segunda-feira, 12 de abril de 2010

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO


TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness for the prosecution, 1957, United Artists, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Harry Kurnitz, baseado na peça teatral de Agatha Christie. Fotografia: Russell Harlan. Montagem: Daniel Mandell. Música: Matty Malneck. Figurino: Edith Head, Joseph King. Produção: Arthur Hornblow Jr. Elenco: Charles Laughton, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Elsa Lanchester, John Willams. Estreia: Dezembro/57

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester)

Considerada a Rainha do Crime da literatura policial, a inglesa Agatha Christie teve pouca sorte com as adaptações de seus romances para o cinema. Nem mesmo "Assassinato no Orient Express", com um elenco estelar e um Oscar de atriz coadjuvante para Ingrid Bergman chegou perto do brilhantismo. Felizmente exceções existem para cada regra e a exceção aqui tem a assinatura de Billy Wilder, o cineasta austríaco acostumado a legar obras-primas ao mundo. Dirigido e co-escrito por Wilder (ao lado de Harry Kurnitz), "Testemunha da acusação", baseado na peça teatral homônima de Christie é, sem espaço para qualquer tipo de dúvida, a melhor transposição de uma obra da escritora para o cinema. Para quem não acredita, basta apenas assistir a uma única vez para nunca mais esquecer.

Ao contrário da peça original, que já começa no julgamento do protagonista, o roteiro de Wilder e Kurnitz aumenta a importância do advogado Wilfrid Robbarts, vivido com uma verve irresistível pelo britânico Charles Laughton (indicado ao Oscar por sua atuação). Recém-saído do hospital devido a um ataque do coração, ele é procurado pelo jovem Leonard Vole (Tyrone Power em seu último filme completo antes de sua morte por enfarte) para que o defenda em um caso de homicídio. Vole é acusado de assassinar uma senhora de idade com quem vinha se encontrando (e que, segundo as más línguas, incentivando seu interesse romântico) e, conhecendo a fama de Robbarts pede sua ajuda para ser absolvido. O veterano advogado aceita a causa, mas tem uma grande surpresa quando, durante o julgamento, fica sabendo que a principal testemunha da acusação é justamente a pessoa que eles menos poderiam esperar: Christine Helm (Marlene Dietrich), a esposa de Vole, disposta a destruir as chances de absolvição de seu marido.

Contar muito sobre o desenrolar da trama de "Testemunha da acusação" é um crime inafiançável. As reviravoltas são absolutamente surpreendentes (na primeira vez em que assiste ao filme, logicamente) e por mais que pareçam um tanto forçadas soam críveis graças à atmosfera criada pela direção de Wilder e pela atuação de seu elenco. Ao contrário de seus filmes imediatamente anteriores - com personagens americanos até a raiz dos cabelos e portanto com comportamentos bem diferentes dos mostrados aqui - Wilder criou um ambiente classicamente britânico, em que até mesmo o estilo de interpretação dos atores diverge bastante de sua obra - o que levou muita gente a pensar que o filme tivesse sido dirigido por Alfred Hitchcock. Charles Laughton (um dos maiores atores britânicos de todos os tempos) deita e rola na pele do teimoso e brilhante Wilfrid Robbarts, mal dando espaço para os demais colegas de elenco (com exceção da excelente Elsa Lanchester, sua esposa na vida real, que rouba a cena a cada momento em que aparece e levou um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por isso). Tyrone Power, por exemplo, faz o que pode no papel do réu Leonard Vole, mas sucumbe perante a força de Laughton (e seu papel foi oferecido a nomes tão díspares quanto William Holden, Gene Kelly, Kirk Douglas, Glenn Ford, Jack Lemmon e Roger Moore (!!)). Só quem chama a atenção independentemente do brilho do veterano ator inglês é, pasmem, Marlene Dietrich.

Mais uma personalidade e um símbolo sexual do que exatamente uma atriz respeitada por seus dotes histriônicos, Dietrich ficou com um papel ingrato e extremamente difícil que foi oferecido primeiramente a Ava Gardner e Rita Hayworth. Como Christine Vole (ou Helm), no entanto, Marlene demonstra que, além de sua marcante voz grave, suas belas pernas (uma cena foi criada apenas para que uma delas fosse mostrada) e seu sotaque sedutor, ela tinha sim, muito talento. Houve até cochichos que garantiam uma indicação ao Oscar (ela entusiasmou-se com a possibilidade, que acabou não se provando acurada). Basta Marlene entrar em cena que é impossível desviar os olhos de seu belo e expressivo rosto e é inegável que sua presença colabora muito com o resultado final do filme.

E se não bastasse a trama surpreendente (no final do filme há um pedido dos produtores para que o público não comentasse seu desfecho com ninguém), a direção impecável de Wilder e o elenco espetacular, "Testemunha da acusação" ainda tem um senso de humor delicioso, principalmente nos embates entre o velho advogado e sua enfermeira dedicada. Juntos, Laughton e Lanchester brindam a plateia com interpretações repletas de nuances verbais e físicas, que resgatam a obra do lugar-comum em filmes sobre julgamentos. Se não fosse detalhes meticulosamente oferecidos por Billy Wilder no decorrer da narrativa, não haveria interesse em se assistir ao filme depois da primeira vez - afinal, não há mais surpresas. Mas um homem que criou pérolas como "Crepúsculo dos deuses" e "Sabrina" e ainda haveria de lançar "Quanto mais quente melhor" e "Se meu apartamento falasse" jamais deixaria de encantar seu público. Obrigado, Billy Wilder, por mais uma obra-prima!

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Cara mesmo nunca comentando, desta vez tenho que comentar ! UHAHSUAHUSHA
Eu li acho eu, que praticamente todas as suas críticas e elas são incríveis !
Queria mesmo parabenizá-lo !
xD
Até mais...