sábado, 7 de dezembro de 2013

MORANGOS SILVESTRES

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957, Svensk Filmindustri, 91min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Oscar Rosander. Música: Erik Nordgren. Figurino: Millie Strom. Direção de arte: Gittan Gustaffson. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Victor Sjostrom, Bibi Andersson, Ingrid Thulin,Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow. Estreia: 26/12/57

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Um dia, enquanto estava viajando de carro pelas estradas da Suécia, o cineasta Ingmar Bergman parou na pequena cidade de Uppsala, onde nasceu e, passando em frente à casa de sua avó, ficou imaginando como seria se ele pudesse entrar na propriedade e vê-la exatamente como era na sua infância. Indo mais além, pensou em fazer um filme sobre essa possibilidade de visitar várias fases de uma mesma existência. O que poderia ser apenas uma ideia estéril, para sorte dos cinéfilos do mundo inteiro transformou-se em uma de suas maiores obras-primas, o melancólico "Morangos silvestres".

Lançado após o fundamental "O sétimo selo", "Morangos silvestres" confirmou Bergman como um dos mais importantes cineastas da história da Suécia, ao lançar uma nova luz sobre uma de suas temáticas preferidas: o sentido da vida. O existencialismo sempre presente na obra do diretor encontra na figura de seu protagonista, o velho professor Isak Borg, um ícone absoluto, que representa, em sua trajetória rumo ao maior entendimento possível de todas as consequências de seus atos, toda a busca presente na filmografia do cineasta sueco. Interpretado por Victor Sjostrom - ele mesmo um antigo diretor que teve larga influência na obra de Bergman - Isak Borg prescinde do carisma de um protagonista clichê para aparecer diante da plateia como um ser humano repleto de falhas que vê, diante de seus olhos, todos os caminhos que o levaram a ser o homem que é: frio e distante, como seu nome sugere.


Borg é um professor octogenário que será homenageado em sua cidade natal pela carreira dedicada à profissão. Decidido a fazer a viagem de carro, ele é acompanhado pela nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está em vias de separar-se do marido devido a suas diferenças irreconciliáveis. Durante o caminho, acontecimentos fortuitos o levam a reviver momentos cruciais de sua vida, desde a infância até o fim de seu casamento (que de certa forma reflete também a crise no matrimônio de seu filho). A carona que ele e Marianne dão a um trio de jovens falantes e a um casal em constante agressão revela a Borg facetas de sua própria personalidade que o fazem encarar a dura solidão de sua vida atual.

Iniciando com um pesadelo surreal - fotografado com precisão por Gunnar Fischer - e utilizando-se de artifícios inteligentes de alternância entre presente, passado e alucinações, "Morangos silvestres" proporciona a seu público um espetáculo de sensibilidade, sem apelar para sentimentalismo. A câmera de Bergman não permite, em momento algum, a lágrima fácil ou a emoção barata, preferindo sempre atingir seus objetivos através do cérebro e do visual caprichado. Não é à toa que seu filme inspirou o genial Woody Allen em duas ocasiões distintas: em "Crimes e pecados" (89), quando o personagem de Martin Landau visita sua casa de infância e tem reminiscências sobre o passado e em "Desconstruindo Harry" (97), em que o protagonista também empreende uma viagem de carro a fim de ser homenageado por sua carreira e questiona sua vida. Bergman, com sua personalidade discreta, fez escola.

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