terça-feira, 30 de março de 2010

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.


"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...

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