segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A FESTA NUNCA TERMINA

A FESTA NUNCA TERMINA (24 hour party people, 2002, Revolution Films, 117min) Direção: Michael Winterbottom. Roteiro: Frank Cottrell Boyce. Fotografia: Robby Muller. Montagem: Trevor Waite. Figurino: Stephen Noble, Steven Noble, Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Lucy Howe. Produção executiva: Henry Normal. Produção: Andrew Eaton. Elenco: Steve Coogan, Paddy Considine, Andy Serkis, Shirley Henderson, Sean Harris. Estreia: 18/5/02 (Festival de Cannes)

É preciso ter muito talento para misturar as linguagens documental e ficcional no mesmo filme sem atrapalhar a compreensão da audiência. Mas talento é o que não falta ao inglês Michael Winterbottom, que tem no currículo o denso "Paixão proibida" (adaptação do romance "Jude, o obscuro", de Thomas Hardy) e o polêmico "Bem-vindo a Sarajevo", lançado em 1997, em plena efervescência da guerra na Bósnia. Em "A festa nunca termina" o cineasta deixa um pouco de lado sua visão negativa de mundo para contar a história de um dos períodos mais férteis da música pop britânica, tendo a figura de Tony Wilson - dono da gravadora Factory, que deu ao mundo nomes como Joy Divison (mais tarde New Order) e Happy Mondays.

O filme escrito por Frank Cottrell Boyce - também autor de "Bem-vindo a Sarajevo" - não segue a tradicional estrutura das cinebiografias nem tampouco pode ser considerado um documentário. O protagonista é vivido com a necessária dose de sarcasmo e desespero pelo ótimo Steve Coogan, que assume a persona de Tony Wilson com propriedade para mostrar o surgimento de um dos movimentos mais importantes para a música dos anos 80 e 90 - para o bem e para o mal. Falando diretamente para a câmera, o Tony Wilson de Coogan não poupa comentários ácidos a respeito de amigos, conhecidos, inimigos e amantes, o que carrega o filme de um humor tipicamente inglês, ainda que um tanto restrito aos interessados no assunto. É pouco provável que um espectador que jamais tenha ouvido a respeito de Sex Pistols e Ian Curtis (se é que existe algum) possa chegar até "A festa nunca termina". Mas é justamente essa espécie de restrição que faz com que o filme de Winterbottom seja tão especial. Ele é quase como uma festa para poucos convidados.


Quando o filme começa o protagonista está encantado com a crueza do som da banda Sex Pistols e seu vocalista Sid Vicious (vivido com garra e paixão por Gary Oldman em "Sid & Nancy, o amor mata"). É o ano de 1976 e Wilson, repórter televisivo de uma emissora de Manchester, vê em Vicious e seus congêneres a possibilidade de um novo estilo de música, onde atitude conta tanto quanto a qualidade sonora. Incentivado pela namorada, Lindsay (Shirley Henderson) e por amigos, ele inaugura um clube noturno chamado Factory, que se torna um dos mais comentados e influentes da cidade. Entusiasmado com as bandas que fazem shows em seu palco, ele cria uma gravadora e dá a primeira chance a um grupo chamado Joy Divison, liderado pelo problemático Ian Curtis (Sean Harris). Tem início, então, a cena musical de Manchester, uma das mais criativas do final do século XX.

A câmera de Winterbottom passeia confortavelmente pela noite de Manchester, ciceroneada por Tony Wilson, uma personagem central muitas vezes perdida, mas inteligentemente perto do público. Falível e cheio de defeitos, Wilson não hesita em trair a namorada, em jogar-se às drogas e em administrar mal seus negócios, mas na pele de Coogan ele ri de si mesmo de maneira sardônica, nunca permitindo que se leve as coisas muito a sério. O tom irônico do filme só dá espaço a um drama real e poderoso quando conta a trágica história de Ian Curtis (também retratada no sensacional "Control", de Anton Corbjin): são nesses momentos que se percebe o carinho do cineasta e do roteirista pelo material que tem em mãos.

Repleto de imagens raras das bandas citadas no roteiro, com uma trilha sonora impecável e um senso de humor delicioso (que cede lugar a um tom nostálgico em seus momentos finais), " A festa nunca termina" é, acima de tudo, o documento de uma era onde a diversão ainda era o que importava e a criatividade musical estava em seus melhores momentos. Pode-se inclusive dizer que este filme de Michael Winterbottom é tudo o que "Studio 54" poderia ter sido e não foi. Para ver e sair pra dançar alucinadamente!

Um comentário:

Hugo disse...

Gosto do cinema de Michael Winterbottom, mas ainda não tive oportunidade de conferir este filme.

Abraço