quarta-feira

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (Who's afraid of Virginia Woolf?, 1966, Warner Bros, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Ernest Lehman, peça teatral de Edward Albee. Fotografia: Haskel Wexler. Montagem: Sam O'Steen. Música: Alex North. Figurino: Irene Sharaff. Direção de Arte/Cenários: Richard Sylbert/George James Hopkins. Produção: Ernest Lehman. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal, Sandy Dennis. Estreia: 21/6/66

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Richard Burton), Atriz (Elizabeth Taylor), Ator Coadjuvante (George Segal), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem,Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção em Arte/Cenários em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Fotografia em P&B, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B

Quando se diz que um filme arrebatou 13 indicações ao Oscar a primeira imagem que vem à cabeça é de uma superprodução épica, ao estilo "Lawrence da Arábia" e "...E o vento levou", com centenas de figurantes, efeitos visuais revolucionários e histórias maiores que a vida. Uma prova da falácia desse pensamento é "Quem tem medo de Virginia Woolf?", adaptação da peça teatral de Edward Albee que chegou à cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1966 cheio de moral e repleto de possibilidades de vitória. Intimista e preocupado exclusivamente com a psicologia dos personagens, o filme de estreia de Mike Nichols quebrou paradigmas sociais e até mesmo de classificação etária junto ao público norte-americano: foi ele quem inaugurou o que posteriormente o selo NC-17, que estipula que menores de 17 anos só podem entrar nas salas de exibição acompanhados de um responsável.

Exagero? Talvez hoje em dia, estando o público acostumado com uma dieta de produções onde a vulgaridade é moeda corrente. Em 1966, porém, a história era bem outra. Ainda sofrendo com as restrições temáticas impostas pelo famigerado Código Hayes, o cinema americano raramente tratava de assuntos considerados tabus, como adultério - principalmente quando o tema era tratado de forma tão rude e agressiva quanto no texto de Albee, que usa e abusa de termos chulos e apresenta como protagonistas um casal de meia-idade a anos-luz de distância do que se convencionava no cinemão de então. Interpretados pelo então casal de verdade Elizabeth Taylor e Richard Burton em seu quarto trabalho juntos, Martha e George são assustadoramente reais e o retrato mais chocante de uma relação doentia.


Depois de uma reunião social em um sábado à noite, o casal Martha e George recebe, em sua casa, os jovens Nick (George Segal em papel recusado por Robert Redford) e Honey (Sandy Dennis). Nick é um ambicioso professor de Biologia por quem Martha nutre uma forte atração e aos poucos começa a perceber que seus anfitriões tem uma maneira muito particular de convivência: professor de História na universidade onde o pai de Martha é reitor, George mantém com ela uma relação que alterna momentos de enfado com outros de extrema agressividade verbal. Conforme a noite avança e todos vão ficando mais e mais calibrados de álcool, acusações de todos os lados começam a surgir, acompanhadas de ressentimentos e revelações vexaminosas. Quando o filho adolescente do casal torna-se o assunto, então, a truculência atinge seu mais alto grau.

É preciso paciência com "Quem tem medo de Virginia Woolf?". Centrado quase que unicamente nos diálogos fortes e cadenciados de Edward Albee, o filme de Nichols tem um ritmo próprio, intercalando momentos de alta combustão com cenas mais tranquilas, fotografadas em exuberante preto-e-branco por Haskel Wexler que exploram a melancolia de seus personagens. O texto da peça - seguido à risca pelo cineasta, que creditou Ernest Lehman como roteirista mas não utilizou sua adaptação - é a força motriz do filme, fato que não passou incólume a seus intérpretes, que dão corpo e alma em suas atuações. Enquanto Burton está em seu melhor momento da carreira e George Segal constrói seu Nick com a sutileza apropriada, porém, Sandy Dennis força a caricatura com sua Honey, que frequentemente parece carregar nas tintas - não deixa de ser irônico que Dennis tenha levado o Oscar de coadjuvante, enquanto os intérpretes masculinos tenham ficado apenas com indicações.

Mas, se "Virginia Woolf" tem uma cara, ela é Elizabeth Taylor. Mais gorda que o habitual e desprovida da vaidade que a marcaram como uma das mais belas atrizes de Hollywood, ela calou de vez a boca dos detratores - que debitaram seu Oscar por "Disque Butterfiel 8" a seus problemas de saúde - com uma atuação fabulosa como a amarga e bêbada Martha, que não hesita em trair o marido diante de seus olhos e tem como combustível a virulência e a crueldade verbal. Merecedora vencedora do Oscar de melhor atriz Taylor - que recebeu mais de 1 milhão de dólares por seu trabalho - mostrou que, por trás de todas as polêmicas que cercavam sua vida pessoal, ela era uma atriz de primeira grandeza.

terça-feira

CLEÓPATRA

CLEOPATRA (Cleopatra, 1963, 20th Century Fox, 192min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, Ranald MacDougall, Sidney Buchman, livro "The life and times of Cleopatra", de C.M. Franzero, estórias de Plutarco, Suetônio e Appian. Fotografia: Leon Shamroy. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Alex North. Figurino: Vittorio Nino Novarese, Renié. Direção de arte/cenários: John De Cuir/Paul S. Fox, Ray Moyer, Walter M. Scott. Produção: Walter Wanger. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Hume Cronyn, Cesare Danova, Martin Landau, Roddy McDowall. Estreia: 12/6/63

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais

Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.

Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.


Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.

Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.

segunda-feira

ROCCO E SEUS IRMÃOS

ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco e i suoi fratelli, 1960, Titanus, 177min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Checchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Enrico Medioli, Luchino Visconti. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte: Mario Garbuglia. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Alessandra Panaro, Rocco Vidolazzi, Claudia Cardinale. Estreia: 06/9/60 (Festival de Veneza)

"Roma, cidade aberta", de Roberto Rossellini pode ter sido o marco inicial do neorrealismo italiano, com sua filmagem semidocumental e a preocupação sócio-política. "A doce vida", de Federico Fellini, talvez seja a imagem mais marcante da desilusão pós-guerra da Itália. Mas é "Rocco e seus irmãos", de Luchino Visconti, o mais perfeito equilíbrio entre o melodrama clássico e as questões sociais do cinema italiano dos anos 50/60. Mesmo já estando afastado do movimento liderado por Rossellini - mais por questões estéticas do que por motivos mais nobres - Visconti ainda mantinha dentro de si o desconforto de pertencer a uma família aristocrática diante da imensa desigualdade social de seu país, o que é nítido na maneira com que mescla a intelectualidade sensível e visual de sua obra com questionamentos radicais a respeito do capitalismo - selvagem a ponto de desmembrar uma família de imigrantes do sul da Itália que chegam à Milão repletos das ilusões que o mundo, moinho que é, irá reduzir a pó.

