes de 2014, o filme de Dahan se viu em uma situação inusitada: os distribuidores americanos (os famigerados irmãos Weinstein, ex-Miramax) não gostaram do resultado final e exigiam uma nova montagem para a estreia nos EUA. O impasse estendeu-se tanto que somente um ano mais tarde o filme finalmente chegou ao mercado ianque - pela televisão, em uma terceira montagem, diferente da mostrada em Cannes e da realizada pelo produtor e roteirista Arash Amel para agradar aos Weinstein. O resultado de tanta briga? O filme foi praticamente ignorado pelo público.

Não merecia tal destino. Ainda que esteja bem longe das qualidades mostradas por Dahan em "Piaf", "Grace de Mônaco" é um filme honesto, sério, inteligente e avesso à tentação de ser apenas um amontoado de fofocas a respeito dos bastidores da realeza. Tampouco é uma cinebiografia convencional, que acompanha a trajetória da protagonista desde seus tempos de atriz consagrada - premiada com o Oscar por "Amar é sofrer" - até sua precoce morte em um acidente automobilístico em 1982. O roteiro de Arash Amel se concentra em um período bastante específico da vida da princesa - mais precisamente os meses de 1962 que a obrigaram a tomar partido de sua vida como mãe e esposa em detrimento de uma volta à Hollywood proposta por Hitchcock - e espertamente faz um interessante paralelo entre as questões diplomáticas a que Kelly era obrigada mesmo sem ter vocação para isso, e a séria crise entre Mônaco e a França, que, sob o comando de Charles De Gaulle, exigia o pagamento de impostos que poderia dar fim ao Condado. Infeliz no casamento com o Príncipe Rainier (Tim Roth, eficiente no papel), ela sente-se incapaz de cumprir as expectativas do marido e do povo, e o convite para estrelar "Marnie, confissões de uma ladra" serve de catalisador para uma crise também em sua relação.


Sentindo que voltar ao cinema poderia ser visto como uma espécie de descaso a seu papel como monarca - impressão enfatizada pelos discursos pouco incentivadores do marido e pelos conselhos de Francis Tucker (Frank Langella), um religioso americano que lhe serve de figura paterna - Kelly resolve recusar o convite de Hitchcock e dedicar-se à arte de ser uma princesa. Temerosa também de perder a guarda dos filhos em caso de divórcio, ela assume o papel mais importante de sua vida, apoiando o marido na época mais delicada de sua vida. Mesmo rejeitando seus ideais políticos e sociais e abdicando de sua personalidade forte - o que lhe aproximava da amiga Maria Callas (Paz Vega) - a bela se torna um exemplo de força e determinação quando resolve interferir na perigosa disputa com o presidente francês e se vê às voltas com traições políticas que envolvem pessoas muito mais próximas do que poderia imaginar. O atentado ao presidente De Gaulle é a deixa que ela precisa, então, para assumir as rédeas da situação.

Deixando claro que seu roteiro é inspirado em fatos reais, mas tratando-os de maneira ficcional, "Grace de Mônaco" se beneficia das enormes possibilidades dramáticas que rodeiam o universo da protagonista, oferecendo à Nicole Kidman a chance de brilhar em vários níveis. Quando interpreta a mulher insatisfeita com sua vida que deseja libertar-se da armadilha inclemente de ser uma pessoa pública, ela convence sem fazer esforço. Quando se transforma na deslumbrante e carismática princesa que ajuda a transformar a história - uma liberdade poética apropriada e escrita com delicadeza - ela transborda fascínio. E quando deixa transparecer através do olhar toda a sua frustração em relação a seus objetivos de caridade atrapalhados por interesses políticos, ela é intensa e verdadeira. Escorrega um pouco quando sua Grace Kelly tenta aprender os traquejos da vida de princesa - um tom leve que destoa do restante da narrativa - mas se recupera com maestria ao desfilar toda a majestade de uma mulher que descobriu na marra o que acontecia depois dos finais felizes dos contos de fada. Kidman é a alma do filme de Dahan. Merecia que o filme tivesse sido lançado decentemente e encontrado seu público.

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