quinta-feira, 18 de agosto de 2011

AS VIRGENS SUICIDAS

AS VIRGENS SUICIDAS (The virgin suicides, 2000, American Zoetrope, 97min) Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola, romance de Jeffrey Eugenides. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Melissa Kent, James Lyons. Música: Air. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Jasna Stefanovic/Megan Less. Produção executiva: Willi Baer, Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, Julie Constanzo, Dan Halsted, Chris Hanley. Elenco: Kirsten Dunst, Kathleen Turner, James Woods, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A. J. Cook, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Hannah Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain. Estreia: 12/5/00

Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.

Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).


As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.

"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.

"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.

Um comentário:

renatocinema disse...

Esse diálogo do começo do filme é realmente impressionante.........

Vi o filme no cinema e fiquei sem palavras.

Sofia mostrou sua força como diretora e me impressionou muito com essa pequena obra-prima.