A viúva Rosaria Parondi (vivida pela grega Katina Paxinou) chega à Milão junto com seus quatro filhos caçulas para encontrar o mais velho, Vincenzo (Spiros Focas), que está noivo e com a vida relativamente organizada. O objetivo de Rosaria - fugir da pobreza de sua cidade - logo se mostra muito mais difícil de atingir do que o pensado inicialmente, quando ela percebe as dificuldades de arrumar trabalho em um país ainda sofrendo as consequências da guerra. Enquanto um dos rapazes, Ciro (Max Cartier) logo encontra emprego em uma montadora de automóveis, porém, Simone (Renato Salvatori) ingressa no mundo do boxe e da criminalidade. Envolvido com gente do submundo, ele se apaixona pela prostituta Nadia (Annie Girardot), que posteriormente cai de amores por Rocco (Alain Delon), que tenta vencer na vida honestamente. O triângulo amoroso logo descamba para a tragédia quando Rocco percebe que seu irmão está se degradando cada vez mais - roubando e apelando para a prostituição.


O roteiro de "Rocco e seus irmãos" é dividido em capítulos, dando protagonização a cada um dos irmãos, o que evita a superficialização dos personagens e seus dramas. Dessa forma, Visconti permite a seus atores a entrega total a seus papéis, de maneira a extrair de cada um atuações fortes e marcantes. Enquanto Katina Paxinou desenha com o exagero exato sua mãe Coragem - lutando desesperadamente para manter a união da família - o show acaba sendo mesmo dos protagonistas da trágica e violenta história de amor desenhada sobre o pano de fundo social criado pela trama. Alain Delon, com seu rosto delicado e semblante pacífico, dá a Rocco a figura ideal, de um homem sensível jogado no meio de um furacão e que tenta, com todas as suas forças, impedir a decadência absoluta do irmão. Annie Girardot está na medida certa com sua Nadia, mesclando sensualidade com carinho e agressividade. E Renato Salvatori deslumbra a todos com sua interpretação inesquecível do perdido Simone, alternado entre o homem raivoso que não sabe onde colocar o desejo e o filho pródigo que busca o entendimento familiar de maneira equivocada.

Repleto de cenas fascinantes e dirigidas com o apelo visual que se tornaria marca registrada na filmografia de Visconti, "Rocco e seus irmãos" é uma obra-prima inquestionável, atemporal e tão chocante hoje quanto à época de seu lançamento. Para ver e rever sempre!

sexta-feira

A DOCE VIDA

A DOCE VIDA (La dolce vita, 1960, Riama Film, 174min) Direção: Federico Fellini. Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli. Fotografia: Otello Martelli. Montagem: Leo Catozzo. Música: Nino Rota. Figurino e direção de arte: Piero Gherardi. Produção executiva: Franco Magli. Produção: Giuseppe Amato, Angelo Rizzoli. Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Yvonne Furneaux, Walter Santesso, Alain Cuny. Estreia: 03/02/60

4 indicações ao Oscar: Diretor (Federico Fellini), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme (Festival de Cannes)

Ninguém em sã consciência pode subestimar a importância de Federico Fellini para o cinema mundial e para o italiano em particular. Em uma carreira de cineasta que abarcou quarenta anos de filmes adorados pela crítica, pelo público e pela Academia de Hollywood, que lhe concedeu quatro Oscar de filme estrangeiro, Fellini deixou sua marca inconfundível, a ponto de tornar-se um adjetivo: quando se fala que determinada produção tem um estilo felliniano, todo mundo já sabe que assistirá um filme com extremo cuidado visual e uma linguagem própria, que beira o surreal e o poético.

Apesar de muitas de suas mais famosas obras seguirem o viés onírico de trabalhos como "Oito e meio" e, talvez o mais representativo de seus filmes seja justamente um dos mais calcados na realidade de seu país natal. "A doce vida", com seu olhar amargo e quase cruel sobre a sociedade italiana do final dos anos 50/início dos 60 é, até hoje um dos mais memoráveis retratos da geração fútil e perdida pós-guerra - e , nem é preciso ter doutorado em sociologia para reconhecer, em seus personagens, um reflexo chocante de um mundo que ainda hoje não se curou da ressaca que assolou a todos após o conflito.



Marcelo Rubini, o protagonista - que o produtor Dino de Laurentiss queria que fosse vivido por Paul Newman, antes que pulasse fora do projeto - é um jornalista de celebridades que passa seus dias circulando na alta roda de Roma, acompanhando socialites, artistas e parasitas em geral. Ao mesmo tempo desiludido com sua carreira e atraído pelo luxo e glamour que circunda seus "amigos", ele trata com apatia sua namorada (Yvonne Furneaux) - que tenta chamar sua atenção com constantes tentativas de suicídio - vive distante do pai e tem como amigo mais próximo o fotógrafo Paparazzo (personagem que deu origem ao termo hoje amplamente conhecido). Sedutor, ele não hesita em ir para a cama com qualquer mulher atraente que lhe cruze o caminho ou passar as noites em festas excêntricas. Cansado do vazio de sua existência, ele passa a questionar suas prioridades, mas sente-se incapaz de abandonar um estilo de vida que não mais lhe agrada.

Contado de forma episódica, tendo apenas a presença de Marcelo como elo de ligação entre os personagens, "A doce vida" desenha um caminho repleto de símbolos religiosos, orgias, discursos vazios e um tédio que acompanha o protagonista onde quer que ele vá. Fotografada com precisão cirúrgica por Otello Martelli, a jornada de Marcelo rumo ao entendimento de sua vida - ou ao abandono de seus ideais, forçado pela desilusão - chocou a Igreja católica, que viu na decadência ilustrada por Fellini uma afronta à sua ideologia, o que hoje pode soar um exagero consumado. Talvez, porém, os membros do clero tenham visto no Cristo que sobrevoa a cidade de Roma na primeira cena do filme algo mais do que simplesmente uma bela sequência visual.

