segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

OS INCOMPREENDIDOS


OS INCOMPREENDIDOS (Les quatre cents coups, 1959, Les Films du Carrosse, 99min) Direção e roteiro: François Truffaut. Fotografia: Henry Decae. Montagem: Marie-Josèphe Yoyotte. Música: Jean Constantin. Direção de arte: Bernard Evein. Produção: François Truffaut. Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Patrick Auffay. Estreia: 04/5/59 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (François Truffaut) no Festival de Cannes

Em uma tradução livre, o título original de "Os incompreendidos" é uma expressão francesa que significa "levar uma vida agitada, dissipada". E, mais do que o batismo nacional, diz muito mais a respeito da essência do filme de estreia do crítico de cinema François Truffaut, que, vindo dos artigos cheios de ideias que escrevia para a prestigiada Cahiers du Cinéma, tinha como meta revigorar o modo de se fazer filmes, deixando para trás alguns dos ranços do cinemão clássico. Abrindo caminho para outros colegas da revista - como Jean-Luc Godard, que em seguida mostraria ao mundo seu polêmico "Acossado" - Truffaut buscou na sua própria adolescência, tão conturbada quanto a de seu protagonista, Antoine Doinel, a matéria-prima de seu primeiro e já incensado filme, que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes com meros 28 anos de idade.

Doinel, o protagonista de "Os incompreendidos", ainda seria o personagem central de outros três filmes dirigidos por Truffaut, em um caso raro na história do cinema. Aqui, ele ainda é o pré-adolescente que vive na Paris do final dos anos 50, dividindo um apartamento minúsculo com a mãe e o padrasto, que, se não o maltratam também passam longe de serem amorosos. Desmotivado também na escola, ele vive aplicando golpes nos professores para - décadas antes de Ferris Bueller - curtir a vida adoidado longe das amarras do sistema (seja familiar ou docente). Sua rebeldia vai se tornando cada vez maior, até que suas consequências lhe batem à porta de forma apavorante na forma de um reformatório para jovens delinquentes.


Filmado nas ruas de Paris, "Os incompreendidos" tem em sua forma naturalista de narrativa uma de suas maiores qualidades. Mais do preocupar-se em mudar a história do cinema através de artifícios vazios, Truffaut aposta na comunhão do público com seus personagens, que, fugindo do tradicional modelo clássico francês de até então, pareciam mais reais, com suas referências culturais menos empoladas e histórias que poderiam estar acontecendo em qualquer esquina. Para isso, ele conta com a atuação incandescente do jovem Jean-Pierre Léaud, que, aos 13 anos, lembrou o próprio cineasta de seus tempos rebeldes (ainda que o diretor negue que a obra seja autobiográfica) e ganhou o papel que desempenharia ainda em "Beijos proibidos" (1968), "Domicílio conjugal" (1970) e "O amor em fuga" (1979). Seu rosto - especialmente no derradeiro close-up - é a imagem de uma juventude que almeja a liberdade mesmo que não saiba o que fazer com ela. O trabalho de direção de Truffaut - que mais tarde confessou ter se unido ao jovem em uma conspiração secreta contra o resto da equipe e do elenco como forma de aumentar a intensidade de seu trabalho de ator - é exemplar no que se refere à atenção aos detalhes emocionais e visuais. Doinel é rebelde em suas fugas e mentiras, mas o é também ao tentar utilizar um brinquedo de parque de diversões à sua própria maneira.

Filme precursor do que seria chamado de Nouvelle Vague do cinema francês, "Os incompreendidos" é poético, tocante e realista. Não se utiliza de deus ex-machina de nenhuma espécie, preferindo contar sua história com um sabor de vida real. E é aí que vive sua grandeza.

Um comentário:

Paulo [ALT] disse...

Parabéns ao conseguir fazer o texto interessante àqueles que nunca assistiram isso. Tem um monte de texto por ai que não consegue nunca isso e fica extremamente chato.. (isso sem dizer quando não é só sinopse que conta, né? detesto rs)

adorei a parte:
"Seu rosto - especialmente no derradeiro close-up - é a imagem de uma juventude que almeja a liberdade mesmo que não saiba o que fazer com ela."

mas o que eu amo mesmo?
zukm.t, tt
bjo