quinta-feira, 4 de março de 2010

PACTO SINISTRO



PACTO SINISTRO (Strangers on a train, 1951, Warner Bros, 101min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, Ben Hetch, baseado no romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Robert Burks. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Patricia Hitchcock. Estreia: 03/7/51

Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia em P&B

"Quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme." Essa regra primordial ditada pelo cineasta inglês Alfred Hitchcock encontra em "Pacto sinistro" uma prova irrefutável. Bruno Anthony, o vilão do filme, vivido com gosto por Robert Walker, é um dos mais interessantes antagonistas da vasta obra do cineasta e por causa dele - e da direção inspirada do mestre do suspense, é claro - o filme deixa de ser uma obra banal para tornar-se um grande entretenimento.

Baseado em um romance de Patricia Highsmith (autora também da série de livros com a personagem Tom Ripley, e que ficou possessa com a quantia irrisória paga pelos direitos de filmagem - dizem que apenas U$ 750), o filme começa no vagão de um trem onde o playboy Bruno Anthony conhece o tenista profissional Guy Haines (Farley Granger), de quem é fã incondicional. Sabendo que o jogador anda tendo problemas em conseguir o divórcio de sua primeira mulher (que o traiu e mudou de ideia quanto à separação por puro interesse financeiro), o misterioso Anthony explica a seu novo amigo seu plano para um assassinato perfeito: troca de crimes. Atônito, Guy o escuta sem acreditar, dizer que ele poderia matar sua mulher se ele matasse seu pai, que o mantém sob uma rígida proteção monetária. Tudo não passaria de teoria se Anthony não cometesse o primeiro homicídio e passasse a perseguir o jovem tenista, cobrando que ele cumpra sua parte no plano. Constantemente vigiado pela polícia, Guy tem que se livrar de seu perseguidor, provar sua inocência e não perder o amor da noiva, Ann Morton (a fraca Ruth Roman), filha de um influente senador de Washington.


Apesar da premissa original ser extremamente forte e instigante, "Pacto sinistro" é muito mais do que um jogo de gato e rato. O autor de romances policiais Raymond Chandler foi o primeiro contratado para roteirizar o filme, mas diferenças artísticas com Hitchcock o afastaram do projeto. Seria de imaginar se o resultado ficaria ainda melhor, mas do jeito que está, o filme já é um espetáculo de suspense da maior qualidade. Assim como em grande parte de sua vasta filmografia, Hitchcock usa e abusa de detalhes visuais para reiterar suas ideias. Cada cena, cada fotograma, cada close é importante para sua narrativa. Transitando com propriedade entre a tensão suprema e a ironia sutil, Hitchcock dá uma aula de como manter o espectador grudado na cadeira do início ao fim de sua história. Ideias geniais de enquadramento abundam em "Pacto sinistro" (o primeiro assassinato, por exemplo, é visto pela audiência através das lentes do óculos da vítima, caído no chão) e o diretor se diverte tanto quanto o público, dando vida a cenas que muitos "autores" do cinema atual morreriam para criar.

Exemplos? Quando Guy está em Washington, ele vê, em uma escadaria totalmente branca, o vulto de Bruno Anthony, como uma sombra maligna. Durante uma partida de tênis, Anthony é o único espectador que não mexe a cabeça acompanhando a bola. Antes de assassinar a mulher do tenista, o vilão explode o balão de uma criança com o cigarro e depois do crime cometido, ajuda um cego a atravessar a rua, como um bom cidadão. O mestre não tem medo nem mesmo de arriscar uma perigosa cena de ação no clímax do filme, passado em um carrossel de parque de diversões.

"Pacto sinistro" trata de um dos temas preferidos do diretor: a transferência de culpa. Assim como em toda a sua obra, o clima claustrofóbico permeia toda a narrativa, levando ao público a angústia de Guy, mesmo que ele seja interpretado por um Farley Granger aquém do papel (o diretor preferia William Holden em seu lugar, especialmente por seu porte físico). O subtexto homoerótico passou despercebido quando o filme estreou, mas é bastante claro quando assistido nos dias de hoje. Bruno Anthony é logicamente apaixonado por Guy Haines - e é dominado, ainda que discretamente, pela mãe, assim como Norman Bates de "Psicose". Aliás, é Robert Walker quem se destaca gritantemente do resto do elenco do filme.

O Bruno Anthony de Walker é um dos vilões mais memoráveis da filmografia de Hitchcock. Delicado, quase cínico, bem-educado e discreto, ele foge do estereótipo do bandido óbvio e é tão bem construído que em certos momentos quase se tem a vontade de torcer por ele, pra que ele consiga finalmente se livrar do jugo de seu pai. Infelizmente "Pacto sinistro" foi o penúltimo filme do ator (que foi casado com Jennifer Jones antes dela casar-se com David O. Selznick), que morreu de reação alérgica a um medicamento durante as filmagens de seu projeto seguinte. Em todo caso seu trabalho como o psicótico Bruno Anthony felizmente está registrado em celulóide, para que as devidas homenagens sejam prestadas sempre que necessário.

PS - O ator Danny de Vito fez sua estreia como cineasta dirigindo a comédia de humor negro "Joga a mamãe do trem" em homenagem explícita a "Pacto sinistro". No filme, ele vive um aspirante a escritor que tenta convencer seu professor (Billy Cristal) a matar sua mãe despótica (Anne Ramsey, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e em troca, se oferece para assassinar sua ex-mulher, que roubou os manuscritos de seu livro. Vale a pena conferir!

Um comentário:

Rodrigo Mendes disse...

Meu Hitchcock PREDILETO

e foi no ótimo JOGUE A MAMÃE DO TREM que fui apresentado a este clássico.

Nunca esqueço - DeVito: " As Avessas." , rs!

Abs!