segunda-feira, 19 de junho de 2017

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.

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