sábado, 27 de março de 2010

O PECADO MORA AO LADO


O PECADO MORA AO LADO (The seven year itch, 1955, 20th Century Fox, 105min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e George Axelrod, baseado na peça de teatro homônima de George Axelrod. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Hugh S. Fowler. Música: Alfred Newman. Produção: Billy Wilder e Charles K. Feldman. Elenco: Tom Ewell, Marilyn Monroe, Evelyn Keyes. Estreia: 01/6/55

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Ewell)

Em uma cena de "Sabrina", lançado em 1954, o protagonista Linus Larrabee, vivido por Humphrey Bogart pede a sua secretária que compre dois ingressos para o teatro, onde irá acompanhado da personagem-título, interpretada por Audrey Hepburn. A peça que ele assiste (ainda que seja apenas mencionada) é "The seven year itch", então um grande êxito de bilheteria nos palcos da Broadway. O que parecia apenas uma menção ocasional a um sucesso do momento era na verdade um marketing esperto e criativo do diretor do filme, Billy Wilder. Seu próximo projeto era justamente a adaptação para o cinema da peça, que, ao estrear, em 1955, forjaria definitivamente a imagem de Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual feminino da história do cinema.

Batizado no Brasil como "O pecado mora ao lado", o filme do austríaco Wilder (que já havia inclusive ganho um Oscar de direção por "Farrapo humano", em 1945) foi definido, na época de seu lançamento, como uma "comédia sexual", apelando principalmente para o apelo erótico de sua estrela, Marilyn Monroe, então com 28 anos de idade e no auge de sua fama. Recém-casada com o esportista Joe DiMaggio (um casamento que durou apenas 9 meses e azedou de vez durante as filmagens), a atriz acabou tornando-se, graças a seu carisma, o centro do filme, mesmo que sua personagem seja secundária.

O real protagonista de "O pecado mora ao lado" (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que no filme o "pecado" não exatamente mora ao lado e sim no andar de cima...) é Richard Sherman, executivo de uma editora de livros de bolso que, assim como centenas de outros homens comuns, fica sozinho no período de verão, quando manda a esposa (Evelyn Keyes) e o filho pequeno para o litoral. Casado há sete anos (período em que, segundo um dos livros que estuda para publicar, acontece a temida "coceira"), ele passa a sentir uma irresistível atração pela jovem que está passando uma temporada no apartamento acima do seu, pertencente a um casal de amigos. Sentindo-se culpado por seus pensamentos pecaminosos, ele deixa sua imaginação atingir altos níveis, enquanto se divide entre a tentação do adultério com sua deliciosa vizinha e a manutenção de seu casamento. Na pele de Tom Ewell (que defendeu o papel nos palcos e por isso teve a chance de ficar com ele também nas telas, ainda que Wilder preferisse o novato Walter Matthau), Sherman é o típico homem comum, o que o aproxima mais facilmente do espectador (conseguindo o efeito desejado pela produção, que rejeitou Gary Cooper para o papel por ele ser bonito demais). Falando diretamente para o público, Sherman o tem como cúmplice (mas, pensando bem, quem não teria, tendo Marilyn Monroe como nada obscuro objeto do desejo?).

Na verdade, a adaptação do texto de George Axelrod (feita por ele mesmo ao lado de Wilder) sofreu com a censura ferrenha do Código Hayes, que freava toda e qualquer manifestação que pudesse macular a moral e os bons costumes. No palco, o adultério de Sherman é consumado e é justamente seu sentimento de culpa pela traição que motivava a maior parte das piadas criadas pelo autor. No momento em que, por imposição do estúdio (a 20th Century Fox para onde o diretor foi após o término de seu contrato com a Paramount), não há traição na história, Wilder e Axelrod tiveram que suar a camisa para que a trama não ficasse vazia a ponto de desaparecer. Levando em consideração tal dificuldade, é impossível não louvar o resultado final, que consegue ser engraçado sem ser vulgar e, de quebra, apresenta a atuação mais "quente" de Monroe. E quente aqui serve para várias interpretações.

A interpretação mais óbvia e fácil é a da temperatura, mesmo: a história se passa em um escaldante verão nova-iorquino, o que justifica algumas passagens clássicas do mito Monroe: sua personagem (sem nome) afirma guardar as calcinhas no congelador, toma banho de banheira, dorme no apartamento do vizinho que tem ar-condicionado e, se não fosse o calor, provavelmente ela não seria protagonista de uma das cenas mais imitadas, citadas, homenageadas e conhecidas de sua trajetória (e de qualquer outra atriz): atire a primeira pedra quem não conhece a famosa imagem de Marilyn tendo sua saia levantada pelo vento que sai do bueiro, causado pela passagem do metrô. Essa cena, filmada na rua (mas que teve que ser refeita em estúdio, uma vez que ficou inutilizada pelo barulho causado pelos felizardos espectadores) foi, provavelmente, a pá de cal no relacionamento da estrela com DiMaggio, que não ficou particularmente feliz em ver sua esposa (que ele sonhava ver como dona-de-casa, dá pra imaginar??) sendo objeto de desejo de todo o planeta. Se o jogador não gostou, problema dele. O mundo adorou e transformou a antiga Norma Jean Baker no mais duradouro mito sexual da história. Tem como julgar o pobre Richard Sherman?

"O pecado mora ao lado" não é, nem de longe, o melhor filme de Billy Wilder (sua próxima colaboração com Marilyn, no sensacional "Quanto mais quente melhor" é mil vezes mais divertido e transgressor). Visto hoje, é de uma inocência quase pueril. Mas só o fato de ter criado a icônica e definitiva imagem de Monroe como símbolo sexual (pro bem e pro mal) já o torna mais que obrigatório.

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