terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ALMA EM SUPLÍCIO


ALMA EM SUPLÍCIO (Mildred Pierce, 1945, Warner Bros, 111min) Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Ranald MacDougall, romance de James M. Cain. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: David Weisbart. Música: Max Steiner. Figurino: Milo Anderson. Direção de arte/cenários: Anton Grot/George James Hopkins. Produção executiva: Jack L. Warner. Produção: Jerry Wald. Elenco: Joan Crawford, Jack Carson, Zachary Scott, Eve Arden, Ann Blyth, Butterfly McQueen. Estreia: 24/9/45

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Joan Crawford), Atriz Coadjuvante (Eve Arden, Ann Blyth), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Joan Crawford)

Em 1946, a atriz Joan Crawford, indicada ao Oscar por seu desempenho em "Alma em suplício", não compareceu à cerimônia de entrega das estatuetas por estar doente. Portanto, segundo algumas más línguas de Hollywood, a doença da estrela foi apenas um pretexto para a ausência de Crawford que, achando que seria derrotada, pretendia evitar a "humilhação". Seja qual for a verdade, o fato é que o trabalho da atriz como a devotada mãe Mildred Pierce deu um novo gás à sua carreira, estagnada devido a sucessivos fracassos de bilheteria. Criada pelo escritor James M. Cain - autor, entre outros, do livro que deu origem a "Pacto de sangue", de Billy Wilder - a personagem que décadas mais tarde seria revivida por Kate Winslet em uma minissérie de TV foi um prato cheio para o talento da atriz, que, no entanto, não era a primeira escolha para estrelar o filme do húngaro Michael Curtiz.

Curtiz, já premiado com o Oscar de diretor pelo icônico "Casablanca", preferia Barbara Stanwyck para o papel central de "Alma em suplício", mas mudou de ideia ao ver um teste de vídeo feito entre Crawford e a jovem Ann Blyth - que foi ajudada pela veterana atriz e ficou com o papel, que chegou a ser cogitado para Shirley Temple (!!!). Na pele da ambiciosa e fria Veda, Blyth chegou a concorrer ao Oscar de atriz coadjuvante, o que comprova o enorme talento de Curtiz em dirigir seus atores, arrancando deles o máximo enquanto tira partido de todos os elementos que fazem de seus filmes grandes representantes da era de ouro de Hollywood. Transformando a história de Pierce em um pesadelo noir, a fotografia de Ernest Haller encontra eco na trilha sonora poderosa do mestre Max Steiner, acompanhando os altos e baixos da vida da protagonista sem interferir excessivamente na narrativa. E o roteiro - que altera substancialmente o romance de Cain - mistura melodrama com elementos do cinema policial, agradando tanto aos fãs de um gênero quanto do outro.


A trama é conhecida - e serviu até mesmo como ponto de partida para a inesquecível telenovela "Vale tudo", escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988: a esforçada Mildred Pierce (Joan Crawford, esbanjando charme e talento), depois de separada do marido, começa a trabalhar como garçonete, para suprir as necessidades de sua interesseira filha, Veda (Ann Blyth). Aos poucos, seus talentos como confeiteira a levam a arriscar-se como dona de um restaurante, que se transforma em uma rede. Conforme sua carreira vai ficando cada vez mais bem-sucedida, mais ambiciosa sua filha vai ficando, a ponto de sentir vergonha da própria mãe. O envolvimento de ambas com um homem de caráter duvidoso acaba as levando a um trágico final - antes do qual a própria Mildred acaba sofrendo alguns golpes poderosos contra si mesma.

Quanto menos se souber do desenvolvimento de "Alma em suplício", melhor. O filme, que começa com um misterioso assassinato, é contado em flashback para explicar o que levou os personagens a tal ato de desespero - e até lá, Curtiz conduz sua história com sobriedade e classe, bem representados pela figura longilínea e hipnotizante de Joan Crawford, que, a despeito da sensacionalista biografia "Mamãezinha querida" ainda se mantém como uma das mais fascinantes personalidades da Hollywood de outrora.

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