Em sua primeira colaboração com Fellini - de quem tornou-se uma espécie de alter-ego em várias produções posteriores - Marcello Mastroianni demonstra compreensão absoluta de seu personagem. Sua expressão de cansaço e tédio prescinde de muitas palavras, entregando ao espectador uma atuação consagradora que o acompanhou até seus últimos dias. É difícil esquecer a cena mais famosa do filme, em que a bela Anita Ekberg se banha na Fontana di Trevi, observada pelo apaixonado Marcelo, em um dos momentos ícônicos do cinema europeu. Mas, antes de mais nada, é a tradução, em imagens, da ideia central de Fellini: a beleza, assim como o prazer, é essencial, mas efêmera e muitas vezes trivial.

quinta-feira

ACOSSADO

ACOSSADO (À bout de souffle, 1960, SNC, 90min) Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Jean-Luc Godard, estória de François Truffaut. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Cécile Decugis. Música: Martial Solal. Produção: Georges de Beauregard. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg. Estreia: 16/3/60

Urso de Prata de Melhor Diretor (Jean-Luc Godard) no Festival de Berlim

Há mais em comum entre "Os incompreendidos", de François Truffaut e "Acossado" - o filme de estreia de Jean-Luc Godard - do que simplesmente serem ambos dirigidos por críticos da renomada revista Cahiers du Cinéma e serem os primeiros estandartes do que viria a ser chamada de Nouvelle Vague francesa. À parte a maneira descompromissada e então moderna de narrar suas histórias, Truffaut e Godard dividem também a proeza de elegerem como protagonistas de seus filmes personagens bem mais próximos à realidade do que aqueles com que Hollywood brindava seus espectadores. Tanto o Antoine Doinel criado por Truffaut quanto o Michel Poiccard inventado por Godard - e incorporado de forma inesquecível por Jean-Paul Belmondo - são, cada um à sua maneira, marginais incapazes de moldar-se a um mundo cujas regras lhes parece obsoleto e careta (mais ou menos o que os próprios cineastas achavam do cinema clássico europeu que tanto criticavam em suas resenhas).

Enquanto Doinel ilustrava sua insatisfação com pequenas mentiras na escola que, de forma crescente acabam por levar-lhe a delitos maiores, Poiccard está mais à sua frente. Vivendo de expedientes, sem moradia fixa e roubando carros por uma Paris filmada de forma seca mas sempre fascinante, ele começa o filme assassinando um policial durante uma fuga, mas, ao contrário do que se poderia esperar, não entra em desespero: procura uma espécie de namorada, a americana Patricia (Jean Seberg, encantadora), que trabalha vendendo o New York Herald Tribune e tenta convencê-la a juntar-se a ele em seu objetivo em sair do país. A jovem, independente e com sonhos de tornar-se jornalista, não compartilha do mesmo entusiasmo do rapaz, o que os acaba levando a um impasse enquanto buscam dinheiro para a deserção.


Levando-se em conta que Godard desprezava o classicismo exagerado das produções francesas de então, não deixa de ser surpreendente que a trama de seu primeiro filme seja tão simples e quase clichê, inspirada nitidamente nos thrillers americanos. O que o separa do corriqueiro, no entanto, não é sua história e sim a maneira anárquica e quase irresponsável como ela é contada. Abdicando quase completamente de luz artificial, usando câmera na mão - o que não era tão comum como é hoje - trabalhando sem um roteiro e apelando para a pós-sincronização do som (o que lhe dá um toque de modernidade ao invés de amador). Sua edição arrojada (que usa e abusa de jump cuts) - e hoje é imitada à exaustão sem que a maior parte da audiência dê a Godard o devido reconhecimento por isso - é outro ponto crucial na tentativa do cineasta de romper com o tradicional, ainda que muito dessa criatividade venha do orçamento irrisório com que realizou seu filme: enquanto frequentemente corta de uma pessoa para ela mesma, Godard também se dá ao luxo de dispender preciosos minutos em uma longa conversa em um quarto de hotel, onde explora a química entre seus dois protagonistas.

Enquanto Jean Seberg exibe sua beleza andrógina, de cabelos bem curtos e sem maquiagem, mas nunca deixando de lado sua fragilidade, Jean-Paul Belmondo exala charme e um cinismo emprestados de Humphrey Bogart - ídolo de seu personagem e uma das inúmeras referências que desfilam pelo filme. Em uma bela sequência, por exemplo, Patricia cita William Faulkner, dizendo "entre a dor e o nada, prefiro a dor", o que acaba sendo uma pista do destino de seus personagens - e a ironia de tudo é o trágico fim da atriz, que suicidou-se em 1979, quando viu sua carreira entrar em declínio.

"Acossado" não é para ser visto com olhos de hoje. É preciso levar-se em consideração sua coragem em quebrar paradigmas visuais e narrativos para melhor compreender sua importância. E tanto ele é muito mais forma que conteúdo que uma refilmagem desnecessária batizada de "A força do amor", estrelada por Richard Gere nos anos 80 foi um fiasco total e absoluto.

quarta-feira

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO (Suddenly, last summer, 1959, Columbia Pictures, 114min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Gore Vidal, Tennessee Williams, peça teatral de Tenneessee Williams. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: William Hornbeck, Thomas G. Stanford. Música: Malcolm Arnold, Buxton Orr. Figurino: Oliver Messel. Direção de arte/cenários: Oliver Messel/Scott Slimon. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Katharine Hepburn. Estreia: 22/12/59

3 indicações ao Oscar: Atriz (Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Elizabeth Taylor)

Segundo a biografia "Tracy and Hepburn", de Garson Kanin, quando seu trabalho em "De repente, no último verão" chegou ao final, Katharine Hepburn aproximou-se do diretor Joseph L. Mankiewicz e do produtor Sam Spiegel e, furiosa, encheu-os de impropérios e acabou seu discurso cuspindo em seu rosto. Apesar do gênio difícil da atriz, não foi apenas um ato de rebeldia sem causa: seu ato final era a resposta ao modo cruel com que os dois homens haviam tratado o ator Montgomery Clift durante as filmagens. Já na fase posterior a seu acidente de carro em 1956 - que quase o matou e o jogou definitivamente na dependência de remédios que afinal apressaria sua morte dez anos depois - Clift só não foi substituído no papel central masculino graças à sua amiga de longa data Elizabeth Taylor, que ameaçou também abandonar o projeto caso ele fosse demitido. Esse clima pouco amistoso entre diretor, produtor e astro refletia-se na maneira pouco gentil com que o ator era tratado - e que resultou no acesso de raiva de Hepburn.

