sexta-feira, 16 de abril de 2010

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR


QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Some like it hot, 1959, MGM Pictures, 120min). Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur P. Schmidt. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Produção: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Tony Curtis, Marilyn Monroe, George Raft, Pat O'Brien, Joe E. Brown Estreia: 29/3/59

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte
Oscar de Melhor Figurino

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Marilyn Monroe)

Em mais uma de suas espirituosas declarações, o cineasta Billy Wilder disse o seguinte: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um tostão para vê-la." Não é preciso ser adivinho para entender os motivos que levaram o genial cineasta a soltar essa pérola: ele tinha dirigido Marilyn Monroe duas vezes e sabia com toda a certeza do mundo que, por mais torturante que fosse comandar a estrela, seu nome estampado no cartaz de um filme era garantia de bilheteria. E na segunda ocasião ele estava, outra vez, certo. Fazer com que Monroe acertasse suas cenas era um inferno (em uma ocasião ela errou uma única frase 59 vezes!!!), mas quem, em sã consciência pode julgar Wilder, quando o resultado de tão estafante missão é algo como "Quanto mais quente melhor"?

Considerada unanimemente como uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos (o American Film Institute foi ainda mais longe, categorizando-a como a melhor comédia da história), "Quanto mais quente" foi também um dos poucos filmes americanos a figurar na lista negra da Legião de Decência do Catolicismo Romano (sim, isso existe), condenado, provavelmente, por utilizar, para atingir seus objetivos humorísticos, dois homens travestidos. E quem acha que isso é coisa do Papa está enganado: o Kansas também proibiu o filme de estrear, porque "travestismo é muito perturbador para seus conterrâneos". Só o que pode se pensar quanto a isso é: coitado dos cidadãos do Kansas, que foram privados de dar muitas e saudáveis risadas.

"Quanto mais quente melhor" se passa em 1929, em plena vigência da Lei Seca, onde gângsters circulavam livremente pelas ruas de Chicago e chacinas aconteciam a cada esquina. Uma dessas chacinas é testemunhada por dois músicos falidos, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), que ameaçados de morte pelo mafioso Spats Colombo (George Raft), só encontram uma saída: candidatar-se aos cargos de integrantes de uma banda feminina que está de passagem marcada para a Flórida. O fato de ser uma banda só para mulheres é um detalhe que logo eles tiram de letra: com os nomes de Josephine e Daphne eles embarcam rumo à liberdade ao lado de inúmeras beldades. O que eles não poderiam imaginar é que, durante a viagem eles conheceriam a bela Sugar Cane (Marilyn Monroe) e que o milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown) cairia de amores pela versão feminina de Jerry.


Roteiristas de comédias deveriam ter o script de "Quanto mais quente melhor" como sua Bíblia. É impressionante o número de boas piadas espalhadas pelo script, equilibradas magistralmente entre gags visuais e diálogos engraçadíssimos, que nunca apelam para o vulgar ou grosseiro - o que seria tentador, levando-se em conta a premissa da trama. Tudo é construído cuidadosamente, sem pressa, com um ritmo que nunca é demais nem de menos. Todas as tramas - a perseguição feita pelo mafioso, a farsa que une o milionário criado por Joe para conquistar Sugar e o "romance" entre Daphne e Osgood - tem seus momentos de brilho e importância e acabam fazendo parte de um conjunto irresistível de cenas hilariantes e de uma inteligência rara no gênero. Tudo está no lugar em "Quanto mais quente melhor", cada cena pode ser examinada solitariamente milhares de vezes e sempre será genial, graças especialmente à direção impecável de Billy Wilder e ao elenco escolhido por ele, em que ninguém - NINGUÉM - soa artificial ou fora do espírito da coisa. Das mulheres que fazem parte da banda aos mafiosos, nada está faltando ou sobrando no filme - e alguns coadjuvantes são excepcionais, como o carregador do hotel, apaixonado por Josephine e Joan Shawlee como Sweet Sue (e isso para não citar a incrível participação de Joe E. Brown, que rouba todas as cenas em que aparece como Osgood III).

Mas se o elenco secundário segura o rojão com segurança e desenvoltura, são os atores principais que fazem com que tudo que dá certo no filme pareça ainda mais perfeito. Se Marilyn Monroe enfeita a tela com sua sensualidade e carisma sempre que entra em cena e Tony Curtis demonstra um até então insuspeito talento pra comédia, não há como negar que é Jack Lemmon quem comanda o show. Na pele de Daphne, Lemmon (que ficou com o papel recusado por Jerry Lewis e que Wilder quis oferecer a Frank Sinatra) apresenta um timing irretocável para o humor, sempre utilizando o tom exato para cada frase, a entonação perfeita para cada palavra e uma expressividade corporal e facial que dispensa qualquer exagero (alguns atores ditos de comédia bem que poderiam assistir ao filme com mais frequência para aprender alguma coisa). Indicado ao Oscar por seu trabalho, Lemmon perdeu a estatueta para Charlton Heston, de "Ben-hur", o que já demonstrava desde então o preconceito da Academia para com filmes menos sérios (Billy Wilder também concorreu como diretor, mas não houve a merecidíssima indicação a Melhor Filme).

É um desafio assistir "Quanto mais quente melhor" sem rir - logicamente pessoas com bom gosto cinematográfico que preferem piadas inteligentes à humor pastelão-escatológico. E Wilder tinha razão quando dizia que Marilyn Monroe valia qualquer sacrifício: é impossível imaginar uma outra atriz que conseguisse unir com tanta facilidade sensualidade com inocência. Mesmo em preto e branco (a atriz concordou com a exceção à sua regra contratual de fazer apenas filmes coloridos porque o diretor convenceu-a de que a maquiagem de Lemmon e Curtis ficaria grotesca em cores) sua beleza eterna permanece intocada e, se é de "O pecado mora ao lado" sua cena mais conhecida, é este seu melhor trabalho e o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical apenas reitera essa afirmação.

Um comentário:

Einstein² disse...

Gentee, fiquei doido para assistir o filme depois de uma resenha dessas! Nossa! Gostei muito! De tudo aliás! Seguindo-te!