domingo, 2 de abril de 2017

UM HOMEM ENTRE GIGANTES

UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Concussion, 2015, Sony Pictures, 123min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, artigo "Brain's game" de Jeanne Marie Laskas. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: David Crank/James V. Kent. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, David Crockett, Michael Schaefer, Ben Waisbren. Produção: Elizabeth Cantillon, Giannina Scott, Ridley Scott, Larry Shuman, David Wolthoff. Elenco: Will Smith, Alec Baldwin, Albert Brooks, Gugu Mbatha-Raw, David Morse, Arliss Howard, Mike O'Malley, Eddie Marsan, Paul Reiser, Luke Wilson. Estreia: 10/11/15

"Um homem entre gigantes" é um filme corajoso. Não apenas porque dá a Will Smith a chance de mostrar-se um competente ator dramático - mesmo porque ele já fez isso outras vezes, chegando a concorrer ao Oscar de melhor ator em duas ocasiões, por "Ali" (2001) e "À procura da felicidade" (2006). A maior ousadia do filme - que tem Ridley Scott como um de seus produtores - é bater de frente com uma das maiores potências financeiras dos EUA: o futebol americano. Na verdade, quem primeiro teve esse peito foi o médico legista Bennet Omalu, um nigeriano que, sem a paixão pelo esporte cultivada desde o berço, apresentou uma estarrecedora verdade científica que pôs em risco uma das maiores instituições ianques - assim como sua própria vida e de sua família ainda começando. As conclusões de Omalu foram publicadas na matéria "Brain's game", escrita por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, e ficaram à disposição do público interessado, mas colocar um astro do porte de Smith no papel principal de um filme de um grande estúdio (Sony Pictures) para contar uma história que desmistifica uma paixão tão forte não deixa de ser uma atitude valente, e p resultado não poderia ter sido outro: com um orçamento discreto de 35 milhões de dólares, "Um homem entre gigantes" naufragou nas bilheterias americanas, sem cobrir nem mesmo seu custo de produção - e só não passou totalmente em branco nas cerimônias de premiação mais conhecidas porque conseguiu arrancar uma indicação ao Golden Globe de melhor ator dramático. Como se pode perceber, coragem demais às vezes dá muito errado!

Porém, se fracassou comercialmente e em conquistar o voto dos viciados eleitores da Academia, "Um homem entre gigantes" merecia sorte muito melhor. Não apenas é um empolgante drama médico - com elementos de suspense muito bem dosados pelo roteiro do também diretor Peter Landesman - como também é de suma importância por tratar de um assunto normalmente ignorado pela grande mídia: as sérias e fatais consequências de um estilo de vida considerado glamouroso e excitante, mas que esconde, por trás de seus capacetes, a decadência mental e física. Landesman - que tratou sobre o assassinato de John Kennedy no igualmente pouco visto "JFK: a história não contada" (2013) - sabe equilibrar com destreza tanto o lado médico da trama (sem cair em didatismos aborrecidos) quanto o drama pessoal e profissional de seu protagonista (um imigrante negro que bate de frente com a poderosa liga de futebol americano, a temida e respeitada NFL). Acertando em cheio no tom sério e urgente da narrativa, o cineasta (ainda em seu segundo filme) não cai na armadilha do sensacionalismo e foge com inteligência de questões raciais, apelando para os problemas pessoais de Omalu quando estritamente necessário ao andamento da história. Jornalista investigativo antes de tornar-se cineasta, Landesman mantém a sobriedade de sua primeira vocação, com uma produção satisfatória tanto informativa quanto dramaticamente - mérito também do excelente elenco.


Se Will Smith mais uma vez mostra sua competência como ator sério - embora às vezes fique a centímetros do exagero - os coadjuvantes de "Um homem entre gigantes" também são dignos de nota, a começar por David Morse, quase irreconhecível como Mike Webster, o primeiro ex-jogador cujo cadáver cai nas mãos de Bennet Omalu, dando início a uma investigação estarrecedora: morto aos 50 anos, Webster (um ídolo do futebol americano, adorado pelos torcedores e admirado pela sociedade em geral) demonstra, em sua necropsia, severos danos cerebrais, incompatíveis com sua idade. Mesmo indo contra ordens superiores, o médico resolve fazer exames mais detalhados - e outras duas mortes de jogadores aposentados que apresentavam comportamento errático e mentalmente desequilibrado o levam até a conclusão de que todos sofriam de um mal causado pelas constantes concussões sofridas durante as partidas de futebol. Apoiado por outros médicos, ele conta também com a ajuda de Julian Bailes (Alec Baldwin), que fica a seu lado quando a liga de futebol americano resolve desacreditá-lo - ou, pior ainda, usar de ameaças reais para impedi-lo de revelar a verdade e colocar em risco uma das mais sólidas instituições do país.

Até mesmo quando se distancia um pouco do tema central e inclui uma história de amor no roteiro - Omalu se apaixona e casa com a jovem Prema (Gugu Mbatha-Raw), imigrante a quem ele hospeda a pedido de amigos -, o filme de Landesman não perde o ritmo e o interesse. Ao contrário de ser apenas um alívio romântico, o relacionamento entre o casal serve para definir o tamanho das perdas a que o protagonista se arrisca quando entra como um Davi na luta contra o Golias representado pelo corporativismo das instituições esportivas norte-americanas. Os momentos de suspense surgem quando Prema, grávida,  passa a ser o principal alvo dos inimigos do marido, cada vez mais ávido em provar não apenas que está certo (e que se não houver mudanças outras mortes irão ocorrer) mas também em mostrar que sua formação na África não faz dele um médico com menos qualidades e competência do que seus colegas americanos. Essa forma sutil de tocar ainda no preconceito é outro pequeno grande trunfo de "Um homem entre gigantes", um filme que merece ser valorizado por suas qualidades dramáticas, por sua temática relevante e pela coragem de expor ao grande público uma verdade que - apesar de tudo - parece não ter mudado muita coisa na mentalidade dos magnatas do esporte. Um belo filme e mais uma bela atuação de Will Smith!

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