Baseado em uma peça teatral de um ato escrita pelo sempre polêmico Tennessee Williams - que também assinou "Um bonde chamado desejo" - e roteirizado pelo próprio autor e pelo escritor Gore Vidal, "De repente, no último verão" teve sua história amenizada na transição para o cinema, devido às restrições impostas pela censura, que jamais teria deixado que ficassem explícitos nas telas seus principais temas, que incluíam homossexualidade, incesto, estupro e canibalismo. Ainda assim, foi muito por causa das críticas que repeliam todo o peso do filme que ele acabou fazendo sucesso - por isso e pela reunião, pela primeira e única vez, de três grandes nomes do cinema da época. Taylor e Hepburn acabaram sendo indicadas ao Oscar de melhor atriz, e Liz foi premiada com o Golden Globe por seu desempenho como a complexa Catherine Holly - papel que Patricia Neal havia defendido com garra na montagem da peça em Londres.


Apesar de aparecer somente do primeiro terço de projeção, Catherine, a personagem de Taylor, é a peça-chave da trama de Williams, dirigida com pulso firme por Mankiewicz - famoso por sua tirania e pelo Oscar de diretor pelo inesquecível "A malvada", de 1950. Antes que ela surja em cena, o público é apresentado a ela através da história contada por sua tia, a milionária Violet Venable (Katharine Hepburn), que vive isolada em uma mansão excêntrica, solitária desde a morte de seu único filho, Sebastian, descrito por ela como um poeta sensível e delicado. Segundo Violet, a morte do rapaz, acontecida um ano antes devido a um ataque cardíaco em uma praia da Espanha, causou um grande desequilíbrio em sua sobrinha, que, desde então, vem sofrendo de sérios problemas de desequilíbrio mental. Preocupada, Violet quer que John Crukowicz (Montgomery Clift) - famoso por suas experiências no campo da neurocirurgia - faça uma lobotomia na jovem, acenando com uma generosa doação para seu hospital. Quando conhece Catherine, porém, o médico passa a desconfiar que sua doença tem origem nas lembranças ocultas que ela tem da morte do primo e resolve forçá-la a encarar a tragédia - que não aconteceu conforme narrado por Violet.

Ainda que exagere em muitos pontos em sua trama - inspirada em sua própria irmã, que sofreu uma lobotomia - Williams consegue, em "De repente, no último verão", construir uma tensão crescente, que prende a atenção do público até seus momentos finais. Sem pausa para o humor ou instantes mais leves, o roteiro discorre fluentemente sobre assuntos pouco agradáveis ao gosto médio do público, conforme dito anteriormente. Não há espaço para romantismo - ainda que a atração entre o médico e Catherine seja óbvia - ou para soluções fáceis. Mankiewicz filma o hospital psiquiátrico sem dourar a pílula, mostrando com crueza o estado dos pacientes e não hesita em pesar a mão quando necessário. Infelizmente as restrições da censura - que limou a maioria das cenas que esclareciam a real personalidade de Sebastian - não permitiram que o filme fosse mais a fundo, o que certamente daria à obra uma ressonância ainda maior.

Forte, tenso e interpretado por três dos maiores atores da era dourada de Hollywood, "De repente, no último verão" é uma prova de que, apesar do caráter pouco admirável, Joseph L. Mankiewicz era capaz de prestar grandes serviços à sétima arte.

terça-feira

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO (The nun's story, 1959, Warner Bros, 149min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Robert Anderson, livro de Kathryn C. Hulme. Fotografia: Franz Planer. Montagem: Walter Thompson. Música: Franz Waxman. Figurino: Marjorie Best. Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan. Produção: Henry Blanke. Elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Dame Edith Evans, Peggy Ashcroft, Dean Jagger, Mildred Dunnock. Estreia: 18/6/59

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Uma princesa em fuga, uma sofisticada filha de chofer particular, uma bibliotecária transformada em modelo... e uma freira. Para quem tinha dúvidas da capacidade de Audrey Hepburn em transmutar-se em personagens diferentes de si mesma, o filme "Uma cruz à beira do abismo" tratou de apagá-las. A anos-luz de distância de suas criações anteriores - que a tornaram uma das atrizes mais queridas e prestigiadas de sua época - a religiosa belga que vai ao Congo para servir de enfermeira aos doentes tropicais lhe deu uma indicação ao Oscar e acabou tornando-se o filme preferido da eterna bonequinha de luxo. Maior sucesso de bilheteria da Warner em 1959, a adaptação do livro de Kathryn C. Hulme, baseada em uma história real, chegou às telas sob o comando do diretor Fred Zinnemann, que constrói seu filme impecavelmente, equilibrando com perfeição os dois atos da trama e proporcionando ao espectador um espetáculo que vale por dois.

A primeira parte de "Uma cruz à beira do abismo" - um título nacional um tanto estranho para o bem mais coeso "The nun's story" - trata da adaptação da jovem Gabrielle van der Mal à sua nova realidade como noviça, em contraste com sua vida anterior como filha de um proeminente cirurgião. Sentindo-se um tanto aprisionada com as rígidas regras do convento, ela mantém-se firme em seu propósito de viajar ao Congo e colaborar no tratamento das doenças tropicais que são objeto de seu estudo. Depois de algumas decepções com a hierarquia e a estrutura religiosa do convento e um período trabalhando em uma instituição para tratamento de doentes mentais, ela finalmente alcança seu objetivo e, com o nome de Irmã Luke, torna-se a enfermeira assistente do ateu dr. Fortunati (Peter Finch), a quem admira profundamente. Sua vida no Congo - onde presencia um estilo de vida que a faz questionar sua fé constantemente - lhe dá forças para transformar-se em uma presença querida, tanto pelos colegas quanto pelos nativos. No entanto, quando a II Guerra explode, ela retorna à Bélgica e fica diante do dilema de manter-se neutra diante da invasão alemã - principalmente quando a morte bate à sua porta.


