segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

ROCCO E SEUS IRMÃOS

ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco e i suoi fratelli, 1960, Titanus, 177min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Checchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Enrico Medioli, Luchino Visconti. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte: Mario Garbuglia. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Alessandra Panaro, Rocco Vidolazzi, Claudia Cardinale. Estreia: 06/9/60 (Festival de Veneza)

"Roma, cidade aberta", de Roberto Rossellini pode ter sido o marco inicial do neorrealismo italiano, com sua filmagem semidocumental e a preocupação sócio-política. "A doce vida", de Federico Fellini, talvez seja a imagem mais marcante da desilusão pós-guerra da Itália. Mas é "Rocco e seus irmãos", de Luchino Visconti, o mais perfeito equilíbrio entre o melodrama clássico e as questões sociais do cinema italiano dos anos 50/60. Mesmo já estando afastado do movimento liderado por Rossellini - mais por questões estéticas do que por motivos mais nobres - Visconti ainda mantinha dentro de si o desconforto de pertencer a uma família aristocrática diante da imensa desigualdade social de seu país, o que é nítido na maneira com que mescla a intelectualidade sensível e visual de sua obra com questionamentos radicais a respeito do capitalismo - selvagem a ponto de desmembrar uma família de imigrantes do sul da Itália que chegam à Milão repletos das ilusões que o mundo, moinho que é, irá reduzir a pó.

A viúva Rosaria Parondi (vivida pela grega Katina Paxinou) chega à Milão junto com seus quatro filhos caçulas para encontrar o mais velho, Vincenzo (Spiros Focas), que está noivo e com a vida relativamente organizada. O objetivo de Rosaria - fugir da pobreza de sua cidade - logo se mostra muito mais difícil de atingir do que o pensado inicialmente, quando ela percebe as dificuldades de arrumar trabalho em um país ainda sofrendo as consequências da guerra. Enquanto um dos rapazes, Ciro (Max Cartier) logo encontra emprego em uma montadora de automóveis, porém, Simone (Renato Salvatori) ingressa no mundo do boxe e da criminalidade. Envolvido com gente do submundo, ele se apaixona pela prostituta Nadia (Annie Girardot), que posteriormente cai de amores por Rocco (Alain Delon), que tenta vencer na vida honestamente. O triângulo amoroso logo descamba para a tragédia quando Rocco percebe que seu irmão está se degradando cada vez mais - roubando e apelando para a prostituição.


O roteiro de "Rocco e seus irmãos" é dividido em capítulos, dando protagonização a cada um dos irmãos, o que evita a superficialização dos personagens e seus dramas. Dessa forma, Visconti permite a seus atores a entrega total a seus papéis, de maneira a extrair de cada um atuações fortes e marcantes. Enquanto Katina Paxinou desenha com o exagero exato sua mãe Coragem - lutando desesperadamente para manter a união da família - o show acaba sendo mesmo dos protagonistas da trágica e violenta história de amor desenhada sobre o pano de fundo social criado pela trama. Alain Delon, com seu rosto delicado e semblante pacífico, dá a Rocco a figura ideal, de um homem sensível jogado no meio de um furacão e que tenta, com todas as suas forças, impedir a decadência absoluta do irmão. Annie Girardot está na medida certa com sua Nadia, mesclando sensualidade com carinho e agressividade. E Renato Salvatori deslumbra a todos com sua interpretação inesquecível do perdido Simone, alternado entre o homem raivoso que não sabe onde colocar o desejo e o filho pródigo que busca o entendimento familiar de maneira equivocada.

Repleto de cenas fascinantes e dirigidas com o apelo visual que se tornaria marca registrada na filmografia de Visconti, "Rocco e seus irmãos" é uma obra-prima inquestionável, atemporal e tão chocante hoje quanto à época de seu lançamento. Para ver e rever sempre!

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