quinta-feira, 13 de outubro de 2016

IRMA LA DOUCE

IRMA LA DOUCE (Irma La Douce, 1963, The Mirisch Corporation, 147min) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, peça teatral de Alexandre Breffort. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Daniel Mandell. Música: André Previn. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan, Edward G. Boyle. Produção: Edward L. Alperson, Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Herschel Bernardi. Estreia: 05/6/63

3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine) 

O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.

O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.


Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.

Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.

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