Ficando com o papel que Ingrid Bergman recusou por considerar-se velha demais, Audrey Hepburn faz uso de sua imagem serena e delicada para transmitir, sem que seja preciso muitas palavras, todos os conflitos de sua irmã Luke. Ela é a sólida base do filme de Zinnemann, que, através dela, comenta o panorama sócio-político do Congo belga na ocasião da Segunda Guerra sem soar panfletário ou paternalista. Sua direção, coesa e direta, é uma das maiores qualidades do filme, fotografado com maestria por Franz Planer, que explora as belas paisagens naturais do país sem torná-las apenas uma propaganda turística. O encontro das culturas entre a católica Irmã Luke e os nativos do Congo, com suas crenças particulares, é uma subtrama fascinante, tratada com respeito e seriedade, mas nunca com excessiva formalidade. E é impossível deixar de notar o excelente elenco coadjuvante, no qual se incluem as damas Peggy Ashcroft e Edith Evans.

"Uma cruz à beira do abismo" é um filme atípico na carreira de Audrey Hepburn. Deixando de lado o charme fashion e elegante de seus trabalhos mais conhecidos - e isso que "Bonequinha de luxo" ainda não havia sido lançado - a obra de Zinnemann é cinema da mais alta qualidade, dotado de ritmo, relevância social e noção de entretenimento. Imperdível!

segunda-feira

QUERO VIVER!

QUERO VIVER! (I want to live!, 1958, Figaro, 120min) Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, Don M. Mankiewicz, reportagem de Ed Montgomery e cartas de Barbara Graham. Fotografia: Lionel Lindon. Montagem: William Hornbeck. Música: John Mandel. Direção de arte: Victor Gangelin. Produção: Walter Wanger. Elenco: Susan Hayward, Simon Oakland, Virginia Vincent, Wesley Lau, Philip Coolidge. Estreia: 18/11/58

6 indicações ao Oscar: Diretor (Robert Wise), Atriz (Susan Hayward), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Susan Hayward)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Susan Hayward)

Se, em 1995, o ator/diretor/roteirista/produtor realizou sua obra-prima "Os últimos passos de um homem" como um libelo anti-pena capital, um outro filme, lançado quase quatro décadas antes, teve o mesmo objetivo, ainda que (mal) disfarçado como um drama biográfico e realista. Dirigido por Robert Wise - que anos depois entraria para a história ganhando o Oscar pelo musical "Amor, sublime amor" - "Quero viver!" conta a história de Barbara Graham, que, acusada de ser co-autora do assassinato de uma mulher de 62 anos, foi executada na câmera de gás em 1955. Baseado em uma série de artigos escritos pelo jornalista Ed Montgomery com base em registros jurídicos, investigações pessoais, entrevistas e cartas escritas pela própria Barbara - o roteiro faz uma severa crítica ao sistema judiciário, mesmo que hoje em dia se saiba que a inocência da protagonista é bastante duvidosa.

Para encarnar Barbara Graham - uma mulher de comportamento nada exemplar, que vivia metida em contravenções e frequentava inferninhos com a mesma desenvoltura com que entrava e saía da cadeia - a atriz Susan Hayward fez extensas pesquisas a respeito do assunto e ela mesma, apesar de tê-la interpretado como uma trágica vítima de circunstâncias adversas, acredita que ela teve uma real parcela de culpa no homicídio da qual foi acusada. Hayward, em uma atuação consagradora que também lhe valeu o Golden Globe, criou uma Barbara intensa, seja na vida pessoal ou em seu destino infeliz, que em nenhum momento apela para o sentimentalismo ou para a autopiedade. Mesmo em suas cenas mais dramáticas - que envolvem seu filho pequeno - o cuidado da direção em não forçar a barra é visível e louvável, mas é também inegável que o filme cresce muito quando chega a seu cerne: o julgamento.


Demora um pouquinho para que "Quero viver!" realmente comece. Wise primeiro estabelece com calma e cuidado o clima do universo que circunda Barbara, com uma trilha sonora composta por peças de jazz que dão o tom do que virá pela frente. Felizmente o ritmo claudicante da primeira fase logo dá lugar ao drama jurídico que dá ao filme sua importância até os dias de hoje. Quando é acusada do assassinato de uma mulher - juntamente com outros dois amigos - Barbara é imediatamente transformada em notícia de jornal, em especial graças aos esforços do repórter Ed Montgomery (interpretado por Simon Oakland em seu primeiro papel). A princípio um dos principais acusadores de Graham, o jornalista acaba por tornar-se um de seus maiores defensores quando começa a questionar as evidências apresentadas no tribunal e, de certa forma, torna-se os olhos do espectador.

Apelando para o máximo de realismo nas sequências passadas no corredor da morte, Robert Wise entrega ao público um espetáculo sério, que serve como um documento de sua época. Seja qual for a verdade a respeito da inocência de sua protagonista, sua dramatização é essencial e emocionante.

sábado

MORANGOS SILVESTRES

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957, Svensk Filmindustri, 91min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Oscar Rosander. Música: Erik Nordgren. Figurino: Millie Strom. Direção de arte: Gittan Gustaffson. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Victor Sjostrom, Bibi Andersson, Ingrid Thulin,Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow. Estreia: 26/12/57

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Um dia, enquanto estava viajando de carro pelas estradas da Suécia, o cineasta Ingmar Bergman parou na pequena cidade de Uppsala, onde nasceu e, passando em frente à casa de sua avó, ficou imaginando como seria se ele pudesse entrar na propriedade e vê-la exatamente como era na sua infância. Indo mais além, pensou em fazer um filme sobre essa possibilidade de visitar várias fases de uma mesma existência. O que poderia ser apenas uma ideia estéril, para sorte dos cinéfilos do mundo inteiro transformou-se em uma de suas maiores obras-primas, o melancólico "Morangos silvestres".

