sexta-feira, 23 de abril de 2010

SE MEU APARTAMENTO FALASSE


SE MEU APARTAMENTO FALASSE (The apartment, 1960, United Artists, 125min) Direçãoe produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Daniel Mandell. Música: Adolph Deutsch. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen. Estreia: 15/6/60

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Kruschen), História e Roteiro Original, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de arte em P&B, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), História e Roteiro Original, Montagem e Direção de Arte em P&B
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Shirley MacLaine)


Em 1994, o espanhol Fernando Trueba levou o Oscar de filme estrangeiro por "Sedução" e declarou, frente a milhões de espectadores: "Se eu acreditasse em Deus, agradeceria a Deus. Mas, como não acredito, agradeço a Billy Wilder." Prova maior da influência do cineasta austríaco radicado em Hollywood sobre as gerações seguintes de diretores - DO MUNDO - não existe. Afinal, somente um completo desnorteado seria capaz de não reconhecer a importância e o talento do criador de "O pecado mora ao lado". Mas foi somente em 1960 que ele levou seu único Oscar de melhor diretor - e feliz dele, porque Alfred Hitchcock e Charles Chaplin, por exemplo, nunca tiveram a mesma sorte. Sua estatueta veio depois dos prêmios da Associação de Críticos de Nova York e do Directors Guild of America, o sindicato de diretores de Hollywood e, por incrível que pareça, o Oscar lhe sorriu graças a uma comédia romântica, "Se meu apartamento falasse". Como? Uma comédia romântica? Dirigida pelo homem que deu ao mundo petardos pessimistas e cínicos como "Crepúsculo dos deuses" e "Testemunha da acusação"? Sim, meus caros, uma comédia romântica. Mas antes que comecem a pensar que o bom e velho Wilder estava amolecendo, é bom saber que "Se meu apartamento falasse" tem muito da acidez e do sarcasmo do diretor. É uma comédia romântica, sim, mas antes de mais nada, é mais uma de suas obras-primas.

Tudo bem que "Sabrina", que Wilder lançou em 1954, é uma comédia romântica, mas a presença luminosa de Audrey Hepburn chamou muito mais a atenção do que qualquer outro elemento dramático ou estilístico que o filme pudesse ter, e não tinha a cara de seu diretor. "Se meu apartamento falasse", ao contrário, é Billy Wilder do início ao fim, o que o torna mais delicioso de assistir a cada nova revisão. É um filme romântico sem o sentimentalismo piegas que normalmente abunda no gênero e um comédia inteligente sem o apelo escatológico de piadas forçadas e visuais que desgastam o humor no cinema. Em outras palavras, um filme que qualquer diretor que preze sua carreira adoraria ter dirigido.


O protagonista do filme é C.C.Baxter (outro desempenho extraordinário de Jack Lemmon),um executivo de segundo escalão em uma firma de seguro social de Nova York. Ambicioso e solitário, ele empresta a chave de seu apartamento para que seus superiores tenham noites ao lado das amantes, sempre com o objetivo de subir na empresa. As coisas realmente começam a andar quando seu chefe máximo, Sheldrake (Fred McMurray) finalmente o promove, mas exigindo a exclusividade do apartamento do funcionário. Ele aceita a proposta, mas passa a questionar suas prioridades quando descobre que a amante de seu chefe é a mulher por quem é apaixonado, a ascensorista Fran Kubelik (uma jovem e delicada Shirley MacLaine).

Se não bastasse o ritmo excepcional do roteiro de Wilder e I.A.L. Diamond (trabalhando juntos novamente depois de "Quanto mais quente melhor"), que funciona como um relógio tanto nos momentos cômicos quanto nos dramáticos, "Se meu apartamento falasse" conta com um elenco de sonhos. Jack Lemmon brilha, sem fazer muito esforço, na pele de Baxter, um homem comum, com sonhos e esperanças corriqueiros, que vê no amor a chance de se redimir de uma existência vazia e sem muito sentido. E Shirley MacLaine, na flor de seus 26 aninhos, encanta com seu rosto angelical que anseia por um amor correspondido, em uma atuação apaixonante e sedutora. A química entre os dois protagonistas quase ofusca o elenco de coadjuvantes irresistíveis escalado pelo diretor (que além de todos os outros talentos, ainda tinha uma visão impecável de seu elenco de apoio).

"Se meu apartamento falasse" não consegue esconder seu toque de cinismo - os protagonistas, por exemplo, não são modelos a ser seguidos e alguns diálogos são pérolas de incorreção política muito bem disfarçadas - mas no fundo não deixa de ser uma história de amor que apresenta todos os ingredientes comuns ao gênero. No entanto, ao contrário de muitos outros produtos, aqui a receita funciona à perfeição, oferecendo à platéia um saboroso gosto de final feliz verossímil.

E pra acabar a anedota que abriu o post, no dia seguinte à entrega do Oscar de 1994, Fernando Trueba atendeu o telefone e ouviu, do outro lado da linha: "Senhor Trueba? Aqui fala Deus." Era Wilder.

Um comentário:

Visão disse...

Vou assistir e depois volto para comentar.
Abrass