Lançado após o fundamental "O sétimo selo", "Morangos silvestres" confirmou Bergman como um dos mais importantes cineastas da história da Suécia, ao lançar uma nova luz sobre uma de suas temáticas preferidas: o sentido da vida. O existencialismo sempre presente na obra do diretor encontra na figura de seu protagonista, o velho professor Isak Borg, um ícone absoluto, que representa, em sua trajetória rumo ao maior entendimento possível de todas as consequências de seus atos, toda a busca presente na filmografia do cineasta sueco. Interpretado por Victor Sjostrom - ele mesmo um antigo diretor que teve larga influência na obra de Bergman - Isak Borg prescinde do carisma de um protagonista clichê para aparecer diante da plateia como um ser humano repleto de falhas que vê, diante de seus olhos, todos os caminhos que o levaram a ser o homem que é: frio e distante, como seu nome sugere.


Borg é um professor octogenário que será homenageado em sua cidade natal pela carreira dedicada à profissão. Decidido a fazer a viagem de carro, ele é acompanhado pela nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está em vias de separar-se do marido devido a suas diferenças irreconciliáveis. Durante o caminho, acontecimentos fortuitos o levam a reviver momentos cruciais de sua vida, desde a infância até o fim de seu casamento (que de certa forma reflete também a crise no matrimônio de seu filho). A carona que ele e Marianne dão a um trio de jovens falantes e a um casal em constante agressão revela a Borg facetas de sua própria personalidade que o fazem encarar a dura solidão de sua vida atual.

Iniciando com um pesadelo surreal - fotografado com precisão por Gunnar Fischer - e utilizando-se de artifícios inteligentes de alternância entre presente, passado e alucinações, "Morangos silvestres" proporciona a seu público um espetáculo de sensibilidade, sem apelar para sentimentalismo. A câmera de Bergman não permite, em momento algum, a lágrima fácil ou a emoção barata, preferindo sempre atingir seus objetivos através do cérebro e do visual caprichado. Não é à toa que seu filme inspirou o genial Woody Allen em duas ocasiões distintas: em "Crimes e pecados" (89), quando o personagem de Martin Landau visita sua casa de infância e tem reminiscências sobre o passado e em "Desconstruindo Harry" (97), em que o protagonista também empreende uma viagem de carro a fim de ser homenageado por sua carreira e questiona sua vida. Bergman, com sua personalidade discreta, fez escola.

quinta-feira

A UM PASSO DA ETERNIDADE

A UM PASSO DA ETERNIDADE (From here to eternity, 1953, Columbia Pictures, 118min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Daniel Taradash, romance de James Jones. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: William Lyon. Música: George Duning. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Cary Odell/Frank Tuttle. Produção: Buddy Adler. Elenco: Burt Lancaster, Deborah Kerr, Montgomery Clift, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine, Jack Warden, Philip Ober. Estreia: 05/8/53

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator (Montgomery Clift, Burt Lancaster), Atriz (Deborah Kerr), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em preto-e-branco, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Som
Vencedor de 2 Golden Globes Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra)

Reza a lenda - e todo mundo a conhece - que Frank Sinatra conseguiu o papel do soldado Angelo Maggio em "A um passo da eternidade" graças a suas conexões com a Máfia, fato recriado pelo escritor Mario Puzo em seu romance "O poderoso chefão" (e posteriormente por Francis Ford Coppola na adaptação do livro para o cinema). Passando por um período difícil de sua carreira, Sinatra não só ficou com o papel como teve seu desempenho premiado com um Oscar de coadjuvante e viu sua popularidade retomada, mas a lenda, apesar de bem mais saborosa, é apenas lenda: a verdadeira razão pela escolha do ator para o filme se chamava Ava Gardner, sua então esposa, que, trabalhando em um filme da Columbia, convenceu o chefe do estúdio, Harry Cohn, a dar o emprego a seu marido - afinal de contas, era um ótimo negócio, uma vez que Sinatra aceitaria trabalhar até de graça no filme de Fred Zinnemann.

Recém saído dos sets do western "Matar ou morrer" - que lhe daria uma indicação ao Oscar - o austríaco Zinnemann já tinha experiência com filmes de guerra, sendo "Espíritos indômitos", de 1950 o mais bem-sucedido, quando foi chamado para comandar a adaptação para as telas do polêmico romance de James Jones, que retratava de forma pouco simpática o exército americano, além de tocar em temas-tabu, como o adultério. A princípio relutante - afinal, a época era pouco propícia a provocações políticas graças ao famigerado senador McCarthy - Zinnemann acabou aceitando a tarefa, que acabou lhe rendendo a estatueta da Academia - uma das oito que o filme acabou abocanhando, igualando o recorde de "...E o vento levou". Mais lembrado pela cena em que Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijam apaixonadamente na beira da praia, "A um passo da eternidade", porém, é bem mais que isso, mostrando ao público um interessante panorama de dramas particulares de um grupo de militares americanos às vésperas do ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941.


Se existe um protagonista em "A um passo da eternidade" é o soldado Prewitt, interpretado com a competência habitual por Montgomery Clift. Boxeador que abandonou os ringues depois de uma experiência traumática, Prewitt se recusa a fazer parte do time dos seus colegas, o que acaba suscitando fortes represálias por parte de seus superiores. Sentindo-se isolado, ele faz amizade com Maggio (Frank Sinatra), que, por sua vez, sofre com a implicância de um beligerante sargento (Ernest Borgnine). Seus problemas só encontram anestesia quando ele está ao lado de Alma (Donna Reed, Oscar de atriz coadjuvante), que trabalha no clube noturno frequentado pelos soldados. Enquanto isso, o discreto sargento Milton Warden (Burt Lancaster) sente-se fortemente atraído por Karen (Deborah Kerr), esposa do capitão superior a ele, a ponto de envolver-se em um relacionamento altamente passional com ela. As vidas de todos sofrerão um duro golpe quando os EUA se veem forçados à entrar na guerra, com o ataque japonês à sua base.

Fotografado em preto-e-branco por opção do próprio cineasta - que também recusou qualquer formato de filme que não o tradicional - "A um passo da eternidade" tem em seus personagens e em suas interrelações seu maior mérito. Ainda que o ataque à Pearl Harbor seja o grande clímax do filme, Zinnemann não permite que se torne o ponto principal da obra - mesmo porque a sequência é relativamente rápida e acontece bem no final da projeção. Seu interesse, assim como o era no romance de Jones, é o impacto da guerra nas vidas dos americanos alocados no Havaí, sejam eles militares ou civis. É por isso que, mais do que técnica, a emoção é o principal ingrediente de sua obra-prima: o que fica na memória são os diálogos tristes entre Lancaster e Kerr - cujo trabalho abriu-lhe novas portas em Hollywood, uma vez que demonstrou um sex-appeal até então oculto - e a trágica história da amizade entre Sinatra e Clift (que ajudou o cantor em sua atuação, conquistando um amigo para toda a vida).

É inegável que "A um passo da eternidade" não tem, hoje em dia, a mesma força corajosa que tinha em sua estreia, apesar da "limpeza" feita na trama de James Jones. Mas ainda é um filme poderoso, realizado com imenso talento e um elenco acima de qualquer suspeita, capaz de encantar aos fãs de bom cinema.

quarta-feira

AMAR FOI MINHA RUÍNA


AMAR FOI MINHA RUÍNA (Leave her to heaven, 1945, 20th Century Fox, 110min) Direção: John M. Stahl. Roteiro: Jo Swerling, romance de Ben Ames Williams. Fotografia: Leon Shamroy. Montagem: James B. Clark. Música: Alfred Newman. Figurino: Kay Nelson. Direção de arte/cenários: Maurice Ransford, Lyle Wheeler/Thomas Little. Produção executiva: Darryl F. Zanuck. Produção: William A. Bacher. Elenco: Gene Tierney, Cornel Wilde, Jeanne Crain,Vincent Price, Mary Philips, Darryl Hickman. Estreia: 19/12/45

4 indicações ao Oscar: Atriz (Gene Tierney), Fotografia (Cores), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia em Cores

Calculista e egocêntrica, Ellen Berent é provavelmente uma das maiores psicopatas da história do cinema americano, a despeito de sua linda embalagem. Interpretada pela deslumbrante Gene Tierney - depois de ter sido recusada por Rita Hayworth - a personagem criada pelo escritor Ben Ames Williams chegou às telas de Hollywood sob a direção de John M. Stahl e fotografada em um extravagante Technicolor vencedor do Oscar. Contada em forma de sofisticado melodrama, a história de amor e obsessão entre a jovem Ellen e o escritor Richard Harland (Cornel Wilde) fez grande sucesso de bilheteria - e chegou a inspirar o novelista Gilberto Braga em uma das mais famosas cenas da novela "Vale tudo", de 1988, quando a protagonista Maria de Fátima (Glória Pires) tenta provocar um aborto se jogando às escadarias do Teatro Municipal carioca.

Como era quase praxe nos filmes do gênero nos anos 40, "Amar foi minha ruína" é contado em forma de flashback, quando Richard sai de um período na cadeia, para onde foi condenado por assassinato. Sua história, conforme o público fica sabendo em seguida, começa quando o escritor conhece a bela Ellen em uma viagem de trem. Aos poucos o relacionamento entre eles vai se transformando de amizade em um noivado - a despeito do fato de ela já ser comprometida com outro homem (Vincent Price). Logo que se casa com Ellen, Richard começa a perceber que sua esposa esconde, por trás da aparência dedicada, uma personalidade obsessiva e ciumenta ao extremo, a ponto de querer isolá-lo de toda e qualquer pessoa que possa lhe ser um obstáculo - e isso inclui até seu cunhado, um adolescente com problemas físicos e sua própria irmã. Suas maneiras cada vez mais violentas acabam por levá-los a uma tragédia que envolve toda a família.


Apesar da impressionante fotografia de Leon Shamroy e do rosto perfeito de Tierney, o que mais chama a atenção em "Amar foi minha ruína" é a forma como o roteiro joga com o gênero melodrama, acrescentando a ele toques de psicologia - Ellen é, na verdade, uma mulher ressentida com a falta que sente do pai, a quem vê em seu marido - e suspense. A trilha sonora de Alfred Newman também é um elemento crucial ao panorama criado por Stahl, pontuando cada cena com precisão, nunca tornando-se maior do que o roteiro ou os atores - embora o protagonista Cornel Wilde esteja bem aquém de sua colega de cena, que, exceto por seu trabalho em outro clássico noir, "Laura", de 1944, nunca esteve tão adequada a um papel.

Dona de uma biografia trágica, Gene Tierney morreu em 1991, aos 70 anos, vítima de enfisema pulmonar - uma ironia, já que ela começou a fumar apenas para avolumar a voz, depois de assistir a si mesma na tela. Antes disso, porém, ela já havia passado por poucas e boas: sua filha mais velha nasceu com problemas mentais devido à rubéola que a atriz contraiu durante a gravidez; teve um caso com JFK antes que ele se dedicasse à busca pela presidência dos EUA e foi submetida a um longo tratamento de eletrochoque devido a problemas psicológicos que apontavam para potenciais tentativas de suicídio. Mesmo assim, sua beleza etérea e seu talento - foi indicada ao Oscar por seu trabalho em "Amar foi minha ruína" - são eternos graças ao cinema.

terça-feira

ALMA EM SUPLÍCIO


ALMA EM SUPLÍCIO (Mildred Pierce, 1945, Warner Bros, 111min) Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Ranald MacDougall, romance de James M. Cain. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: David Weisbart. Música: Max Steiner. Figurino: Milo Anderson. Direção de arte/cenários: Anton Grot/George James Hopkins. Produção executiva: Jack L. Warner. Produção: Jerry Wald. Elenco: Joan Crawford, Jack Carson, Zachary Scott, Eve Arden, Ann Blyth, Butterfly McQueen. Estreia: 24/9/45

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Joan Crawford), Atriz Coadjuvante (Eve Arden, Ann Blyth), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Joan Crawford)

Em 1946, a atriz Joan Crawford, indicada ao Oscar por seu desempenho em "Alma em suplício", não compareceu à cerimônia de entrega das estatuetas por estar doente. Portanto, segundo algumas más línguas de Hollywood, a doença da estrela foi apenas um pretexto para a ausência de Crawford que, achando que seria derrotada, pretendia evitar a "humilhação". Seja qual for a verdade, o fato é que o trabalho da atriz como a devotada mãe Mildred Pierce deu um novo gás à sua carreira, estagnada devido a sucessivos fracassos de bilheteria. Criada pelo escritor James M. Cain - autor, entre outros, do livro que deu origem a "Pacto de sangue", de Billy Wilder - a personagem que décadas mais tarde seria revivida por Kate Winslet em uma minissérie de TV foi um prato cheio para o talento da atriz, que, no entanto, não era a primeira escolha para estrelar o filme do húngaro Michael Curtiz.

Curtiz, já premiado com o Oscar de diretor pelo icônico "Casablanca", preferia Barbara Stanwyck para o papel central de "Alma em suplício", mas mudou de ideia ao ver um teste de vídeo feito entre Crawford e a jovem Ann Blyth - que foi ajudada pela veterana atriz e ficou com o papel, que chegou a ser cogitado para Shirley Temple (!!!). Na pele da ambiciosa e fria Veda, Blyth chegou a concorrer ao Oscar de atriz coadjuvante, o que comprova o enorme talento de Curtiz em dirigir seus atores, arrancando deles o máximo enquanto tira partido de todos os elementos que fazem de seus filmes grandes representantes da era de ouro de Hollywood. Transformando a história de Pierce em um pesadelo noir, a fotografia de Ernest Haller encontra eco na trilha sonora poderosa do mestre Max Steiner, acompanhando os altos e baixos da vida da protagonista sem interferir excessivamente na narrativa. E o roteiro - que altera substancialmente o romance de Cain - mistura melodrama com elementos do cinema policial, agradando tanto aos fãs de um gênero quanto do outro.


A trama é conhecida - e serviu até mesmo como ponto de partida para a inesquecível telenovela "Vale tudo", escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988: a esforçada Mildred Pierce (Joan Crawford, esbanjando charme e talento), depois de separada do marido, começa a trabalhar como garçonete, para suprir as necessidades de sua interesseira filha, Veda (Ann Blyth). Aos poucos, seus talentos como confeiteira a levam a arriscar-se como dona de um restaurante, que se transforma em uma rede. Conforme sua carreira vai ficando cada vez mais bem-sucedida, mais ambiciosa sua filha vai ficando, a ponto de sentir vergonha da própria mãe. O envolvimento de ambas com um homem de caráter duvidoso acaba as levando a um trágico final - antes do qual a própria Mildred acaba sofrendo alguns golpes poderosos contra si mesma.

Quanto menos se souber do desenvolvimento de "Alma em suplício", melhor. O filme, que começa com um misterioso assassinato, é contado em flashback para explicar o que levou os personagens a tal ato de desespero - e até lá, Curtiz conduz sua história com sobriedade e classe, bem representados pela figura longilínea e hipnotizante de Joan Crawford, que, a despeito da sensacionalista biografia "Mamãezinha querida" ainda se mantém como uma das mais fascinantes personalidades da Hollywood de outrora.

segunda-feira

OS INCOMPREENDIDOS


OS INCOMPREENDIDOS (Les quatre cents coups, 1959, Les Films du Carrosse, 99min) Direção e roteiro: François Truffaut. Fotografia: Henry Decae. Montagem: Marie-Josèphe Yoyotte. Música: Jean Constantin. Direção de arte: Bernard Evein. Produção: François Truffaut. Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Patrick Auffay. Estreia: 04/5/59 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (François Truffaut) no Festival de Cannes

Em uma tradução livre, o título original de "Os incompreendidos" é uma expressão francesa que significa "levar uma vida agitada, dissipada". E, mais do que o batismo nacional, diz muito mais a respeito da essência do filme de estreia do crítico de cinema François Truffaut, que, vindo dos artigos cheios de ideias que escrevia para a prestigiada Cahiers du Cinéma, tinha como meta revigorar o modo de se fazer filmes, deixando para trás alguns dos ranços do cinemão clássico. Abrindo caminho para outros colegas da revista - como Jean-Luc Godard, que em seguida mostraria ao mundo seu polêmico "Acossado" - Truffaut buscou na sua própria adolescência, tão conturbada quanto a de seu protagonista, Antoine Doinel, a matéria-prima de seu primeiro e já incensado filme, que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes com meros 28 anos de idade.

Doinel, o protagonista de "Os incompreendidos", ainda seria o personagem central de outros três filmes dirigidos por Truffaut, em um caso raro na história do cinema. Aqui, ele ainda é o pré-adolescente que vive na Paris do final dos anos 50, dividindo um apartamento minúsculo com a mãe e o padrasto, que, se não o maltratam também passam longe de serem amorosos. Desmotivado também na escola, ele vive aplicando golpes nos professores para - décadas antes de Ferris Bueller - curtir a vida adoidado longe das amarras do sistema (seja familiar ou docente). Sua rebeldia vai se tornando cada vez maior, até que suas consequências lhe batem à porta de forma apavorante na forma de um reformatório para jovens delinquentes.


Filmado nas ruas de Paris, "Os incompreendidos" tem em sua forma naturalista de narrativa uma de suas maiores qualidades. Mais do preocupar-se em mudar a história do cinema através de artifícios vazios, Truffaut aposta na comunhão do público com seus personagens, que, fugindo do tradicional modelo clássico francês de até então, pareciam mais reais, com suas referências culturais menos empoladas e histórias que poderiam estar acontecendo em qualquer esquina. Para isso, ele conta com a atuação incandescente do jovem Jean-Pierre Léaud, que, aos 13 anos, lembrou o próprio cineasta de seus tempos rebeldes (ainda que o diretor negue que a obra seja autobiográfica) e ganhou o papel que desempenharia ainda em "Beijos proibidos" (1968), "Domicílio conjugal" (1970) e "O amor em fuga" (1979). Seu rosto - especialmente no derradeiro close-up - é a imagem de uma juventude que almeja a liberdade mesmo que não saiba o que fazer com ela. O trabalho de direção de Truffaut - que mais tarde confessou ter se unido ao jovem em uma conspiração secreta contra o resto da equipe e do elenco como forma de aumentar a intensidade de seu trabalho de ator - é exemplar no que se refere à atenção aos detalhes emocionais e visuais. Doinel é rebelde em suas fugas e mentiras, mas o é também ao tentar utilizar um brinquedo de parque de diversões à sua própria maneira.

Filme precursor do que seria chamado de Nouvelle Vague do cinema francês, "Os incompreendidos" é poético, tocante e realista. Não se utiliza de deus ex-machina de nenhuma espécie, preferindo contar sua história com um sabor de vida real. E é aí que vive sua grandeza.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...